São esses os valores e a família que Ratinho Junior diz defender?
O Paraná que não aparece no teleprompter
Contratos, verbas públicas e a família Massa no coração do poder paranaense
Há uma máxima antiga no jornalismo: quem controla a narrativa controla o debate público.
No Paraná governado por Ratinho Junior, essa máxima ganhou um contorno peculiar. O governador governa. Seu pai, Carlos Massa, comanda um dos maiores grupos de comunicação do estado. No entorno dessa relação familiar se forma uma teia de contratos públicos, verbas institucionais e negócios que raramente entram no foco das câmeras.
A câmera que fiscaliza o poder quase nunca se volta para quem controla o microfone.
Não se trata de teoria ou suspeita. Trata-se de registros públicos, contratos homologados, licitações registradas e verbas transferidas oficialmente. O que está em debate não é a honra de uma família, mas a saúde institucional de uma democracia que depende da separação entre poder político, dinheiro público e interesses privados.
Especialmente quando esses interesses pertencem a quem controla parte significativa da comunicação no estado.
O irmão, os contratos e os R$ 146 milhões
Em abril de 2023, Gabriel Martinez Massa, irmão do governador e presidente do Grupo Massa, tornou-se sócio de Rodolfo de Souza Aires na empresa TLA Brasil Tecnologia em Monitores Ltda.
Rodolfo também é proprietário da empresa Linea Tecnologia em Comunicação Ltda.
Pouco depois dessa sociedade empresarial, a Linea passou a vencer licitações junto à Celepar, estatal responsável pela tecnologia da informação do governo do Paraná.
Foram quatro contratos que somam aproximadamente R$ 146 milhões em valores homologados.
A defesa apresentada afirma que o valor efetivamente recebido teria sido muito menor, próximo de R$ 2,8 milhões.
Mas a questão central não é apenas quanto foi pago. É quanto foi contratado.
Dois dos processos licitatórios somam cerca de R$ 59 milhões e tiveram número bastante reduzido de concorrentes. Além disso, três prefeituras administradas por partidos da base do governo contrataram o serviço Mural Digital, fornecido pela Linea por meio da Celepar, sem licitação direta, totalizando R$ 18,2 milhões adicionais.
Coincidências existem.
Mas coincidências em série envolvendo familiares de governadores, estatais e contratos milionários pedem escrutínio público.
A publicidade compra o silêncio?
Se os contratos tecnológicos são o capítulo mais recente dessa história, a verba publicitária é seu pilar mais antigo.
Em 2021, o governo do Paraná gastou R$ 128,7 milhões em publicidade institucional, aumento de 119 por cento em relação ao primeiro ano da gestão.
Os investimentos em televisão cresceram 158 por cento, chegando a R$ 71,5 milhões.
Nas rádios, o salto foi ainda maior. O crescimento foi de 252 por cento, atingindo R$ 32,9 milhões.
Em 2022, o gasto total com propaganda institucional chegou a R$ 129 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 354 mil por dia, distribuídos entre mais de 560 fornecedores de mídia.
Os valores destinados especificamente ao Grupo Massa, proprietário das emissoras ligadas à família do governador, não foram detalhados publicamente.
esumo da série histórica documentada:
| Ano | Valor (nominal) | Contexto |
|---|---|---|
| 2019 | R$ 71 mi | 1º ano de governo |
| 2020 | R$ 107 mi | +51% em relação a 2019 |
| 2021 | R$ 161 mi | Recorde — ano pré-eleitoral |
| 2022 | R$ 129 mi | Ano eleitoral (reeleição) |
| 2023–2025 | Não divulgado | Governo não publicou relatórios consolidados |
Sem transparência completa surge uma assimetria preocupante.
O governo distribui verbas de publicidade.
As emissoras que recebem essas verbas produzem a cobertura política.
O contribuinte paga duas vezes, uma vez com seus impostos e outra com a ausência de um jornalismo verdadeiramente independente.
O tio, os shows e as prefeituras
Outro elemento frequentemente citado nos bastidores políticos do estado envolve familiares da família Massa no mercado de entretenimento.
Relatos recorrentes apontam que um tio do governador atuaria na negociação de artistas e eventos contratados por prefeituras.
Shows e eventos públicos movimentam valores milionários em diversas cidades e frequentemente são contratados com recursos municipais.
Quando familiares de governantes aparecem nesse circuito econômico, a transparência deixa de ser opcional e passa a ser indispensável.
Incentivos fiscais e a cooperativa Lar
Outro episódio que levanta questionamentos envolve a concessão de incentivos fiscais pelo governo estadual à Cooperativa Lar.
Programas de incentivo industrial concedidos pelo estado teriam garantido benefícios fiscais que se aproximam de meio bilhão de reais para projetos da cooperativa.
Ao mesmo tempo, o apresentador Carlos Massa passou a atuar como uma espécie de embaixador informal da empresa, promovendo a cooperativa e seus produtos em seu programa de televisão.
A cooperativa tem relevância econômica e emprega milhares de pessoas, o que torna qualquer política de incentivo legítima dentro de estratégias de desenvolvimento regional.
Mas quando benefícios fiscais de grande porte são concedidos por um governo cuja família mantém relações públicas e comerciais de divulgação com a empresa beneficiada, a transparência precisa ser ainda maior.
A dúvida que surge não é apenas econômica.
É institucional.
O Tayayá e os negócios turísticos
Outro ponto que chama atenção envolve o resort Tayayá Resort, empreendimento turístico no norte do estado.
O projeto possui participação de fundos ligados ao Banco Master e, segundo informações de bastidores do mercado, haveria proximidade societária ou interesses conectando investidores ao entorno político do governo estadual.
Negócios privados são legítimos.
Mas quando eles se cruzam com redes de influência política e investimentos de grande porte, o debate público sobre transparência se torna inevitável.
O caso Olho Vivo
Mais recentemente, outra polêmica ganhou destaque.
Reportagem publicada pelo jornal Gazeta do Paraná trouxe documentos que levantam questionamentos sobre o Programa Olho Vivo, um projeto estadual de videomonitoramento avaliado em cerca de R$ 580 milhões.
Segundo a reportagem, há indícios de que parte da implantação do sistema teria ocorrido antes mesmo da conclusão formal da licitação.
Também surgiram denúncias apontando que o projeto poderia envolver propina estimada em até R$ 100 milhões, caso que exige investigação rigorosa dos órgãos de controle.
Investigações e pressão política
Nesse contexto, o nome do secretário estadual Guto Silva passou a ser citado em investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal relacionadas a possíveis irregularidades envolvendo contratos públicos e supostos esquemas de financiamento político.
Até o momento não há condenação judicial.
Mas a existência de investigação federal já impõe a necessidade de esclarecimentos públicos.
O que a democracia exige
É importante registrar o que os fatos ainda não provam.
Não há condenação judicial contra o governador.
Não há sentença que confirme irregularidades nos contratos mencionados.
Não há decisão judicial que estabeleça culpa de qualquer integrante da família Massa.
Isso precisa ser dito.
Mas a democracia não exige apenas que algo seja legal.
Ela exige que seja correto.
A pergunta que o cidadão paranaense tem o direito de fazer não é apenas se algo é crime.
A pergunta é mais simples.
Isso é adequado?
Isso é transparente?
Isso respeita a separação entre poder público e interesses privados?
Governos passam.
Famílias políticas também.
Mas a democracia só permanece quando o dinheiro público é tratado com a transparência que ele exige.
E quando as câmeras finalmente se voltam também para quem controla o teleprompter.


