O grande condomínio Paraná: quando a esperteza do síndico vira método de gestão
Havia um condomínio. Ou melhor, dizia-se que havia um condomínio, porque, na prática, aquilo já funcionava como um grande espetáculo de gestão criativa.
O síndico entrou prometendo organização, responsabilidade e equilíbrio. Logo de início, avisou que não haveria reajuste para os colaboradores do prédio. “Momento difícil”, explicou. Curiosamente, no mesmo período, a taxa de condomínio subiu. Não pouco. Subiu com convicção, planilha colorida e discurso técnico.
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Para “equilibrar as contas”, alguns bens do condomínio foram vendidos. Nada demais, garantiu o síndico. “Ativos ociosos”, disse ele, com aquele sorriso de quem aprendeu administração por apresentação de slides. Enquanto isso, o elevador continuava enguiçando, a pintura descascava e problemas básicos se acumulavam, mas tudo fazia parte de um plano maior. Sempre há um plano maior, ainda que nunca claramente explicado.
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Quando o mandato já se aproximava do fim, algo quase milagroso aconteceu. O condomínio virou um canteiro de obras, ao menos no PowerPoint. Reformas surgiram em sequência: piscina nova, fachada moderna, salão de festas repaginado, jardim instagramável. Em reuniões animadas, o síndico mostrava imagens impecáveis de como tudo ficaria. Para quem estava de fora, parecia que as obras já estavam prontas. Para quem morava ali dentro, ainda faltava até a lâmpada do corredor.
Foi nesse cenário que o síndico decidiu promover um grande show de fim de ano. Um evento pensado para impressionar, produzir aplausos e criar a sensação de dever cumprido. Pouco importava que o condomínio tivesse passado dias seguidos com problemas no abastecimento de água. Pouco importava que o elevador continuasse com defeito, que as obras estivessem apenas começando ou que houvesse o risco real de não terminarem, como já ocorrera antes, ou mesmo de serem abandonadas pela empreiteira. O que importava era o show. O espetáculo. A encenação pirotécnica que transformava falhas concretas em ruído de fundo, abafado por luzes, música alta e discursos empolgados.
Mas eis que alguém do condomínio, desses que ainda leem balancetes, resolveu olhar os números com mais cuidado. E algo não fechou. Surgiram indícios de desvio. Supostos, claro. Sempre supostos. Houve denúncia. Vieram áudios. Elementos que, embora classificados como “antigos”, jamais tiveram seu conteúdo efetivamente enfrentado. O debate deslocou-se dos fatos para o calendário.
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O síndico, então, explicou que estava no fim do mandato, mas precisava deixar alguém de confiança no lugar. Um parceiro. Um aliado. Alguém que “conhecia a casa”. Coincidentemente, esse mesmo parceiro passou a ser apontado como possível responsável pelos desvios. A estratégia ficou evidente: preservar o comando, trocar o rosto e empurrar a responsabilidade adiante.
Para viabilizar a eleição do próximo síndico, apresentado como continuidade administrativa e suposto cúmplice, o atual gestor passou a repetir que as denúncias eram antigas, fora de contexto e sem relevância. Não rebateu o teor. Não explicou os números. Não respondeu aos áudios que, supostamente, indicam o envolvimento de mais de uma pessoa. Preferiu o silêncio seletivo e a publicidade intensa sobre feitos que, em grande parte, existem apenas em apresentações, cronogramas indefinidos e obras iniciadas sem prazo claro de conclusão.
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E, para encerrar o ciclo com chave de ouro, veio o grande show de fim de ano. Beira da piscina, DJs, artistas sertanejos, iluminação cênica e música alta o suficiente para silenciar qualquer pergunta incômoda. Entre um brinde e outro, ninguém mais lembrava do aumento da taxa, da ausência de reajuste dos funcionários, da venda dos bens, das denúncias ou dos números que insistiam em não bater.
Todos comemoravam. Afinal, o show estava bonito, o som alto e o futuro, bem, o futuro ficaria para o próximo síndico, escolhido sob aplausos, não sob esclarecimentos.
Qualquer semelhança entre esse síndico e o governo Ratinho Junior não é mera coincidência. É método. É roteiro. É gestão encenada, onde o orçamento some nos bastidores, os serviços básicos falham no cotidiano, as denúncias são relativizadas pelo tempo e a conta chega para quem mora no prédio, enquanto o espetáculo acontece no fim, com luzes, palco e aplausos suficientes para apagar a memória coletiva.
E não, definitivamente, não é de condomínio que estamos falando.


