Esquema de desvio revelado em delação expõe operadores ligados ao círculo político de Guto Silva

Esquema de desvio revelado em delação expõe operadores ligados ao círculo político de Guto Silva

A ascensão política de Guto Silva no Paraná não se deu apenas por meio de mandatos eletivos e cargos públicos. Segundo reportagem publicada pela Gazeta do Paraná, desde os primeiros passos de sua carreira política em Pato Branco, sua trajetória é acompanhada por operadores políticos que atuam fora das urnas, mas dentro das engrenagens administrativas e eleitorais do Estado.

Dois desses nomes — José Ronaldo da Silva e José Ricardo Crema Tiba — aparecem de forma recorrente ao longo de mais de uma década. Ambos figuram como réus em uma ação penal que apura fraude em licitações e desvio de recursos públicos, processo que já superou a primeira instância e atualmente tramita no Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), após recurso interposto por outros três réus condenados.

Os fatos narrados e hoje analisados judicialmente se distribuem ao longo de diferentes momentos, mas seguem um padrão que se repete: campanha eleitoral, ocupação de cargos estratégicos, articulação política regional e contratos públicos sob suspeita. Em todos esses ciclos, os mesmos personagens reaparecem.


2014: campanha eleitoral e doações sob questionamento

Nas eleições de 2014, quando Guto Silva disputou uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná, José Ronaldo da Silva atuou como coordenador político local da campanha em Pato Branco. Já José Ricardo Crema Tiba participou ativamente das agendas eleitorais no Sudoeste do Estado, conforme registros públicos e postagens em redes sociais da época.

É nesse contexto que surge Jakson Rodrigo Zapparoli, colaborador informal da campanha. Posteriormente, ele relatou à Justiça Eleitoral que realizou doações eleitorais em seu próprio nome com valores que não lhe pertenciam, alegando que os recursos teriam sido repassados por José Ronaldo da Silva. Segundo Zapparoli, o objetivo seria dar aparência de legalidade a valores cuja origem não estaria formalmente comprovada.

O episódio resultou na aplicação de multa superior a R$ 28 mil, inscrição em dívida ativa e restrições em seu CPF. À época, o caso foi tratado exclusivamente na esfera eleitoral.


2015: licitações direcionadas e desvio de recursos públicos

No ano seguinte, 2015, ocorre o núcleo mais grave dos fatos apurados. De acordo com denúncia do Ministério Público do Paraná, licitações promovidas pela Prefeitura de Itapejara d’Oeste — Tomadas de Preços nº 24/2015 e nº 30/2015 — teriam sido direcionadas para beneficiar a empresa Patoluz Projetos e Instalações Elétricas Ltda.

Segundo a acusação, o valor da obra foi artificialmente elevado de aproximadamente R$ 126 mil para cerca de R$ 216 mil, por meio da inflação de preços unitários, mantendo-se as quantidades para evitar questionamentos técnicos. Outras empresas teriam participado apenas para simular concorrência, enquanto a vencedora já estaria definida antes da publicação dos editais.

O Ministério Público sustenta que reuniões prévias envolveram o então prefeito Eliandro Luiz Pichetti, empresários, servidores municipais e dois articuladores externos: José Ronaldo da Silva e José Ricardo Crema Tiba. Após os pagamentos, parte dos valores teria retornado ao grupo, caracterizando desvio de recursos públicos.

Em depoimento, Guto Silva afirmou manter “amizade íntima” com os réus. Os próprios acusados confirmaram que trabalhavam para Guto Silva à época, embora tenham negado qualquer envolvimento com o esquema investigado.


2016: engrenagem eleitoral reaparece no Judiciário

Em 2016, dois anos após a campanha e um ano depois das licitações investigadas, Jakson Rodrigo Zapparoli ingressou com ação cível de indenização contra Guto Silva e José Ronaldo da Silva. No processo, descreveu o funcionamento interno da campanha de 2014 e reiterou que teria sido induzido a realizar doações eleitorais em seu nome para regularizar recursos que não seriam seus.

A 10ª Câmara Cível do TJ-PR negou o pedido por insuficiência de provas de coação. Apesar disso, o acórdão registrou a existência das doações, da multa aplicada e da dinâmica interna relatada. Não houve condenação cível, mas ficou documentado um modelo informal de circulação de recursos em campanha.


Ação penal em segunda instância

Anos depois, os mesmos personagens reaparecem na ação penal nº 0000935-48.2022.8.16.0131, que apura os fatos de 2015. Além de Zapparoli, figuram como réus José Ronaldo da Silva, José Ricardo Crema Tiba e outros envolvidos na administração municipal.

A denúncia foi recebida, houve instrução processual e sentença em primeira instância. As decisões foram objeto de recurso, e o processo atualmente tramita na 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná, aguardando manifestação da Procuradoria-Geral de Justiça. Não houve absolvição definitiva, arquivamento ou prescrição reconhecida até o momento.


Operadores mantidos em cargos estratégicos

Mesmo com o avanço do processo judicial, José Ronaldo da Silva e José Ricardo Crema Tiba continuaram ocupando cargos comissionados no governo estadual, acompanhando de perto a trajetória administrativa de Guto Silva.

José Ronaldo passou pela Celepar, Casa Civil e Secretaria de Estado do Planejamento, exatamente nos períodos em que Guto comandava essas estruturas. Dados do Portal da Transparência indicam remunerações superiores a R$ 15 mil mensais em determinados períodos.

Em suas redes sociais, Ronaldo também aparece em fotografia com Jaime Antônio da Camargo Ferreira, servidor comissionado ligado a Guto Silva que, em áudios recentemente revelados, afirmou que o secretário detinha o aval para autorizar práticas ilícitas no Estado. Os áudios apontam um suposto esquema de arrecadação política dentro da Sanepar, com servidores coagidos a realizar depósitos de R$ 5 mil em favor do PSD, partido de Guto Silva e do governador Ratinho Junior.

José Ricardo Crema Tiba ocupou cargos na Casa Civil em diferentes momentos e manteve lotações regionais estratégicas. Entre 2019 e 2023, recebeu remunerações que variaram entre R$ 9 mil e mais de R$ 38 mil, considerando vencimentos e pagamentos acumulados. Mesmo após se tornar réu em ação penal por crimes ligados à Lei de Licitações, permaneceu na estrutura do Executivo.

Além disso, Tiba seguiu atuando eleitoralmente ao lado de Guto Silva em 2014, reapareceu em articulações políticas em 2016 e voltou a atuar ativamente na campanha de 2022, quando o processo criminal já estava em curso.

Redação O Diário de Maringá

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