Até os EUA têm seu “Bolsa Família” e isso desmonta o discurso de Luciano Hang
Há um discurso repetido à exaustão no Brasil de que o Bolsa Família estimula preguiça, desincentiva o trabalho e seria uma invenção típica de governos de esquerda. Mas basta olhar para os Estados Unidos, país frequentemente citado como símbolo máximo do capitalismo, para perceber que a realidade é bem diferente.
Lá, mesmo sob governos conservadores, os programas sociais não só existem como movimentam centenas de bilhões de dólares por ano. O Supplemental Nutrition Assistance Program, conhecido como SNAP, garante auxílio alimentação mensal para milhões de famílias de baixa renda. O Earned Income Tax Credit devolve dinheiro no imposto para trabalhadores que recebem pouco. O Supplemental Security Income paga benefício mensal para idosos e pessoas com deficiência. O Medicaid oferece cobertura de saúde gratuita para milhões de americanos pobres.
Nenhum desses programas foi extinto por governos de direita. Pelo contrário, fazem parte da estrutura permanente do Estado americano.
Diante disso, surge uma pergunta incômoda. Se até os Estados Unidos têm seu “Bolsa Família”, por que no Brasil ainda se tenta transformar assistência social em sinônimo de atraso?
Em 2025, o empresário Luciano Hang, dono da Havan, criticou publicamente o Bolsa Família, classificando o programa como um atraso e afirmando que o assistencialismo estaria gerando falta de mão de obra no comércio e na indústria. A crítica ganhou repercussão e alimentou o debate.
Mas a comparação internacional desmonta parte dessa narrativa.
Alemanha
Principais programas:
- Bürgergeld (antigo Hartz IV): auxílio para desempregados de longa duração
- Seguro-desemprego contributivo
- Moradia subsidiada (Wohngeld)
- Seguro-saúde universal obrigatório
A Alemanha combina assistência social com forte exigência de reinserção no mercado de trabalho.
França
Principais programas:
- RSA (Renda de Solidariedade Ativa)
- Seguro-desemprego
- Auxílio-moradia (APL)
- Sistema público de saúde universal
A França tem um dos sistemas de proteção social mais abrangentes da Europa.
Canadá
Principais programas:
- Canada Child Benefit (benefício para famílias com filhos)
- Seguro-desemprego (Employment Insurance)
- Auxílio provincial para baixa renda
- Sistema público de saúde
O Canadá foca muito em apoio à família e proteção contra desemprego.
Reino Unido
Principais programas:
- Universal Credit (benefício unificado para desempregados e baixa renda)
- NHS (saúde pública gratuita)
- Auxílio-moradia
- Child Benefit
O modelo britânico unificou vários benefícios em um único sistema digital.
Estados Unidos
Mesmo sendo mais liberal economicamente, os EUA também têm programas sociais:
- SNAP (vale-alimentação)
- Medicaid (saúde para baixa renda)
- Seguro-desemprego estadual
- Social Security (aposentadoria pública)
O sistema é mais descentralizado e menos universal que o europeu.
Suécia
A Suécia é referência no chamado Estado de Bem-Estar Social:
- Licença parental longa e remunerada
- Auxílio-família universal
- Educação pública gratuita até universidade
- Seguro-desemprego e assistência habitacional
Nos Estados Unidos, onde a economia é mais liberal que a brasileira, ninguém atribui automaticamente programas sociais à falta de trabalhadores. O debate por lá gira em torno de produtividade, qualificação, salário e dinâmica do mercado, não da simples existência de proteção social.
Além disso, o Bolsa Família não é salário permanente nem substitui emprego formal. É complemento de renda para famílias em situação de vulnerabilidade, com condicionalidades ligadas à frequência escolar e à saúde. Atua como amortecedor social e injeta recursos diretamente no comércio local, inclusive no varejo.
Afirmar que programas de transferência de renda são responsáveis pela falta de mão de obra ignora fatores como informalidade, baixa remuneração em determinados setores e a própria dinâmica econômica regional. Se assistência social fosse sinônimo de colapso produtivo, os Estados Unidos não manteriam uma das maiores economias do mundo enquanto sustentam uma robusta rede de apoio aos mais pobres.
O debate sério não é se deve existir programa social. O debate é como melhorar, fiscalizar e integrar com políticas de qualificação e geração de emprego. Transformar o tema em trincheira ideológica pode gerar manchete e aplauso de plateia. Mas não resolve o problema estrutural do país.
Se o maior símbolo do capitalismo mundial combina mercado forte com proteção social, talvez esteja na hora de abandonar o rótulo fácil e enfrentar a discussão com dados, não com slogans.



