Duplicação do Contorno Sul ganha força quando o interesse é familiar?
Durante anos, o Contorno Sul de Maringá foi sinônimo de promessa reciclada, anúncios oficiais e espera. Uma via estratégica, castigada diariamente pelo trânsito pesado, por acidentes recorrentes e pelo abandono histórico, mesmo sendo um dos principais eixos logísticos da cidade e da região metropolitana.
Agora, o discurso mudou de tom e de velocidade.
A duplicação total de aproximadamente 11,8 a 12 quilômetros, entre os entroncamentos com a PR-317 e a BR-376, com pavimento em concreto rígido, 17 viadutos, uma ponte, passarelas para pedestres, vias marginais e novos acessos urbanos, finalmente saiu do papel técnico e entrou na fase decisiva: licitação. O investimento anunciado, em torno de R$ 450 milhões, é robusto, compatível com a dimensão do problema e, curiosamente, com novos interesses que surgem ao longo do trajeto.
É justamente nesse trecho, marcado há anos pelo fluxo intenso de caminhões, carretas e transporte pesado, que o Grupo Massa, da família do governador Ratinho Junior, está construindo sua nova e imponente sede em Maringá, com estúdios de rádio e televisão. Um empreendimento de grande porte, que naturalmente exige infraestrutura viária compatível, segurança, fluidez e acesso facilitado.
Coincidência? Talvez.
Conveniente? Sem dúvida.
Se alguém ainda tinha dúvidas se a duplicação do Contorno Sul sairia do papel, pode ficar tranquilo. O motivo agora parece suficientemente grande, relevante e estratégico para garantir que a obra avance sem novos adiamentos. Quando interesses econômicos poderosos passam a conviver diariamente com gargalos urbanos, a máquina pública costuma ganhar eficiência exemplar.

Isso não invalida a obra. Ao contrário. O Contorno Sul precisa, urgentemente, dessa intervenção. Caminhoneiros, trabalhadores, moradores da região, empresários e toda a cadeia logística pagam há anos o preço do descaso. O problema é outro. Por que somente agora? Por que só quando o peso político e empresarial cruza o mesmo asfalto esburacado da população?
O poder público não deveria agir por conveniência, mas por planejamento. Obras estruturantes não podem depender de quem constrói sedes, estúdios ou palácios ao longo do caminho. Precisam nascer da necessidade coletiva, não da proximidade com o poder.
Ainda assim, se a obra finalmente vai sair, que saia completa, transparente e sem maquiagem. Que atenda a cidade, não apenas os interesses que hoje ajudam a empurrá-la para frente.
Maringá merece um Contorno Sul seguro, moderno e funcional.
Mesmo que, ironicamente, ele só tenha virado prioridade quando passou a incomodar quem sempre teve trânsito livre.


