Empresária de Maringá dá lição na ACIM e mostra que planejamento também entra na planilha
Feriado de Maringá virou mais do que uma disputa jurídica ou comercial. Virou uma disputa de visão sobre trabalho, cidade e responsabilidade empresarial. Enquanto a Associação Comercial e Empresarial de Maringá, a ACIM, sustentou que a mudança do feriado para segunda-feira traria impactos financeiros e operacionais, a empresária Mariza Rezende, dona da DIG, foi às redes sociais e deu uma resposta que merece atenção: suas três lojas ficarão fechadas no dia 11 de maio.
A fala tem peso porque não vem de sindicato, partido ou movimento político. Vem de uma empresária. Portanto, desmonta a narrativa de que defender descanso ao trabalhador significa ser contra empresa, contra comércio ou contra produtividade.
Segundo o vídeo divulgado por Mariza, a decisão não nasce de improviso nem de romantismo. Ela mesma fez questão de dizer que não é “Madre Teresa de Calcutá”. Em seguida, explicou o ponto central: a DIG é uma empresa organizada, faz agenda anual e se planeja.
Esse detalhe muda tudo.
A planilha que enxerga gente
A ACIM publicou manifesto afirmando que a transferência do feriado poderia gerar impactos financeiros, operacionais e no cumprimento de cronogramas das empresas. A entidade também sustentou que a mudança ocorreu após aprovação da Câmara e sanção do Executivo.
Entretanto, Mariza Rezende apresentou outra planilha. Não necessariamente uma planilha de Excel, mas uma planilha de gestão. Nela, o trabalhador não aparece apenas como custo. Aparece como ativo.
A empresária afirmou que sua equipe vai descansar na segunda-feira, aproveitar o dia como quiser e voltar na terça-feira com energia alta. Além disso, ela reforçou que equipe engajada é o maior ativo da empresa.
Pelo jeito, Mariza entende mais de planilha humana, estratégica e empresarial do que muitos diretores que tratam feriado apenas como perda imediata de faturamento. Afinal, empresa que se organiza com antecedência não transforma um dia de descanso em tragédia econômica.
A Justiça decidiu, mas o debate não acabou
O Tribunal de Justiça do Paraná suspendeu, em decisão liminar, os efeitos da lei municipal que transferia a comemoração do aniversário de Maringá de domingo, 10 de maio, para segunda-feira, 11 de maio. A decisão citou questionamentos sobre legalidade, competência legislativa e possível impacto econômico.
Também houve estimativa de perda de aproximadamente R$ 63 milhões, atribuída ao Codem, caso a cidade paralisasse atividades em dia útil.
Mesmo assim, o gesto da empresária mostra que existe uma diferença clara entre obrigação legal e escolha empresarial. A Justiça pode suspender a lei. Porém, nenhuma decisão obriga o empresário a tratar sua equipe como peça descartável.
Mariza Rezende escolheu fechar.
E, ao fazer isso, colocou a ACIM diante de uma pergunta incômoda: se uma empresa consegue se planejar, por que entidades tão estruturadas insistem em vender a ideia de que descanso é ameaça?
Dia das Mães e o recado ao comércio
A empresária também criticou a ideia de abrir no Dia das Mães. Segundo ela, além de a DIG não abrir nessa data, as mães que trabalham na empresa ganharão um dia de folga para ficar com os filhos.
Essa fala toca em outro ponto sensível. O comércio depende de mães, pais, filhos, vendedores, caixas, estoquistas, atendentes e equipes inteiras que também têm família. Portanto, quando uma entidade empresarial fala apenas em faturamento, ela apaga a vida de quem sustenta o balcão.
Mariza não fez discurso contra o comércio. Pelo contrário, ela defendeu uma visão mais inteligente de comércio. Na fala dela, não existe “nós contra eles”. Existe time.
Essa palavra importa.
Empresa que trata funcionário como time tende a colher compromisso. Já empresa que trata trabalhador como obstáculo tende a colher desmotivação, rotatividade e desgaste.
Uma lição pública para a ACIM
A postura de Mariza Rezende não encerra o debate jurídico sobre o feriado. No entanto, expõe uma falha no discurso de parte do setor produtivo. Nem todo empresário pensa igual à ACIM. Nem todo empresário acha que a cidade deve girar apenas em torno da lógica do caixa diário.
Além disso, sua fala recoloca o consumidor no centro da discussão. Ao dizer que o cliente deve observar onde gasta seu dinheiro, Mariza transformou a polêmica em escolha ética.
O consumidor pode comprar de quem valoriza gente. Pode também cobrar coerência de quem fala em desenvolvimento, mas reclama quando o trabalhador ganha um dia de descanso.
No fim, a empresária de Maringá deu uma aula simples. Planejamento não serve apenas para proteger lucro. Serve também para respeitar equipe, fortalecer cultura interna e construir uma marca com valores reais.
A ACIM pode até ter seus argumentos jurídicos e econômicos. Contudo, Mariza Rezende mostrou que existe outro tipo de empresa em Maringá: aquela que faz conta, sim, mas não esquece que gente também entra na conta.





