Inovação Tech destrava potencial hidrelétrico brasileiro
O estudo 2025 World Hydropower Outlook, divulgado pela International Hydropower Association (IHA) em fevereiro de 2026, aponta que, em 2024, foram adicionados 24,6 gigawatts (GW) à capacidade instalada mundial, sendo 16,2 GW provenientes de hidrelétricas convencionais e 8,4 GW de usinas hidroelétricas reversíveis (UHR), também conhecidas como pumped storage hydropower (PSH).
Essa expansão demonstrou que esta fonte se mantém como a maior geradora de eletricidade renovável, contribuindo com 14,3% da produção global e oferecendo flexibilidade essencial para mais de 150 países. O pipeline global de projetos ultrapassa 1.075 GW, com 600 GW de PSH e 475 GW convencionais.
A China liderou o crescimento, adicionando 14,4 GW, incluindo 7,75 GW de PSH, enquanto a África dobrou o ritmo dos três anos anteriores, com 4,5 GW comissionados. Na Europa, a geração atingiu 680 terawatts-hora (TWh) em 2024, impulsionada por chuvas abundantes e políticas de incentivo à PSH.
No Brasil, a discussão sobre a otimização e expansão dessa fonte renovável ganha novos contornos. Isso é impulsionado pela necessidade de resiliência da matriz energética e pela crescente aplicação de tecnologias como a inteligência artificial (IA) na gestão de usinas e reservatórios. A busca por maior eficiência e sustentabilidade, aliada à complexidade dos desafios ambientais e econômicos, posiciona a inovação tecnológica como um pilar fundamental para o futuro do setor no país.
O potencial hidrelétrico brasileiro
Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em seu Caderno de Estudos: um olhar para as Usinas Hidrelétricas, o Brasil possui uma das maiores capacidades hidroelétricas do mundo, com 110 GW instalados em 2023, o que representa aproximadamente 8% do total global de 1.416 GW. O potencial hidrelétrico inventariado no país atinge 178 GW, dos quais 52 GW em usinas acima de 30 megawatts (MW) são considerados disponíveis para estudos de viabilidade.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) prevê um crescimento de 9,1 gigawatts (GW), ou 9.142 megawatts (MW), na capacidade instalada de geração elétrica no Brasil em 2026, superando em 23,4% os 7,4 GW adicionados em 2025, quando 136 usinas entraram em operação. Essa expansão abrange o Sistema Interligado Nacional (SIN) e sistemas isolados, com dados do relatório de acompanhamento da expansão da oferta de geração (Ralie).
Do total projetado, 46,8% destinam-se ao mercado livre, com destaque para fontes renováveis como solar fotovoltaica, eólica e hidrelétricas pequenas (PCH e CGH). Em janeiro de 2026, a capacidade total fiscalizada atingiu 215,9 GW, sendo 84,63% renovável, reforçando a transição energética e o atendimento à demanda crescente.
Historicamente, a hidreletricidade tem sido a espinha dorsal da matriz energética brasileira, garantindo segurança e baixo custo. No entanto, a participação hidrelétrica na matriz energética caiu de 80% em 2002 para 58% em 2022, reflexo da expansão de outras fontes renováveis, como eólica e solar, e da necessidade de diversificação para aumentar a resiliência do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Desafios ambientais, socioeconômicos e a complexidade da expansão
Ainda segundo o Caderno de Estudos da EPE: um olhar para as Usinas Hidrelétricas, apesar do vasto potencial, a expansão hidrelétrica no Brasil enfrenta desafios ambientais e socioeconômicos complexos. Uma parcela significativa do potencial ainda não explorado, cerca de 62%, está concentrada na região amazônica.
Adicionalmente, 77% desse potencial interfere em áreas protegidas, como unidades de conservação, terras indígenas e quilombolas. Essa sobreposição gera entraves significativos ao licenciamento ambiental, com 42% dos estudos de viabilidade paralisados por questões judiciais ou burocráticas, conforme dados da EPE.
Outra variável impactante é a hidrológica, intensificada pelas mudanças climáticas e fenômenos como o El Niño, que impõe limites estruturais à geração hidrelétrica, evidenciando a vulnerabilidade do sistema em períodos de estiagem prolongada.
As oportunidades de produção energética por pequenas centrais hidrelétricas (PCHs)
A Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas (ABRAPCH) celebrou os avanços de 2025, como o leilão A-5, que contratou mais de 800 megawatts (MW) de PCHs e CGHs, e incluiu na Lei 15.269/2025 um LRCAP (leilão de reserva de capacidade) de 3 GW para pequenas hidroelétricas. Defende prioridade governamental para este setor de energia limpa, com potencial de 14 GW em pequenos projetos pulverizados, e critica a "demonização ambiental" que ignora a função da segurança energética e backup para fontes intermitentes como eólica e solar.
A presidente da ABRAPCH, Alessandra Torres, enfatizou a importância estratégica das hidrelétricas com reservatórios, afirmando que "o Brasil não pode renunciar a novas hidrelétricas de todos os portes, com reservatórios compatíveis, especialmente diante de mudanças climáticas, secas e chuvas intensas. Esses projetos atuam como pequenas caixas d’água para mitigar crises hídricas, como o racionamento em São Paulo, e integram usos múltiplos da água, além de gerar emprego e cadeia produtiva nacional". Torres destacou que "hidrelétricas são uma fonte estratégica e incomparável, essencial para sazonalidade entre bacias e resiliência do sistema".
Oportunidades tecnológicas: inteligência artificial na otimização hidrelétrica
Artigo publicado no Journal for Renewable Energy Analyzing Power Plant Data Using Artificial Intelligence to Enhance Maintenance Strategy enfatizou que a inteligência artificial (IA) e a análise de dados destacam-se como ferramentas para otimizar a gestão operacional em usinas de energia, incluindo aspectos de manutenção preditiva que se aplicam à eficiência hidrelétrica.
No estudo analisado, algoritmos de deep learning processam dados históricos de sensores (pressão de gás combustível, temperatura de óleo, vibração de turbinas), permitindo detectar anomalias e prever falhas, o que melhora a previsão de desempenho e a gestão de processos críticos, reduzindo downtime não planejado e custos de manutenção. A manutenção preditiva, impulsionada por algoritmos de IA, reduz falhas operacionais, aumenta a vida útil dos equipamentos e diminui custos.
O papel da regulação e os cenários para 2026
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) determinou, em reunião realizada em 15 de abril de 2026, a retomada imediata de estudos e o desenvolvimento de projetos hidrelétricos com capacidade de armazenamento, priorizando usinas com reservatórios para regularização de vazões. A decisão visa fortalecer a flexibilidade e a resiliência do Sistema Interligado Nacional (SIN), diante da expansão de fontes intermitentes como eólica e solar, e dos impactos climáticos em reservatórios.
O Ministério de Minas e Energia (MME) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) foram orientados a coordenar ações, identificando projetos viáveis e acelerando licenças ambientais. A medida responde à redução da capacidade de armazenamento no Brasil, essencial para mitigar secas e picos de demanda, com expectativa de novos leilões e investimentos para segurança energética nacional.
Inovação tecnológica como chave para destravar o potencial hidrelétrico brasileiro
O engenheiro e advogado Arnaldo Feitosa, MSc pelo Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e diretor administrativo da TechTalent Innovation, primeiro think tank híbrido de tecnologia e energia do Brasil, sugere que "o Brasil pode priorizar a integração de IA e análise de dados para otimizar hidrelétricas existentes, elevando a eficiência via previsão de vazões, manutenção preditiva, além de capacitar profissionais, alinhando mão de obra tech ao setor energético. Sem inovações digitais e regulação ágil do setor, parte significativa do potencial hidrelétrico corre o risco de subaproveitamento, comprometendo a segurança hídrica".
Por outro lado, Arnaldo Feitosa alerta que "apesar de a tecnologia otimizar processos e melhorar a gestão da hidrelétrica, a IA por si só não cria água. Em anos de seca, cada vez mais frequentes pelas mudanças climáticas, nem o melhor algoritmo compensa reservatórios vazios e não resolve o risco hidrológico estrutural do Brasil. Isso exige diversificação da matriz energética com investimentos em novas fontes (eólica, solar, armazenamento, geotérmicas, gás natural, biogás etc.)".
Investimento em infraestrutura, inovação e capacitação para uma matriz energética mais resiliente
O executivo sênior Luiz Carlos Martins, gestor global de grandes projetos de engenharia, infraestrutura e operações de fusões e aquisições (M&A), diretor de projetos e inovação da Techtalent Innovation, relata que "para o país destravar seu imenso potencial e consolidar uma posição como líder em hidroeletricidade, é imperativo investir em infraestrutura física, inovação tecnológica e na capacitação de talentos. Somente assim será possível construir uma matriz energética mais resiliente, flexível e sustentável".
Em contraposição, Luiz Carlos também alerta que "de fato, existe um desalinhamento entre o setor elétrico tradicional e competências digitais (dados, IA, automação, etc.). Porém, além de formação, é fundamental mudar a cultura de algumas empresas do setor, que historicamente são avessas ao risco tecnológico. Regulação ágil também é crucial, talvez até mais do que a tecnologia. Sem marcos regulatórios que incentivem a digitalização, compartilhamento de dados e inovação (como sandbox regulatório, por exemplo), os avanços podem ficar restritos a projetos pontuais".





