Barbieri, ACIM e FIEP: se existissem em 1888, ficariam com a Lei Áurea ou com a planilha do prejuízo?
ACIM e FIEP contra o feriado de Maringá abriram uma discussão maior que o calendário da cidade. A pergunta é incômoda, mas legítima: se José Carlos Barbieri, presidente da ACIM, e entidades empresariais com esse mesmo raciocínio existissem em 1888, estariam ao lado da abolição imediata da escravidão ou apresentariam planilhas para demonstrar o prejuízo dos antigos senhores de escravizados?
Essa crítica não acusa Barbieri, a ACIM ou a FIEP de defenderem qualquer prática incompatível com a dignidade humana. Tal afirmação seria indevida e irresponsável. No entanto, o debate permite questionar a lógica usada quando direitos sociais, descanso coletivo e decisões legislativas enfrentam resistência baseada quase exclusivamente no impacto econômico.
José Carlos Barbieri está em sua segunda gestão como presidente da Associação Comercial e Empresarial de Maringá. A FIEP e ACIM ajuizaram ações contra a lei que alterou o feriado de aniversário de Maringá, aprovado para ser comemorado na segunda-feira quando a data cair no domingo.
A velha lógica do prejuízo
No Brasil do século XIX, muitos opositores da abolição não diziam apenas que eram contra a liberdade. Parte desses grupos falava em perda econômica, impacto produtivo, falta de mão de obra e desorganização da lavoura. Dessa forma, transformavam uma questão humana em uma conta de fazenda.
O processo de abolição no Brasil foi lento, gradual e marcado por pressões internas e externas. Durante décadas, setores escravistas tentaram retardar o fim definitivo da escravidão. Em vez de tratar a liberdade como urgência moral, muitos preferiam discutir prazos, perdas e conveniências econômicas.
Portanto, a provocação histórica tem sentido público. Quando um dia de feriado já provoca reação judicial e discurso de prejuízo, a sociedade pode perguntar: qual seria o comportamento dessas entidades diante de rupturas muito maiores contra interesses econômicos?
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A pergunta incomoda porque revela prioridades
A ACIM, presidida por José Carlos Barbieri, tem o direito de defender os interesses de seus associados. Também cabe à FIEP recorrer ao Judiciário quando entende que uma lei apresenta vício jurídico. Esse é o caminho institucional.
Contudo, a cidade também tem o direito de analisar o peso político dessa movimentação. Afinal, Maringá não pertence apenas ao comércio aberto, à indústria funcionando ou ao caixa das empresas. O município também pertence aos trabalhadores que constroem a cidade todos os dias.
Segundo informações divulgadas pela imprensa local, a FIEP alegou que a mudança ocorreu a menos de trinta dias da data prevista e que o setor produtivo já havia se organizado com base no calendário anterior. A Justiça concedeu liminar e suspendeu os efeitos da lei.
Ainda assim, a discussão não termina na decisão judicial. Ela continua no campo político, social e moral. Afinal, uma cidade precisa discutir não apenas expediente, mas também dignidade, memória e descanso.
Cidade não é só expediente
Quando uma entidade empresarial trata um feriado como ameaça, ela revela uma visão estreita de cidade. Nesse raciocínio, o trabalhador deixa de aparecer como cidadão e passa a aparecer como custo. A família, por consequência, deixa de ser vista como parte da vida social e passa a ser tratada como obstáculo ao faturamento.
Além disso, o aniversário de uma cidade tem valor simbólico. Ele não representa apenas uma data no calendário. Representa memória, pertencimento e reconhecimento coletivo. Por isso, reduzir esse debate a prejuízo empresarial empobrece a democracia.
A pergunta dirigida a Barbieri, presidente da ACIM, incomoda justamente por isso: se a lógica econômica pesa tanto contra um feriado municipal, onde essa lógica pararia? Pararia diante de direitos trabalhistas? Respeitaria a redução de jornadas exaustivas? Aceitaria conquistas históricas que, em algum momento, custaram dinheiro às elites de cada época?
A planilha não pode mandar sozinha
O desenvolvimento econômico importa. Ninguém responsável ignora a força do comércio, da indústria e dos serviços em Maringá. Entretanto, a economia não pode virar argumento absoluto contra qualquer direito social. Quando isso acontece, toda conquista popular passa a parecer cara demais.
Muitas páginas ruins da história nasceram dessa lógica. Ontem, parte da elite econômica dizia que a lavoura quebraria sem a escravidão. Hoje, em outro contexto e sem equivalência direta, entidades empresariais afirmam que um feriado prejudica a organização produtiva.
A diferença histórica é imensa. Porém, a lógica merece exame público.
Assim, a pergunta permanece aberta: se Barbieri, a ACIM e a FIEP existissem em 1888, estariam com a Lei Áurea ou com a planilha do prejuízo?
Maringá precisa crescer. Porém, precisa crescer com gente dentro da conta. Uma cidade que só enxerga expediente esquece que trabalhador também tem memória, família, dignidade e direito ao descanso.





