Medicamentos contra obesidade podem reduzir custos do SUS
O avanço dos medicamentos modernos para o tratamento da obesidade começa a mudar a forma como a doença é vista no debate sobre sustentabilidade da saúde pública no Brasil. Mais do que uma questão individual, a obesidade é hoje um dos principais fatores de pressão sobre o SUS (Sistema Único de Saúde), ao aumentar o risco de doenças crônicas, internações recorrentes e procedimentos de alto custo.
Estudos nacionais e internacionais indicam que os custos diretos e indiretos associados à obesidade já consomem bilhões de reais por ano no país. Estimativas apontam que apenas as despesas diretas com hospitalizações e tratamentos relacionados ao excesso de peso e às doenças associadas — como diabetes tipo 2, hipertensão e problemas cardiovasculares — representam uma fatia relevante do orçamento público. Quando se somam os custos indiretos, como afastamento do trabalho, aposentadorias precoces e perda de produtividade, o impacto econômico se torna ainda mais expressivo.
Nesse cenário, o surgimento de medicamentos mais eficazes para o tratamento da obesidade, como as terapias baseadas em agonistas de GLP-1, abre uma nova perspectiva. Estudos internacionais mostram que algumas dessas medicações promovem perda de peso entre 15% e 21%, patamar semelhante ao observado na cirurgia bariátrica, até então considerada o tratamento mais eficaz para obesidade grave — com a vantagem de serem menos invasivas e potencialmente mais acessíveis no futuro.
Para a médica especialista em nutrologia Maria Julia Oses, o impacto dessas novas terapias vai além do controle do peso. "A obesidade é uma doença crônica, assim como diabetes e hipertensão. Quando o paciente emagrece de forma consistente, muitas vezes conseguimos reverter ou controlar essas condições. Isso reduz internações, uso contínuo de medicamentos e complicações graves como infarto e AVC", afirma.
No Brasil, doenças cardiovasculares e acidentes vasculares cerebrais estão entre as principais causas de internação e mortalidade no SUS, e a obesidade figura como um dos principais fatores de risco por trás desses quadros. Especialistas, como a Dra Maria Julia Oses, destacam que tratar a obesidade de forma eficaz significa atuar diretamente na prevenção de eventos de alto custo e alto impacto social.
"Ao olhar apenas para o preço do medicamento, perde-se a dimensão do benefício sistêmico. Estamos falando de evitar cirurgias, reduzir internações prolongadas e diminuir a dependência de múltiplos medicamentos ao longo da vida", explica Maria Julia. Segundo ela, mesmo sem números fechados, modelos econômicos já indicam que uma redução sustentada da obesidade poderia gerar economia significativa ao orçamento público no médio e longo prazo.
Projeções acadêmicas sugerem que, se a tendência atual de crescimento da obesidade se mantiver, os custos totais — diretos e indiretos — podem atingir até 4 trilhões de dólares nas próximas décadas. Por outro lado, cenários que consideram maior acesso a tratamentos eficazes apontam para uma desaceleração desse crescimento, com impacto positivo não apenas nas contas públicas, mas também na qualidade de vida da população.
A especialista Maria Julia Oses ressalta, no entanto, que os medicamentos não devem ser vistos como solução isolada. "Sem mudanças de estilo de vida, como alimentação adequada, atividade física e acompanhamento médico contínuo, o tratamento perde sustentabilidade. A economia real para o sistema só acontece quando há prevenção e manutenção da saúde", afirma.
Diante do envelhecimento da população brasileira e do aumento contínuo das taxas de sobrepeso e obesidade, o debate sobre a incorporação de novas terapias no sistema público tende a ganhar força. Para especialistas, entre eles, como a Dra Maria Julia Oses, a discussão precisa ir além do custo imediato e considerar o potencial de redução estrutural dos gastos com doenças crônicas e complicações evitáveis — um desafio central para o futuro da saúde pública no país.



