Um único aporte à SRM ultrapassa o orçamento anual do Hospital da Criança, qual é a lógica?
A Sociedade Rural recebeu cerca de 39% a mais do que o valor anual destinado ao Hospital da Criança
É preciso deixar claro: a Sociedade Rural de Maringá (SRM) é uma instituição privada. Não é órgão público. Não é autarquia. Não integra a estrutura do Estado. É uma entidade privada que organiza eventos, entre eles a Expoingá, e possui geração própria de receita.
Dito isso, o Governo do Paraná destinou R$ 25 milhões em recursos públicos para revitalização de estruturas no Parque de Exposições.
Enquanto isso, o Hospital da Criança de Maringá recebe aproximadamente R$ 1,5 milhão por mês para custeio. No ano, algo em torno de R$ 18 milhões. Valor que sustenta UTI, oncologia pediátrica, plantões médicos, equipe multiprofissional, medicamentos e manutenção hospitalar.
A comparação é inevitável.
Uma entidade privada recebe R$ 25 milhões de uma só vez para infraestrutura de eventos.
Um hospital público especializado em crianças depende de repasse mensal para continuar funcionando.
Não se trata de demonizar o agronegócio ou os eventos. A Expoingá movimenta a economia, gera empregos temporários e atrai visitantes. Isso é fato. Mas também é fato que a SRM é uma entidade privada com capacidade de gerar receita própria por meio de ingressos, locações, patrocínios e comercialização de espaços.
A pergunta que ecoa é simples:
Qual é a contrapartida social concreta quando recursos públicos são destinados a uma instituição privada?
Existe cláusula obrigando percentual de arrecadação para a saúde?
Haverá show com renda revertida ao Hospital da Criança?
Há compromisso formal de investimento social proporcional ao aporte recebido?
Ou o investimento encerra-se na obra?
R$ 25 milhões representam cerca de 138% de tudo o que o Estado envia ao Hospital da Criança ao longo de um ano inteiro. Em uma única liberação, supera-se o custeio anual de uma unidade hospitalar pediátrica.
Não é ideologia. É matemática.
Quando dinheiro público entra em instituição privada, a transparência e a contrapartida precisam ser ainda mais claras. Porque hospital não tem bilheteria. UTI não vende camarote. Tratamento oncológico não tem patrocinador master.
A SRM é privada. O recurso é público.
E quando o recurso é público, o interesse coletivo precisa estar no centro da decisão.


