Crédito fácil amplia endividamento e afeta produtividade no trabalho
O avanço acelerado do crédito consignado no Brasil tem gerado impactos que vão além da vida financeira dos trabalhadores e já começam a preocupar empresas e especialistas em relações de trabalho. Em apenas sete meses, a contratação desse tipo de crédito quase triplicou no país, enquanto as taxas de juros em algumas modalidades já se aproximam de 60% ao ano, criando um cenário de endividamento crônico, queda de produtividade e aumento de conflitos no ambiente corporativo.
Segundo o advogado empresarial e especialista em Gestão da Relação do Trabalho, Dr. Alan Carlos Ordakovski, o consignado deixou de ser uma solução pontual para se transformar em um problema estrutural. “O crédito consignado virou uma bomba-relógio social e empresarial. Ele corrói a saúde financeira do trabalhador, destrói a produtividade das empresas e cria um passivo silencioso dentro das áreas de RH, jurídico e gestão”, afirma.
Dados recentes indicam que mais de 72 milhões de brasileiros estão negativados, o maior número da história. Entre 2023 e 2024, houve crescimento superior a 40% na busca por empréstimos consignados para o pagamento de outras dívidas, prática que evidencia o ciclo de endividamento conhecido como “dívida para pagar dívida”. Além disso, trabalhadores chegam a comprometer entre 30% e 40% do salário líquido com parcelas mensais, reduzindo drasticamente sua capacidade de sustento básico. “Isso não é crédito saudável. É erosão de renda disfarçada de solução rápida”, pontua Ordakovski.
O reflexo desse cenário já é sentido dentro das empresas. Aumento de faltas, atrasos, afastamentos por adoecimento emocional e queda de desempenho são sintomas recorrentes entre funcionários superendividados. “Quando o salário acaba antes do dia cinco, não existe foco, disciplina ou produtividade que se sustente. E quem absorve esse custo é a empresa”, explica o advogado.
Outro efeito direto é a pressão crescente sobre os departamentos de Recursos Humanos, que passam a lidar com pedidos frequentes de adiantamentos salariais, empréstimos internos e renegociações informais. Paralelamente, cresce a litigiosidade trabalhista, com ações envolvendo alegações de descontos indevidos, rescisões indiretas e conflitos relacionados ao comprometimento excessivo da renda. “O Judiciário virou o confessionário do superendividamento. O problema que começa no salário termina no processo”, alerta.
A alta rotatividade também preocupa. Funcionários endividados tendem a trocar de emprego de forma precipitada, em busca de qualquer promessa de renda maior, sem planejamento de carreira. “A empresa perde talento, perde previsibilidade e perde dinheiro. O consignado virou uma muleta financeira que impede o trabalhador de evoluir e trava o desempenho das organizações”, avalia Ordakovski.
Para o especialista, as empresas precisam assumir um papel mais ativo na prevenção desse cenário. Entre as medidas recomendadas estão a criação de políticas claras de combate ao superendividamento, programas consistentes de educação financeira, revisão de práticas internas que estimulam o crédito fácil e uma atuação jurídica estratégica para reduzir riscos trabalhistas futuros. “Cultura organizacional também é proteção. Empresas são o único agente que consegue enxergar o problema antes dele explodir”, destaca.
Ordakovski reforça que o consignado não é um vilão isolado, mas se tornou um dos principais aceleradores do colapso financeiro silencioso do trabalhador brasileiro. “Se nada mudar, ele será também um grande catalisador de passivos empresariais, conflitos judiciais e queda de competitividade. Crédito fácil está sabotando o futuro da força de trabalho e o crescimento das empresas”, conclui.
Serviço: Ordakovski & Tavares Júnior Advogados Associados (OTJ)
Dr. Alan Carlos Ordakovski
Advogado especialista em Direito do Trabalho e Gestão de Contencioso Empresarial



