Islândia e Reino Unido reduziram a jornada de trabalho e aumentaram a produtividade
O Brasil ainda mantém uma das jornadas formais mais altas entre economias relevantes, 44 horas semanais. Enquanto isso, países desenvolvidos vêm testando e adotando modelos mais curtos, com resultados que desafiam o senso comum de que trabalhar mais é produzir mais.
A pergunta que precisa ser feita é objetiva: reduzir a jornada piora ou melhora a economia?
O que mostram as experiências internacionais
No Reino Unido, o maior experimento já realizado com semana de quatro dias, entre 2022 e 2023, envolveu 61 empresas e cerca de 3 mil trabalhadores. A jornada caiu para 32 horas semanais sem redução salarial. Os resultados foram expressivos. A receita média das empresas aumentou cerca de 1% durante o teste e até 35% em comparação com o ano anterior, segundo dados divulgados pelos organizadores do estudo. Houve queda significativa no estresse e no absenteísmo. Mais de 90% das empresas mantiveram o modelo após o teste.
Já na Islândia, testes realizados entre 2015 e 2019 no setor público reduziram a jornada de 40 para 35 a 36 horas semanais, sem corte salarial. Os relatórios indicaram produtividade igual ou superior à anterior e melhora clara no equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Hoje, cerca de 80% da força de trabalho islandesa tem jornada reduzida ou direito a negociá-la.
Não se trata de ideologia. Trata-se de dados confirmados na prática.
Empresas britânicas aprovam semana de quatro dias de trabalho
Por que isso pode funcionar?
Há três fatores centrais. Foco e eficiência aumentam quando o tempo é limitado. A redução do esgotamento diminui afastamentos e melhora o desempenho. Maior equilíbrio social gera impacto positivo no consumo e na qualidade de vida.
Estudos da OCDE indicam que países com jornadas menores frequentemente apresentam maior produtividade por hora trabalhada. Ou seja, não é o volume de horas que define a eficiência, mas a qualidade do tempo trabalhado.
E no Brasil?
O Brasil enfrenta alta taxa de informalidade, baixa produtividade média por hora quando comparada a países desenvolvidos e crescente número de afastamentos por transtornos mentais e burnout.
Reduzir a jornada para 40 horas semanais, por exemplo, representaria uma queda de aproximadamente 9% no tempo formal de trabalho. Ir para 36 horas significaria redução de cerca de 18%.
Mas a questão central não é matemática. É estrutural.
Se a produtividade por hora subir, o impacto pode ser neutro ou até positivo para a economia. Além disso, uma jornada menor pode estimular geração de empregos pela divisão da carga horária, maior consumo interno, melhora na saúde pública e redução de acidentes de trabalho.
É possível no Brasil? Sim, mas com cautela.
Não se pode simplesmente importar modelos europeus sem considerar diferenças econômicas. O Brasil tem desafios fiscais, desigualdades regionais e grande setor informal. Porém, ignorar os dados internacionais também é um erro estratégico.
Talvez o caminho esteja em projetos piloto por setor, redução gradual para 40 horas, incentivos à produtividade e à inovação tecnológica e fortalecimento da negociação coletiva.
A experiência internacional sugere que menos horas não significam menos resultado. Em muitos casos, significam mais eficiência, mais saúde e melhor desempenho econômico.
O Brasil precisa deixar o debate ideológico de lado e discutir com base em evidências. Trabalhar melhor pode ser mais importante do que trabalhar mais.



