Se a Venezuela teve Maduro, o Brasil insiste em normalizar o Nikolas Imaturo
A política latino-americana insiste em revelar personagens que confundem liberdade com ausência de responsabilidade. No cenário recente, dois “Nicolás” acabaram associados por contraste. De um lado, Nicolás Maduro, inserido em um contexto internacional complexo e ainda em desdobramento. Não é sobre ele que este texto trata. O foco está no Brasil e em uma conduta que precisa ser chamada pelo nome que merece.
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O deputado federal Nikolas Ferreira tem afirmado reiteradamente que não há liberdade no país. Ao mesmo tempo, usa essa mesma liberdade para publicar montagens, insinuações e conteúdos manipulados envolvendo o presidente da República. Essa contradição não é casual. Ela é sintoma de imaturidade política.

Uma pessoa imatura, no campo público, é aquela que não compreende o peso institucional de seus atos, que confunde provocação com argumentação, que substitui o debate por encenação e que trata temas estruturais do Estado como se fossem peças de engajamento para redes sociais. A imaturidade política se manifesta quando o indivíduo ignora consequências, despreza limites republicanos e atua movido por aplausos imediatos em vez de responsabilidade histórica.
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É nesse sentido que Nikolas Ferreira se mostra imaturo. Não por discordar do governo, o que é legítimo, mas por optar conscientemente por estratégias que banalizam símbolos fundamentais da soberania nacional. Sugerir, ainda que por meio de montagem, que o presidente do Brasil, Lula, poderia ser preso por agentes estrangeiros, sem qualquer base factual, não é crítica política. É uma encenação irresponsável que relativiza a autoridade de um chefe de Estado eleito e normaliza a ideia de tutela externa sobre o país.
Não se trata de humor nem de sátira política sofisticada. Trata-se de conteúdo raso, calculado para provocar reação emocional, desinformar e corroer a confiança institucional. Quando um parlamentar age assim, ele não se comporta como representante do povo, mas como influenciador digital disposto a sacrificar princípios republicanos em troca de visibilidade.
A revogação da antiga Lei de Segurança Nacional não transformou o Brasil em uma terra sem regras. O ordenamento jurídico segue protegendo o Estado Democrático de Direito, inclusive contra práticas que estimulem a deslegitimação do poder constituído ou banalizem a ideia de intervenção estrangeira. Liberdade de expressão não equivale a imunidade moral ou política. Ela pressupõe responsabilidade, sobretudo para quem ocupa mandato eletivo.
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A democracia não pertence a um governo específico. Ela é maior do que Lula, maior do que Bolsonaro e maior do que qualquer projeto pessoal de poder. Nenhum democrata consequente aceitaria, como brincadeira ou provocação, a ideia de que o presidente do seu país possa ser preso por forças estrangeiras a partir de narrativas fabricadas internamente. Tratar isso como conteúdo aceitável é sinal de imaturidade política grave.
Cada país acaba convivendo com os personagens que projeta no debate público. A Venezuela teve Maduro. O Brasil convive hoje com Nikolas imaturo, um deputado que ainda não demonstrou compreender que mandato parlamentar não é palco de encenação permanente. Criticar governos é legítimo. Desrespeitar a soberania nacional, ainda que simbolicamente, é inaceitável. Quando a imaturidade ocupa espaço institucional, quem perde não é um governo específico, mas a própria democracia.


