Me diga com quem andas, Nikolas, que direi quem você é
A chamada “caminhada” liderada por Nikolas Ferreira em direção a Brasília não é um simples ato simbólico ou manifestação espontânea de cidadania. Ela carrega um recado político explícito: a tentativa de pressionar, no grito e no espetáculo, decisões que já foram tomadas pela Justiça brasileira após investigações, processos legais e julgamentos conduzidos dentro do Estado Democrático de Direito.
Mais revelador do que o discurso é o elenco que acompanha essa mobilização. Entre os nomes que marcham ao lado de Nikolas, há um padrão que não pode ser ignorado: parlamentares que, em diferentes momentos, foram alvos de inquéritos, investigações ou processos relacionados a ataques às instituições, disseminação de desinformação e envolvimento em atos antidemocráticos.
No Senado, Magno Malta, do PL do Espírito Santo, já figurou como investigado no Supremo Tribunal Federal, inclusive no Inquérito das Fake News, além de responder por acusações de calúnia e injúria contra ministros da Corte. Márcio Bittar, senador pelo Acre, embora não possua condenações criminais recentes, já teve seu nome associado a investigações sobre uso de verbas parlamentares, temas que jamais foram plenamente esclarecidos à sociedade.
Na Câmara dos Deputados, o cenário é ainda mais ilustrativo. Gustavo Gayer, de Goiás, responde a inquéritos no STF por declarações consideradas racistas e por disseminação de desinformação, além de ter sido investigado pela Polícia Federal por suspeitas envolvendo verba parlamentar e falsificação documental. Carlos Jordy, do Rio de Janeiro, é investigado na Operação Lesa Pátria, que apura o financiamento e a organização dos atos de 8 de janeiro de 2023, incluindo crimes graves como tentativa de golpe de Estado.
Zé Trovão, de Santa Catarina, chegou a ter prisão decretada e utilizou tornozeleira eletrônica por ordem judicial em inquérito relacionado a atos antidemocráticos. Delegado Éder Mauro, do Pará, acumula histórico de processos por crimes atribuídos à sua atuação profissional anterior, além de ações eleitorais por injúria. Junio Amaral, de Minas Gerais, também figura no Inquérito das Fake News por ataques a instituições. Maurício do Vôlei, igualmente mineiro, foi preso em flagrante por porte ilegal de arma antes de assumir o mandato. Luciano Zucco, do Rio Grande do Sul, foi investigado por incentivar atos antidemocráticos, ainda que negue irregularidades. André Fernandes, do Ceará, chegou a ser investigado no contexto do 8 de janeiro. Embora tenha tido pedido de arquivamento por falta de provas diretas, seu nome permanece ligado a esse episódio grave da história recente.
Silêncio estratégico ou contradição política? Moro e as denúncias no Paraná
O ponto central não é antecipar culpa nem desrespeitar o devido processo legal. O que se impõe é a constatação de um fato político: quem se reúne nessa caminhada não o faz para defender princípios abstratos de justiça, mas para questionar, desacreditar e pressionar decisões que não lhes foram favoráveis. Trata-se de uma tentativa recorrente de transformar sentença judicial em disputa de rua, como se a lei pudesse ser revertida pelo volume de gritos ou pelo alcance de transmissões nas redes sociais.
A democracia não funciona assim. Direitos de defesa se exercem nos autos, não no asfalto. Discordâncias se enfrentam com recursos legais, não com encenações que flertam com a desinformação e a deslegitimação institucional.
CNTE comemora reajuste do piso do magistério; prefeitos contestam
Caminhar é um direito. Questionar é legítimo. Mas tentar reescrever decisões judiciais por meio de pressão política e mobilização emocional não fortalece a democracia. Enfraquece. E quando o coro é liderado justamente por quem já teve reiterados embates com a Justiça, a sociedade tem o dever de observar com atenção, senso crítico e memória.
Porque, no Estado de Direito, não é o grito que decide. É a lei.


