Um livro contra o algoritmo: como formar leitores quando 53% dos brasileiros não leem

Um livro contra o algoritmo: como formar leitores quando 53% dos brasileiros não leem


Enquanto as telas disputam, segundo a segundo, a atenção de crianças e adolescentes, os livros perdem espaço nas casas e nas rotinas brasileiras.  E os números comprovam: o levantamento mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, revelou que 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, uma queda de 6,7 milhões de leitores em apenas quatro anos.

No mês em que é comemorado o Dia Nacional do Livro Infantil e di  Mundial do Livro,  a pergunta que ecoa entre especialistas em educação não é apenas “por que as crianças não leem mais”, mas o que escolas e famílias deixaram de fazer para que a leitura pudesse competir com o universo digital.

O cérebro sequestrado

A explicação para o afastamento dos livros passa, em parte, pela biologia. Um estudo do pesquisador Trevor Haynes, da Harvard Medical School, publicado em 2018, descreveu mecanismo por trás das telas: celulares e tablets acionam as mesmas áreas do cérebro ativadas por caça-níqueis e cocaína, o sistema de recompensa do cérebro, alimentado pela dopamina.

Do outro lado da balança, a leitura age de forma oposta: reduz os níveis de hormônios do estresse como adrenalina e cortisol, diminui a pressão arterial e desacelera a frequência cardíaca e respiratória. Mais do que entretenimento, ler é, literalmente, um ato de saúde.

Mas como convencer uma criança disso quando o celular vibra no bolso?

“A escola ainda trata a leitura como instrumento de avaliação”

Para André Ceruzi, diretor da Escola Willy Janz, em Curitiba e pai de sete filhos, com anos de experiência na formação de leitores, o problema tem raiz anterior à chegada das telas. “O erro principal não é a tela é o que deixou de acontecer antes dela”, afirma.

Segundo ele, a escola segue tratando a leitura como ferramenta de avaliação: a criança lê para responder um questionário, não para se envolver com uma história. “Quando tem livre escolha, obviamente vai para o que dá prazer imediato”, analisa. Em casa, o cenário se repete de outra forma: o hábito de ler junto foi sendo progressivamente substituído pela tela como recurso de entretenimento para a criança.

A solução, para Ceruzi, está em simples hábitos. “Vinte minutos de leitura em voz alta antes de dormir podem fazer mais pela formação do leitor do que qualquer projeto escolar”, diz. “Não é culpa, é rotina. E a rotina se muda com decisão.”

A janela da infância

Existe uma idade ideal para despertar o gosto pela leitura? Para o educador, a resposta surpreende: o gosto começa muito antes de a criança saber ler.

“O cérebro leitor se forma na escuta, no encantamento, em experiências afetivas anteriores à alfabetização”, explica. Ouvir histórias no colo, folhear livros de imagens, inventar narrativas, tudo isso é pré-leitura. E os primeiros anos da infância são, na prática, os mais decisivos.

“É quando a criança ainda está aberta ao lúdico. Essa janela, uma vez fechada, exige uma abordagem completamente diferente para ser reaberta”, alerta Ceruzi. Com adolescentes, o caminho muda: “Liberdade de escolha total. Que ele leia o que quiser. O hábito vem primeiro.”

Livros ao alcance das mãos 

A ciência respaldou o que muitos educadores já percebiam na prática. Um estudo publicado no Journal of Developmental Psychology mostrou que crianças criadas em casas com muitos livros têm, em média, três anos a mais de escolaridade efetiva ao longo da vida, independentemente da renda ou da escolaridade dos pais.

Ceruzi vê essa diferença todo início de ano nas turmas de alfabetização. “A criança que convive com livros desde cedo os trata como objetos normais. Ela folheia, inventa história pelas imagens, pergunta o que está escrito. Isso já é pré-leitura.”

O conselho para os pais é deixar a criança experimentar: “Coloquem livros onde a criança consiga pegar sozinha. Que ela possa dobrar a página, rabiscar, estragar. Um livro maltratado por uma criança pequena fez exatamente o que precisava fazer.”

Quando a criança vira autora

A Escola Willy Janz  encontrou em uma atividade o antídoto prático para a passividade das telas. Com 30 anos de tradição no bairro Uberaba, em Curitiba, a instituição atende 450 crianças do ensino infantil e fundamental e, todos os anos, conduz um projeto que inverte a lógica  e coloca as crianças para escreverem seus próprios livros.

A tarefa tem duração de três meses e, ao longo do processo, desenvolve nas crianças a criatividade, a expressão escrita, o vocabulário, a capacidade de estruturar narrativas e, sobretudo, uma relação afetiva com a palavra escrita e lida. No encerramento do ano letivo, um evento reúne os pequenos autores para uma sessão de autógrafos. Eles assinam suas obras, são aplaudidos pelos professores e celebrados pelas famílias.

Para André Ceruzi, iniciativas como essa tocam exatamente no ponto que a escola tradicional costuma ignorar. “Quando a criança escreve uma história, ela passa a entender a leitura por dentro. Ela sabe o que é escolher uma palavra, construir um personagem, decidir como a história vai terminar. Isso transforma o leitor”, afirma. “A criança que viveu a experiência de ser autora nunca mais vai olhar para um livro da mesma forma.”

Para o educador, o evento de autógrafos não é apenas uma celebração: é um gesto com peso simbólico profundo. “Ver o próprio nome na capa de um livro, autografar para a mãe, para o avô, isso ancora uma identidade. Essa criança passa a se enxergar como alguém que tem histórias para contar. E quem tem histórias para contar quer, também, ouvir as histórias dos outros.”

O protagonismo que conquista

Ana Laura Guebert, 10 anos, aluna do 5º ano da Willy Janz, assinou sua primeira obra em novembro do ano passado. Ela não esconde que a experiência começou com resistência. “No começo foi difícil, porque a gente sempre quer ficar no celular”, admite. “Mas quando eu comecei a inventar a história, fui gostando. E quando o livro ficou pronto e eu vi meu nome na capa, fiquei muito feliz.”

O projeto deixou mais do que uma lembrança. Ana Laura conta que a experiência a fez querer ler mais. “Agora eu fico curiosa para saber como os outros escritores fazem. Quero ler mais livros para ver como eles escrevem.”.

Um convite à leitura

 A mensagem dos especialistas não é de culpa, mas de possibilidade. Formar leitores não exige projetos grandiosos nem a proibição das telas, exige presença, rotina e a escolha deliberada de colocar uma história no caminho de uma criança antes que o algoritmo o faça.

Redação O Diário de Maringá

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