Ulisses Maia precisa honrar o mandato na Alep antes de pensar em voltar à prefeitura
Eleição para a Assembleia reconhece sua trajetória, mas exige dedicação ao mandato antes de qualquer projeto de retorno à Prefeitura de Maringá.
Editorial | Por Gilmar Ferreira
Parabenizo Ulisses de Jesus Maia Kotsifas (PSD), ex-prefeito de Maringá, pela vitória como deputado estadual do Paraná. A conquista de uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), com 56.388 votos, representa o reconhecimento de sua trajetória e a confiança dos eleitores em sua capacidade de continuar contribuindo com a vida pública.
Considero Ulisses uma excelente pessoa e avalio que foi um bom prefeito. Ele governou Maringá por dois mandatos, entre 2017 e 2024, e deixou uma contribuição importante para a cidade. Como jornalista e cidadão, entendo que sua postura durante a pandemia ajudou a salvar vidas. Essa é minha avaliação sobre sua atuação em um dos períodos mais difíceis enfrentados pela população.
Justamente por reconhecer sua experiência e seu potencial, acredito que sua prioridade agora deve ser cumprir o compromisso assumido com o eleitor paranaense. Antes de anunciar uma eventual candidatura à prefeitura ou falar como se o retorno estivesse assegurado, Ulisses precisa mostrar o que pode fazer como deputado estadual.
A discussão sobre seu nome na sucessão municipal já apareceu na imprensa local. Isso não equivale a um anúncio de candidatura feito por ele. A crítica deste editorial se dirige à antecipação dessa disputa e à possibilidade de transformar o mandato recém-conquistado em uma passagem para outro cargo.
O eleitor escolheu Ulisses para a Assembleia. Portanto, sua primeira responsabilidade é preparar um mandato que apresente resultados para Maringá, para a região e para o Paraná.
O compromisso vai além de Maringá
Dos 56.388 votos recebidos por Ulisses, 41.465 vieram de Maringá. Os outros 14.923 representam eleitores de diferentes municípios que também confiaram nele. Embora a cidade concentre a maior parte de sua votação, o compromisso que assumiu ultrapassa seus limites.
Esses eleitores acolheram suas propostas e ajudaram a construir o resultado estadual. Também merecem presença, trabalho e prestação de contas. Não podem ficar em segundo plano diante de uma possível nova disputa pela prefeitura.
Ferindo o princípio de impessoalidade
Após a eleição, o próprio Ulisses afirmou, em publicação de sua assessoria, que honraria essa confiança com trabalho na Assembleia. Também anunciou dedicação a Maringá e à região Noroeste. É esse compromisso que precisa orientar sua atuação.
A Alep oferece espaço para legislar, fiscalizar o governo estadual, discutir o orçamento e defender políticas públicas. Com experiência administrativa e formação em Direito, Ulisses pode contribuir para decisões que afetam milhões de paranaenses.
Na minha avaliação, ele pode fazer mais por Maringá como deputado estadual comprometido com essas funções do que ao concentrar esforços em uma nova campanha municipal. A cidade precisa de representação em Curitiba, articulação regional e acompanhamento das demandas que dependem do Estado.
Um bom mandato também pode abrir caminhos para uma reeleição ou, mais adiante, para uma candidatura ao Senado ou ao governo. Essas possibilidades devem nascer do trabalho realizado. A próxima ambição não pode consumir o compromisso atual.
A sucessão pode esperar
A eleição municipal será em 2028. Ainda há aproximadamente dois anos e uma parte significativa da atual gestão pela frente. Antecipar a sucessão agora desloca o debate dos problemas da população para as conveniências eleitorais.
Maringá precisa discutir saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento. Precisa cobrar quem governa hoje e acompanhar quem vai representá-la na Assembleia. A população não ganha quando uma eleição termina apenas para que outra campanha comece.
Além disso, a alternância de poder merece espaço. É no município que novas lideranças surgem, apresentam propostas e demonstram capacidade de governar. A experiência de quem já ocupou a prefeitura tem valor, mas outras pessoas também precisam encontrar oportunidades para contribuir.
Ulisses já teve duas oportunidades de conduzir Maringá. Agora, recebeu uma responsabilidade diferente. Cumpri-la pode ampliar sua contribuição pública e fortalecer sua trajetória.
Deixar o mandato estadual pela metade para voltar à prefeitura poderia desperdiçar esse potencial. Parte dos eleitores também poderia interpretar a decisão como uma quebra de confiança, ou até como uma traição política a quem esperava quatro anos de atuação na Alep. Essa possibilidade merece reflexão antes de qualquer movimento.
Os parabéns pela vitória vêm acompanhados de uma cobrança legítima. Ulisses tem o direito de construir seu futuro político, assim como o eleitor tem o direito de exigir respeito ao compromisso assumido. Antes de pedir novamente a chave da prefeitura, precisa mostrar o que fará com a cadeira que 56.388 eleitores lhe confiaram na Assembleia.



