Prefeita de Astorga, Suzie Pucillo, do PP, entra no rol de investigados da Polícia Federal
Despacho da Polícia Federal afirma que investigação reuniu “elementos concretos” sobre eventual participação da prefeita; perícia aponta sobrepreço potencial de R$ 769.788,19 em dois contratos
A Polícia Federal (PF) incluiu a prefeita de Astorga, Suzie Aparecida Pucillo Zanatta, no rol de investigados de um inquérito que apura possíveis irregularidades em licitações e contratos ligados à recuperação das estradas rurais da Sória e Paranaguá.
A informação consta no Despacho nº 2967445/2026, da Delegacia de Polícia Federal em Maringá, referente ao procedimento 2023.0089019. O documento tem data de 3 de agosto de 2026.
Segundo a própria PF, a investigação chegou a uma nova etapa. No início, os investigadores tratavam o possível envolvimento da prefeita como hipótese. Agora, porém, o despacho afirma que existem “elementos concretos” que apontam eventual participação da mandatária municipal em fraudes na realização das licitações e na execução dos contratos.
Isso não significa condenação. A Polícia Federal ainda investiga os fatos, e o despacho não apresenta uma decisão judicial que reconheça a culpa da prefeita.
Como o caso começou
A investigação começou depois que uma pessoa procurou a Polícia Federal para relatar supostas irregularidades na execução do Contrato Administrativo nº 27/2022, vinculado à Tomada de Preços nº 02/2022.
O Consórcio Público Intermunicipal de Inovação e Desenvolvimento do Estado do Paraná (Cindepar) firmou o contrato com a Riber Construtora Ltda.
A contratação previa obras de recuperação das estradas da Sória e Paranaguá, em Astorga. Para custear os serviços, o projeto utilizou recursos de transferência voluntária da União, provenientes do Ministério do Desenvolvimento Regional, além de contrapartida do Município de Astorga.
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Na época, conforme registra o despacho, Suzie Pucillo presidia o Cindepar.
Inicialmente, o denunciante pediu anonimato. Depois, entretanto, ele compareceu à delegacia e prestou depoimento sobre os fatos.
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A partir dessa manifestação, a Polícia Federal entendeu que havia justa causa para abrir inquérito e investigar possível fraude em licitação ou contrato, prevista no artigo 337-L do Código Penal. A PF também deixou aberta a possibilidade de apurar outros crimes que surgissem durante as diligências.
Máquinas da Prefeitura entraram no foco da investigação
Um dos primeiros pontos relatados à Polícia Federal envolveu o maquinário usado nas obras.
De acordo com o despacho, a empresa contratada deveria disponibilizar as máquinas e os equipamentos necessários ao serviço. No entanto, o denunciante afirmou que equipamentos do próprio Município de Astorga estariam sendo usados na execução das obras.
Além disso, uma comunicação posterior informou que máquinas e caminhões da Prefeitura teriam trabalhado nos serviços das estradas.
O documento também registra a informação de que operadores e motoristas municipais teriam atuado nas obras, enquanto a empresa contratada os remuneraria.
Cascalho também virou ponto central da apuração
Outro ponto importante envolve o cascalho utilizado nos trabalhos.
Segundo a denúncia inicial, a empresa deveria fornecer o material. Entretanto, o cascalho teria saído de uma jazida explorada pelo Município de Astorga.
Durante as diligências, a PF encontrou um documento de 30 de agosto de 2023 pelo qual o município cedeu direitos para extração de 26.600 metros cúbicos de cascalho em uma cascalheira explorada pela própria administração municipal.
A contraprestação registrada no documento foi de R$ 119.779,80.
A investigação também reuniu guias de recolhimento e comprovantes referentes ao material retirado pela Riber Construtora Ltda. das jazidas exploradas pelo município.
PF analisou documentos, pagamentos e informações financeiras
Com o avanço do inquérito, os investigadores reuniram uma quantidade maior de documentos.
A Polícia Federal analisou processos administrativos, medições das obras, notas fiscais, relatórios, laudos de vistoria, registros de paralisações, termos de conclusão e comprovantes de pagamentos.
Além disso, o procedimento recebeu o Relatório de Inteligência Financeira nº 120918.2.2186.1650. A PF obteve o documento após encaminhar um pedido ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Os investigadores também ouviram servidores públicos e outras pessoas relacionadas às obras e aos contratos.
Diligências apontaram falhas nas duas licitações
Após analisar os documentos e colher depoimentos, a Polícia Federal registrou que as diligências evidenciaram falhas nas duas licitações relacionadas ao cascalhamento das estradas da Sória e Paranaguá.
Entre os problemas, o despacho destaca um suposto erro grosseiro no cálculo da distância média para o transporte do cascalho.
A investigação também chamou atenção para a divisão dos trechos das estradas em dois certames realizados paralelamente. Apesar disso, os responsáveis abriram os envelopes das propostas em datas diferentes.
O cálculo da distância tem impacto direto sobre o preço do transporte.
Por isso, os peritos fizeram uma nova análise. Segundo o despacho, quando utilizaram os dados considerados corretos, os valores máximos previstos tornariam as contratações economicamente inviáveis.
Na avaliação registrada pela PF, essa situação pode, em tese, ter afastado outras empresas interessadas em participar das licitações.
PF diz que contrato previa cascalho fornecido pela empresa
O despacho também trata da origem do cascalho.
Os instrumentos das licitações determinavam expressamente que a empresa contratada deveria fornecer o material.
Apesar disso, durante a execução das obras houve uma mudança importante na forma de obtenção do cascalho.
Segundo a Polícia Federal, essa alteração modificou substancialmente os contratos e contrariou o que os editais estabeleciam.
Além disso, a PF afirma que essa mudança aparentemente não passou por um aditivo contratual.
Perícia aponta sobrepreço potencial de R$ 769.788,19
A perícia também calculou o possível impacto financeiro das alterações.
No Contrato nº 027/2022, os peritos apontaram sobrepreço inicial de R$ 442.839,59. Esse valor representa 93,4% em relação à referência calculada pela perícia.
Já no Contrato nº 025/2022, o sobrepreço apontado chegou a R$ 326.948,60, equivalente a 62,0% em relação ao valor de referência pericial.
Somados, os dois valores chegam a R$ 769.788,19.
O próprio despacho, porém, trata esses números como prejuízo potencial e sobrepreço inicial. Portanto, o documento não afirma que a Justiça já reconheceu R$ 769.788,19 como prejuízo definitivo aos cofres públicos.
O que a PF afirma sobre Suzie Pucillo
Na parte final do despacho, a Polícia Federal registra expressamente que a prefeita Suzie Aparecida Pucillo Zanatta já integra o rol de investigados.
O trecho representa um dos pontos mais relevantes do documento.
Segundo a PF, no começo da apuração o possível envolvimento da prefeita com os fatos investigados configurava apenas uma hipótese.
Agora, conforme o despacho, os investigadores identificaram “elementos concretos” que apontam eventual participação da prefeita em fraudes relacionadas aos certames e à execução dos contratos.
A Polícia Federal também menciona, como possíveis enquadramentos que ainda dependem da investigação, os crimes de peculato, falsidade ideológica, associação criminosa ou integração de organização criminosa.
Mais uma vez, isso não significa que a PF tenha comprovado esses crimes ou que Suzie tenha recebido condenação. O inquérito ainda está em andamento.
Caso segue para análise da Justiça Federal
Como Suzie ocupa o cargo de prefeita, a Polícia Federal apontou a existência de foro especial por prerrogativa de função.
Por esse motivo, a PF encaminhou os autos ao Juízo de Garantias da 5ª Vara Federal de Londrina para análise sobre qual órgão deve conduzir o processo.
Caso a Justiça entenda dessa forma, os autos poderão seguir para o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).
O despacho registra assinatura eletrônica em 3 de agosto de 2026, às 11h25, por delegado da Polícia Federal.
O que diz a prefeita
O Diário de Maringá tentou contato com a prefeita de Astorga, Suzie Pucillo, para que ela pudesse se manifestar sobre os fatos registrados no despacho da Polícia Federal. Até a publicação desta reportagem, não conseguimos falar com a prefeita.
O O Diário de Maringá permanece à disposição de Suzie Pucillo e de sua defesa para publicar sua versão e os esclarecimentos que considerarem necessários sobre o caso.
Caso a prefeita ou sua defesa apresentem manifestação após a publicação, a reportagem poderá receber atualização com o posicionamento.
A investigação continua em andamento. A inclusão de Suzie Pucillo no rol de investigados não representa condenação e não substitui eventual denúncia do Ministério Público ou decisão do Poder Judiciário.



