Afinal, o Governo Ratinho Junior tem mais inteligência artificial do que inteligência de gestão?
Governador usa imagens de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho com uniformes das escolas do Paraná; episódio reforça críticas a uma gestão que transforma anúncios e projetos em grandes peças publicitárias
Por Gilmar Ferreira
Ratinho Junior pisou na bola mais uma vez. Desta vez, não foi em um estádio nem em uma partida de futebol. Foi na comunicação política.
O governador publicou uma montagem produzida com inteligência artificial na qual Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho aparecem usando versões dos uniformes das escolas estaduais do Paraná, em uma cena inspirada no futebol e na Copa do Mundo.
Prefeito não faz milagre: limpeza urbana exige participação de toda a sociedade
A imagem tenta aproveitar a popularidade de dois campeões mundiais para promover uma ação do governo. Em letras pequenas, aparece a informação de que o conteúdo recebeu auxílio de inteligência artificial.
O aviso, contudo, não responde às perguntas principais.
Ronaldo e Ronaldinho autorizaram o uso de suas imagens? A publicação partiu de uma estrutura oficial, pessoal ou partidária? Houve pagamento para produzir ou impulsionar o conteúdo? Qual é o caráter educativo ou informativo de colocar dois ex-jogadores usando uniformes escolares que, na realidade, eles nunca vestiram?
Não se pode afirmar que houve irregularidade sem conhecer as autorizações e a origem dos recursos. Entretanto, informar que a imagem foi criada com inteligência artificial não concede, por si só, autorização para explorar a aparência de pessoas conhecidas.
Além disso, quando há participação de estrutura pública, a Constituição determina que a publicidade governamental tenha caráter educativo, informativo ou de orientação social. Ela não pode servir à promoção pessoal de uma autoridade.
Uma cena que nunca aconteceu
O governo poderia ter mostrado os próprios estudantes usando os uniformes. Poderia ouvir pais, professores e diretores. Também poderia informar quanto o programa custou, quantos alunos receberam as peças e quais empresas forneceram o material.
Preferiu criar uma cena que nunca existiu.
Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho não estavam usando os uniformes das escolas paranaenses. A inteligência artificial colocou os dois naquela situação.
Tal escolha não é apenas uma brincadeira de rede social. Ela revela a maneira como Ratinho Junior conduz parte de sua comunicação: quando a realidade não oferece a imagem desejada, a tecnologia produz uma realidade mais conveniente.
O problema não está na inteligência artificial. A tecnologia pode explicar projetos, produzir simulações e facilitar o acesso a informações. O erro começa quando a simulação ganha mais destaque do que os fatos.
Muita inteligência artificial. E a inteligência de gestão?
A montagem com os jogadores remete a outra característica do governo: a apresentação de projetos e obras em vídeos sofisticados, animações e comerciais de televisão antes de sua efetiva conclusão.
O Paraná já viu imagens computadorizadas de rodovias perfeitas, viadutos prontos, grandes construções e cidades transformadas. Algumas dessas iniciativas avançaram. Outras enfrentaram demora, mudança de cronograma ou permaneceram durante longo período no campo dos anúncios.
Por isso, é necessário fazer uma distinção que a propaganda frequentemente tenta apagar: anunciar não é iniciar, iniciar não é concluir e concluir não é necessariamente entregar uma obra plenamente funcional.
Ratinho Junior costuma apresentar pacotes bilionários de infraestrutura como prova da capacidade de seu governo. Em 2023, por exemplo, o Estado anunciou o programa À Frente Paraná, com previsão de R$ 3,4 bilhões em obras. Um anúncio dessa dimensão exige acompanhamento público para que a população saiba o que saiu do papel, o que continua em execução e o que ainda depende de recursos ou procedimentos administrativos.
Não seria correto dizer, sem apontar cada contrato, que todas essas obras existem apenas em comerciais. Porém, é legítimo questionar a distância entre o Paraná apresentado pela publicidade e aquele encontrado diariamente pelos moradores.
Quem convive com ruas esburacadas, acessos precários e intervenções demoradas não resolve o problema assistindo a uma animação em alta definição.
Inteligência artificial não tapa buraco
A tecnologia consegue criar uma avenida impecável em poucos segundos. Também pode produzir pontes, escolas e hospitais que parecem prontos.
Na rua, a situação é outra.
Buraco exige equipe, material e serviço. Uma obra pública depende de projeto, orçamento, licitação, fiscalização e cumprimento do contrato. Quando surgem atrasos ou falhas, o governo precisa dar explicações objetivas, não apresentar outra peça publicitária.
Ratinho Junior construiu uma comunicação forte. Seus vídeos têm ritmo, boas imagens e mensagens planejadas para as redes sociais. Entretanto, governar um estado não é disputar prêmio de publicidade.
A qualidade de uma administração se mede no serviço prestado, na obra entregue e na resposta oferecida à população.
É aí que surge a pergunta que o governo tenta evitar: Ratinho Junior tem demonstrado a mesma inteligência administrativa que utiliza para produzir sua propaganda?
Dois craques usados como figurantes digitais
Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho construíram suas histórias no futebol real. Ganharam títulos reais, marcaram gols reais e vestiram a camisa da Seleção Brasileira em partidas que aconteceram de verdade.
Na publicação de Ratinho Junior, os dois viraram figurantes digitais de uma campanha estadual.
O governador pode considerar a postagem criativa. Entretanto, criatividade não elimina responsabilidade. Quando uma autoridade pública utiliza imagens de personalidades conhecidas, ainda que produzidas artificialmente, deve deixar claro se possui autorização e qual é a finalidade da publicação.
A identificação discreta de que houve uso de IA apenas informa como a imagem foi produzida. Não responde quem autorizou o emprego dos rostos, quem financiou o conteúdo ou por que aquela montagem atende ao interesse público.
A propaganda não transfere votos
Ratinho Junior também tenta transformar sua aprovação pessoal em apoio ao candidato escolhido para sucedê-lo. Porém, a dificuldade de transferir votos pode estar justamente no excesso de propaganda.
O eleitor não avalia apenas o que aparece no comercial. Ele compara a mensagem com a realidade que encontra na cidade, na estrada, na escola e no atendimento público.
Quando a publicidade promete mais do que a administração consegue entregar, cresce a desconfiança. O governante pode conservar popularidade, mas seu candidato não recebe automaticamente a mesma confiança.
Voto não é filtro de rede social. Também não pode ser produzido por inteligência artificial.
Ratinho Junior precisa jogar no campo da realidade
O governador poderia transformar o episódio em uma oportunidade de transparência. Bastaria informar se Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho autorizaram a utilização de suas imagens, quem produziu a montagem e se houve emprego de dinheiro ou estrutura pública.
Além disso, o governo deveria publicar uma prestação de contas direta sobre as grandes obras que aparecem em seus comerciais: valor contratado, percentual executado, prazo original, prazo atualizado e data prevista para entrega.
Esse seria um uso inteligente da comunicação.
Por enquanto, o que se vê é um governo com enorme capacidade para construir imagens e uma capacidade administrativa que precisa ser analisada obra por obra, contrato por contrato.
Ratinho Junior vestiu dois craques com uniformes que eles nunca usaram. A inteligência artificial resolveu essa parte.
Agora falta a inteligência de gestão para impedir que obras, estradas e grandes promessas também existam principalmente dentro dos comerciais.
No futebol, uma jogada mal executada termina com a perda da bola. Na administração pública, o prejuízo pode ser pago por toda a população.
Ainda há tempo. Os demais candidatos vão permitir que essa situação continue ou tomarão alguma providência? Uma montagem desse tipo pode confundir o eleitor mais humilde ou menos atento, que nem sempre percebe de imediato que a imagem não retrata uma situação real. A palavra está com Requião Filho, Sergio Moro e Rafael Greca.
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