Sete primeiros-ministros em dez anos: o desafio da reputação britânica
POR – LORENA NOGAROLI*, ESPECIALPARA NEO MONDO
A saída de Keir Starmer do cargo de primeiro-ministro encerra mais um capítulo de uma década marcada por sucessivas trocas de liderança no Reino Unido. Em apenas dez anos, o país chegou ao sétimo chefe de governo. Para uma democracia historicamente associada à estabilidade institucional, a rápida sucessão de primeiros-ministros vai além da dinâmica política e coloca à prova um dos ativos mais valiosos de qualquer nação: sua reputação.
Ao deixar o governo, Starmer afirmou que um dos principais legados de sua gestão foi restaurar a reputação internacional do Reino Unido. Muitos interpretaram a declaração como autopromoção, mas ela revela algo muito mais profundo: reputação é um ativo tão importante quanto o desempenho econômico, a capacidade militar ou a inovação tecnológica.
Passei grande parte da minha carreira ajudando organizações a proteger e reconstruir reputações. Ao longo desse percurso, aprendi uma lição que vale igualmente para empresas e governos: reputação não é aquilo que dizemos sobre nós mesmos. É a confiança que os outros depositam na nossa capacidade de cumprir o que prometemos.
Por isso, reputação não se confunde com popularidade. Ela nasce da previsibilidade, da coerência entre discurso e prática e da confiança de que compromissos serão honrados, contratos respeitados e crises enfrentadas com responsabilidade.
Durante décadas, o Reino Unido foi uma referência mundial nesse aspecto. Mais do que por sua tradição democrática, transmitia segurança a investidores, aliados e mercados, pois suas instituições preservavam a continuidade, independentemente da alternância de governos.
O Brexit alterou essa percepção. Independentemente da posição de cada um sobre a saída da União Europeia, o processo expôs ao mundo um país marcado por impasses políticos, mudanças frequentes de direção, dificuldades na implementação de decisões e sucessivas trocas de liderança. A instabilidade passou a fazer parte da imagem britânica.
Foi nesse contexto que Starmer assumiu o governo, em julho de 2024. Seu desafio não era apenas melhorar os indicadores econômicos, mas também reduzir a incerteza e reconstruir a confiança internacional.
Existe uma tendência de associar reputação à comunicação — um equívoco comum. A comunicação amplia reputações; não as cria. Nenhuma campanha institucional convenceria investidores ou aliados de que o Reino Unido voltaria a ser um parceiro confiável se suas decisões continuassem a transmitir imprevisibilidade. O mesmo ocorre com uma empresa: depois de uma crise, não basta investir em publicidade. É preciso demonstrar, na prática, que mudou.
Essa lógica orientou boa parte da política externa britânica nos últimos dois anos. A reaproximação com a União Europeia, sem reabrir o debate sobre o Brexit; a liderança no apoio à Ucrânia; os acordos comerciais com a Índia e os Estados Unidos; a defesa do Estado de Direito; e a retomada do diálogo com aliados tradicionais não foram apenas iniciativas diplomáticas. Foram sinais concretos de previsibilidade e compromisso. E, na gestão da reputação, sinais valem mais do que discursos.
Quando um país honra acordos, fortalece suas instituições, participa da construção de consensos e evita rupturas desnecessárias, reduz seu risco reputacional. E essa redução produz efeitos concretos. Investidores aceitam operar em ambientes que inspiram confiança. Empresas instalam operações onde as regras são previsíveis. Universidades atraem talentos quando o ambiente institucional é estável. A influência diplomática também depende, em grande medida, da credibilidade construída ao longo do tempo. Em outras palavras, confiança gera valor econômico.
Durante muito tempo, governos trataram a reputação como consequência de campanhas de promoção internacional voltadas ao turismo, à cultura ou à atração de investimentos. Esses instrumentos continuam importantes, mas deixaram de ser suficientes. Hoje, a reputação de um país é construída diariamente por suas decisões fiscais, regulatórias, ambientais, judiciais, diplomáticas e sociais. Cada política pública comunica algo ao mundo.
Assim como uma empresa pode comprometer, em poucos dias, uma reputação construída ao longo de décadas, governos também desperdiçam credibilidade quando suas decisões parecem arbitrárias, contraditórias ou oportunistas. Por isso, reputação e governança caminham juntas.
Nas empresas, indicadores ambientais, sociais e de governança (ESG) passaram a integrar a gestão de riscos. Com os Estados ocorre algo semelhante. A confiança internacional depende cada vez menos da qualidade da narrativa e cada vez mais da solidez das instituições.
Starmer não resolveu todos os problemas britânicos. O crescimento econômico permanece modesto, o sistema público de saúde enfrenta dificuldades e o Reino Unido ainda busca redefinir seu papel no cenário pós-Brexit. Seu principal legado, contudo, pode ter sido compreender que reputações não se recuperam prometendo grandeza, mas reduzindo incertezas.
Essa é uma lição que vai além da política britânica. Organizações, governos e lideranças disputam atenção permanentemente. Nunca houve tanta comunicação. E, paradoxalmente, nunca a confiança foi tão escassa. Nesse cenário, reputação deixa de ser um tema de imagem para tornar-se um tema de gestão.
Países confiáveis atraem investimentos, talentos e influência. Empresas confiáveis conquistam clientes, parceiros e valor de mercado. Lideranças confiáveis mobilizam pessoas mesmo em tempos difíceis.
A reputação funciona como uma conta corrente invisível. Cada decisão coerente representa um depósito; cada incoerência, um saque. O saldo acumulado determina quem continuará inspirando confiança quando chegar a próxima crise.

* Lorena Nogaroli é especializada em Gestão de Riscos e Crises pela London School of Economics and Political Science (LSE). Fundadora da Central Press, dirige o escritório da agência de reputação em Londres. Diretora Editorial e de Novos Negócios do Neo Mondo.




