Miss Universe Brasil recebeu cota de R$ 1,7 milhão do Viaje Paraná; contrato entra na mira de TCE, MP e Justiça
Contrato do Viaje Paraná com a RFCG Participações S.A. entrou no conjunto de gastos com turismo questionados em ação popular; empresários ligados ao Miss Universe Brasil já mantiveram relações empresariais com Carlos Roberto Massa, o Ratinho
O Viaje Paraná adquiriu por R$ 1,7 milhão a chamada “Cota Platinum” do Miss Universe Brasil 2026. A contratação ocorreu por meio da Inexigibilidade nº 04/2026 e teve como contratada a RFCG Participações S.A.
O pagamento aparece entre os gastos relacionados à política de promoção turística do Paraná que passaram a ser questionados judicialmente.
A contratação, isoladamente, não comprova irregularidade. No entanto, o valor, a modalidade adotada e a finalidade do gasto colocam no centro da discussão questões sobre interesse público, economicidade, critérios para escolha do evento e as contrapartidas entregues ao Estado.
Outro ponto chama atenção. Empresários ligados ao Miss Universe Brasil possuem histórico de relações empresariais com Carlos Roberto Massa, o Ratinho, pai do governador Carlos Massa Ratinho Junior.
Essa relação empresarial, contudo, não significa que Ratinho ou Ratinho Junior tenham participado da contratação da Cota Platinum. Também não constitui, por si só, prova de irregularidade.
R$ 1,7 milhão pela Cota Platinum
A documentação analisada pelo O Diário de Maringá identifica a contratação como Inexigibilidade nº 04/2026.
O objeto envolve a aquisição da “Cota Platinum” do Miss Universe Brasil 2026, pelo valor de R$ 1.700.000,00.
A empresa indicada como contratada é a RFCG Participações S.A.
O gasto foi realizado pelo Viaje Paraná, entidade responsável por ações de promoção turística do Estado.
A utilização da inexigibilidade significa que não ocorreu uma disputa convencional entre diferentes fornecedores.
Por isso, a justificativa para a escolha, a exclusividade relacionada ao objeto e as vantagens obtidas pela administração pública assumem importância na análise da contratação.
Contratação entrou em questionamento judicial
O patrocínio ao Miss Universe Brasil aparece dentro de um conjunto maior de despesas questionadas em ação popular relacionada à política de turismo do Governo do Paraná.
De acordo com os documentos analisados, a ação aponta 364 contratações diretas da Secretaria de Estado do Turismo do Paraná (SETU), que somariam aproximadamente R$ 56,2 milhões.
O material também aponta aproximadamente R$ 62,2 milhões autorizados ao Viaje Paraná entre 2024 e 2026, no âmbito do Contrato de Gestão nº 001/2023.
Nesse contexto aparece a contratação de R$ 1,7 milhão para a Cota Platinum do Miss Universe Brasil 2026.
Os valores apresentados na ação constituem alegações submetidas à análise judicial. Portanto, o ajuizamento da ação não significa reconhecimento definitivo de irregularidade.
O que o Paraná recebeu pelos R$ 1,7 milhão?
O valor da Cota Platinum coloca uma questão objetiva para a administração pública: quais foram exatamente as contrapartidas recebidas pelo Paraná em troca dos R$ 1,7 milhão?
Contratações relacionadas à promoção turística podem envolver exposição de marca, divulgação de destinos, inserções publicitárias, presença em eventos, conteúdo digital e outras ações promocionais.
Entretanto, para avaliar a relação entre custo e benefício, é necessário conhecer detalhadamente o pacote contratado e os resultados esperados.
Também é necessário saber quais critérios levaram o Viaje Paraná a considerar a Cota Platinum do Miss Universe Brasil uma ferramenta adequada para promoção turística do Estado.
O debate, portanto, não deve partir da conclusão automática de que patrocinar um concurso representa uma irregularidade. A questão é verificar se a administração justificou o gasto, demonstrou interesse público e estabeleceu contrapartidas compatíveis com R$ 1,7 milhão.
Quem está por trás do Miss Universe Brasil
O empresário Rodrigo Ferro aparece publicamente ligado à direção do Miss Universe Brasil.
Seu irmão, Patrick Ferro, também possui atuação empresarial nos setores imobiliário, turístico e hoteleiro no Paraná.
Os irmãos Ferro estiveram envolvidos em empreendimentos como o Tayayá Porto Rico Residence & Resort, no Noroeste do Paraná.
É justamente nesse empreendimento que aparece uma relação empresarial anterior com o apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho.
Patrick e Rodrigo Ferro já foram apresentados como sócios de Ratinho
Publicações feitas em 2023 registraram uma relação empresarial entre Patrick Ferro, Rodrigo Ferro e Carlos Roberto Massa, o Ratinho, no empreendimento Tayayá Porto Rico Residence & Resort.
Naquele período, os três apareceram juntos durante o lançamento de uma nova fase do empreendimento realizado no Eurogarden, em Maringá.
A Folha de Londrina publicou fotografia de Patrick e Rodrigo Ferro ao lado de Ratinho e apresentou o comunicador como sócio dos empresários.
O GMC Online também registrou essa relação empresarial ao abordar os investimentos dos irmãos Ferro.
Portanto, o histórico empresarial entre os empresários e Ratinho não parte de uma suposição. Ele foi registrado publicamente na época dos empreendimentos.
Sociedade não deve ser apresentada como atual
Há uma ressalva importante.
Informações publicadas posteriormente apontam que a Gralha Azul, empresa ligada à família Massa, deixou o projeto do Tayayá Porto Rico em 2024.
Por isso, não é correto afirmar, sem documentação societária atualizada, que Ratinho continua sendo sócio dos irmãos Ferro nesse empreendimento.
A informação segura é que Carlos Roberto Massa já manteve relações empresariais com Patrick e Rodrigo Ferro e foi apresentado publicamente como sócio deles no projeto.
Essa diferença é fundamental para compreender o caso.
Relação com Ratinho não prova interferência no contrato
O histórico empresarial merece registro jornalístico porque envolve empresários ligados ao evento que recebeu R$ 1,7 milhão de uma entidade vinculada ao Governo do Paraná e o pai do atual governador.
Porém, essa circunstância possui limites objetivos.
O histórico de negócios entre Ratinho e os irmãos Ferro não comprova que o apresentador tenha interferido na contratação.
Também não comprova participação do governador Carlos Massa Ratinho Junior na escolha da empresa ou na definição da Cota Platinum.
Da mesma forma, não demonstra direcionamento ou favorecimento.
Para sustentar qualquer uma dessas conclusões seriam necessárias provas específicas.
O fato comprovável é a existência de dois elementos distintos: o Viaje Paraná adquiriu a Cota Platinum do Miss Universe Brasil 2026 por R$ 1,7 milhão, e empresários relacionados ao concurso possuem histórico empresarial público com Ratinho.
Inexigibilidade exige justificativa
A contratação por inexigibilidade não é, por definição, ilegal.
A legislação admite esse instrumento quando as características da contratação tornam inviável a competição.
A administração, entretanto, precisa demonstrar os fundamentos jurídicos e técnicos que justificam a escolha.
No caso do Miss Universe Brasil, interessa conhecer os documentos que sustentaram a opção pela RFCG Participações S.A., a formação do preço de R$ 1,7 milhão e as razões para aquisição especificamente da Cota Platinum.
Também é relevante verificar quais métricas foram definidas para medir o retorno turístico e publicitário ao Paraná.
Valores fazem parte de discussão mais ampla sobre turismo
A Cota Platinum não aparece isoladamente nos questionamentos apresentados sobre os gastos do setor.
A ação popular analisada pelo O Diário de Maringá aponta 364 contratações diretas da SETU, totalizando aproximadamente R$ 56,2 milhões.
O processo também menciona cerca de R$ 62,2 milhões autorizados ao Viaje Paraná entre 2024 e 2026, por meio do Contrato de Gestão nº 001/2023.
Esses números são apresentados pelos autores da ação e estão sujeitos ao contraditório e à análise do Poder Judiciário.
O simples fato de uma despesa integrar uma ação judicial não significa que ela seja ilegal.
O ponto central é a justificativa dos R$ 1,7 milhão
No caso específico do Miss Universe Brasil 2026, existe um número objetivo: R$ 1.700.000,00.
Existe também um objeto definido: Cota Platinum.
E existe uma modalidade identificada: Inexigibilidade nº 04/2026.
A partir desses documentos, cabe esclarecer qual benefício concreto o Estado projetou obter com o investimento, como chegou ao preço contratado e quais resultados efetivamente recebeu.
O histórico empresarial entre Ratinho e empresários ligados ao Miss Universe Brasil acrescenta um elemento de interesse público à apuração, mas não autoriza concluir que houve interferência, favorecimento ou irregularidade.
São fatos diferentes e devem permanecer separados.
A discussão documental sobre a contratação começa, portanto, nos R$ 1,7 milhão pagos pela Cota Platinum e nas justificativas apresentadas para esse investimento de promoção turística.



