Do “bairro do bem-viver” ao canteiro de suspeitas ambientais: o contraste entre o marketing do Reserva Tuiuti e as denúncias ao MP
“Muito mais do que um lugar para morar, o Reserva Tuiuti é o bairro pensado para o bem-viver. Um refúgio natural, cercado de verde, que une conforto, praticidade e qualidade de vida em cada detalhe.”
É assim que o departamento de vendas do empreendimento Reserva Tuiuti apresenta o loteamento ao público. Um discurso cuidadosamente construído, que associa see o projeto à ideia de sustentabilidade, natureza preservada e qualidade de vida.
O discurso de moralidade administrativa resiste ao caso Guto Silva?
No entanto, documentos técnicos protocolados no Ministério Público do Paraná (MPPR) apontam um cenário que não condiz com a imagem vendida ao mercado imobiliário.
Um relatório oficial, assinado e com autenticação verificável, indica fortes indícios de crime ambiental envolvendo o parcelamento do solo do Reserva Tuiuti, localizado na região norte de Maringá, nas proximidades da Avenida Tuiuti.
Desvio de rio e aterro de APP para ampliar lucros
Segundo o relatório encaminhado ao MPPR, houve intervenções diretas em curso d’água, incluindo aterro de rio, desvio definitivo do leito, canalização artificial e descaracterização de Área de Preservação Permanente (APP).
A suspeita central é de que o curso natural do rio teria sido alterado deliberadamente para ampliar a área loteável do empreendimento, permitindo a criação de mais lotes e, consequentemente, o aumento do potencial de lucro, em possível afronta à legislação ambiental.
Imagens aéreas e registros fotográficos anexados ao documento mostram claramente o trecho do rio aterrado e a abertura de um novo canal artificial, caracterizando um desvio permanente do curso d’água.
Máquinas dentro do leito e erosões severas
Imagens de satélite datadas de 8 de fevereiro de 2025 revelam retroescavadeiras operando diretamente no local, inclusive dentro do trecho do rio aterrado e no canal desviado. O uso de maquinário pesado reforça que as intervenções são recentes e tiveram impacto ambiental imediato.
O relatório também aponta a execução de canalização rígida por mais de 300 metros, com uso de rachão no leito, alterando completamente a dinâmica natural do rio e sua função ecológica.
Além disso, foram identificadas erosões lineares severas ao longo do terreno, atribuídas à ausência de curvas de nível e de práticas básicas de conservação do solo. Parte dessas erosões deságua diretamente no canal desviado, transportando sedimentos, matéria orgânica e possivelmente fertilizantes e agrotóxicos para o curso d’água.
APP descaracterizada e vegetação incompatível
Após a canalização, as margens do novo canal foram recobertas com gramínea exótica, prática considerada incompatível com áreas de preservação permanente.
O relatório técnico é categórico ao afirmar que o canal artificial implantado não guarda relação com o ambiente natural original, caracterizando um impacto ambiental severo, com danos possivelmente irreversíveis à fauna, à flora e ao solo.
Risco de colapso e alagamentos futuros
Outro alerta considerado grave diz respeito ao possível subdimensionamento do canal artificial. As erosões intensas observadas em poucos meses no desvio temporário indicam que, com a futura urbanização e o aumento da impermeabilização do solo, há risco concreto de:
- rompimento do canal;
- retorno do rio ao leito original;
- entupimento de tubulações;
- alagamentos de vias urbanas e áreas vizinhas.
Investigação pode gerar multas milionárias
O relatório recomenda ao MPPR uma série de providências, entre elas:
- controle imediato das erosões;
- apuração dos reais motivos da obra;
- identificação dos responsáveis técnicos e consultores ambientais;
- verificação da licença ambiental concedida, possivelmente pelo Instituto Água e Terra (IAT);
- contabilização dos impactos ambientais;
- definição de medidas de mitigação e compensação ambiental.
Caso fique comprovado que o desvio do rio teve como finalidade “ganhar lotes”, o documento sugere a aplicação de multa equivalente ao dobro do valor de mercado dos lotes obtidos irregularmente, o que pode representar cifras milionárias.
Marketing verde x realidade sob investigação
Enquanto o material promocional vende o Reserva Tuiuti como um “refúgio natural” e um “bairro do bem-viver”, os documentos oficiais em análise pelo Ministério Público levantam dúvidas profundas sobre como esse verde foi construído e a que custo ambiental.
O caso expõe, mais uma vez, o choque entre o discurso ambiental usado como ferramenta de marketing imobiliário e a realidade das intervenções no território, agora sob escrutínio do MPPR.



