O escândalo do Banco Master e o silêncio que cerca a família Ratinho

O escândalo do Banco Master e o silêncio que cerca a família Ratinho

O avanço da Operação Compliance Zero escancarou um problema que vai muito além de um banco sob investigação. O que está em jogo é a forma como poder político, sistema financeiro, grandes grupos empresariais e relações institucionais sensíveis passaram a conviver de maneira excessivamente próxima no Paraná. Nesse cenário, a família Ratinho surge como personagem central, não por acusações diretas, mas pelo contexto que se construiu ao redor de decisões estratégicas do Estado.

Desde 2019, com a chegada de Ratinho Junior ao Palácio Iguaçu, o Paraná entrou em uma agenda acelerada de privatizações e concessões. O discurso oficial sempre foi o da eficiência, da modernização e da atração de investimentos. O que hoje se revela, à luz das investigações federais, é que esse processo avançou sem o rigor necessário na verificação da origem dos recursos, dos riscos financeiros envolvidos e das consequências institucionais para o Estado.

Foi nesse ambiente que o Banco Master ganhou protagonismo. A instituição tornou-se peça relevante na engenharia financeira de operações estratégicas, entre elas a privatização da Copel Telecom, hoje Ligga. À época, o governo celebrou o modelo adotado. Hoje, o mesmo banco é alvo de investigações que resultaram no bloqueio de mais de 5,7 bilhões de reais, valor que desmonta qualquer narrativa de normalidade.

A cronologia dos fatos é eloquente.
Em 2022 e 2023, o Banco Master se consolida como operador financeiro de peso no Paraná. Em 2023, participa diretamente da privatização da Copel Telecom. Em 2024, surgem indícios mais consistentes de irregularidades. Em 2025, a Polícia Federal deflagra a Operação Compliance Zero, apreende o telefone celular do empresário Nelson Tanure a caminho de Curitiba e bloqueia cifras bilionárias. Em seguida, processos relacionados ao banco chegam ao Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Dias Toffoli.

Ao mesmo tempo, outro elemento agrava a percepção pública. O apresentador Ratinho, pai do governador Ratinho Junior, manteve sociedades empresariais em empreendimentos turísticos de alto padrão, como o Tayayá Porto Rico, que também envolveram familiares do ministro Dias Toffoli. Não se trata, até aqui, de afirmar ilegalidade. Trata-se de reconhecer que a proximidade entre agentes políticos, interesses econômicos e familiares de magistrados cria um ambiente de desconforto institucional que não pode ser ignorado.

A pergunta que se impõe é simples e inevitável.
Como exigir confiança plena da sociedade quando um banco hoje sob investigação estruturou privatizações bilionárias no Paraná, enquanto processos envolvendo esse mesmo banco tramitam no STF e figuras centrais desse ecossistema mantêm relações empresariais cruzadas?

O silêncio do governo Ratinho Junior diante desses fatos é ensurdecedor. Não há explicações públicas detalhadas sobre os critérios financeiros adotados, sobre os mecanismos de blindagem institucional nem sobre os riscos assumidos ao transferir ativos estratégicos do Estado. A ausência de respostas não protege. Pelo contrário, aprofunda a desconfiança e amplia o desgaste político.

É preciso registrar com clareza. Não há, até o momento, condenações contra o governador Ratinho Junior ou contra seu pai relacionadas ao Banco Master. Mas a democracia não se sustenta apenas na ausência de condenações. Sustenta-se na confiança pública, e confiança exige transparência, distanciamento republicano e prestação de contas.

O escândalo do Banco Master deixou de ser apenas um caso financeiro. Tornou-se um teste de integridade institucional. Testa o modelo de privatizações do Paraná. Testa a separação entre interesses privados e decisões públicas. Testa a capacidade das elites políticas, econômicas e jurídicas de compreender que poder exige limites.

Quando bancos, governos, empresários, comunicadores e tribunais passam a gravitar no mesmo circuito de influência, o risco não é apenas jurídico. É democrático.
E o que ameaça a democracia não é a investigação. É o silêncio.

Redação O Diário de Maringá

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