O que Roveda não diz: fim da baliza já era autorizado nacionalmente e não é criação sua nem do Governo Ratinho Junior
A retirada da baliza do exame prático da CNH no Paraná foi anunciada pelo presidente do Detran-PR, Santin Roveda, como uma decisão administrativa baseada em números locais. Segundo ele, metade dos candidatos reprova no teste e, desses, 90% falham na baliza. A mudança, afirma, busca avaliar o que realmente importa no trânsito: atenção, controle do veículo e respeito às regras.
Os dados apresentados podem justificar uma revisão do modelo de avaliação. O que chama atenção, no entanto, é o enquadramento político do discurso e, sobretudo, o que ficou de fora dele.
A retirada da baliza não surgiu por iniciativa isolada do Paraná. Ela só se tornou possível porque o Conselho Nacional de Trânsito, Contran, órgão federal que regula o Sistema Nacional de Trânsito, flexibilizou as diretrizes do exame prático, deixando de exigir a baliza como etapa obrigatória e eliminatória em todo o país. Sem essa mudança no plano federal, qualquer decisão estadual nesse sentido seria simplesmente ilegal. Conforme Resolução Federal nº 1.020, de 1º de dezembro de 2025
Esse dado não é secundário. Ele é central.
Outros estados, como São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul, já haviam adotado modelos semelhantes antes do Paraná. Ou seja, não se trata de uma inovação pioneira, tampouco de uma ruptura promovida exclusivamente pelo Detran-PR. Trata-se da adoção local de uma permissão nacional.
É justamente aí que surge o questionamento legítimo. Por que o discurso oficial ignora o papel decisivo do Governo Federal nessa mudança?
Ao apresentar a retirada da baliza como fruto exclusivo de uma decisão estadual, o presidente do Detran constrói uma narrativa de protagonismo que não corresponde integralmente aos fatos. O Paraná executou a mudança, sim, mas só pôde fazê-lo porque a norma federal abriu esse caminho.
Essa omissão pode ser apenas retórica institucional. Também pode ter leitura política.
Santin Roveda é um nome em ascensão dentro do governo estadual e figura cada vez mais exposta publicamente. Ao transformar uma flexibilização autorizada pelo sistema federal em uma marca da gestão paranaense, o gesto rende dividendos simbólicos: modernização, eficiência, redução de custos e facilitação do acesso à CNH. Tudo isso soa bem aos ouvidos do eleitor.
A pergunta que se impõe, portanto, não é acusatória, mas necessária. Essa mudança está sendo apresentada como política pública ou como ativo político pessoal?
Não há ilegalidade na decisão. Tampouco há problema em defender um exame mais conectado à realidade do trânsito. O que se espera, porém, é transparência completa. Reconhecer que a medida decorre de uma diretriz federal não diminui o mérito da execução estadual. Apenas impede que o debate público seja conduzido por uma narrativa incompleta.
Se a baliza caiu, caiu porque o Governo Federal permitiu.
Se o Paraná aplicou, aplicou como outros estados já haviam feito.
Vender isso como exclusividade local é, no mínimo, uma meia-verdade.
E, na política, meia-verdade costuma ser mais perigosa do que erro técnico.
Veja o diretor-presidente do Detran Paraná vendendo a ideia como se fosse uma iniciativa exclusiva do Governo do Paraná.


