“Estou enojada”: Vereadora Cleide abandona sessão da Câmara de Santo Inácio após votação contra ex-prefeito João Venceslau

“Estou enojada”: Vereadora Cleide abandona sessão da Câmara de Santo Inácio após votação contra ex-prefeito João Venceslau


Vereadora deixa plenário indignada com mudança de votos em processos semelhantes. Joilson apresenta defesa de João Batista, Rosemeire cobra coerência e atuação de cinco vereadores reacende debate sobre independência da Câmara diante da gestão Geny Violatto.

Por Gilmar Ferreira

A vereadora Cleide Aparecida Ferreira deixou indignada uma sessão da Câmara Municipal de Santo Inácio após a maioria dos parlamentares rejeitar o Projeto de Decreto Legislativo nº 03/2026, relacionado às contas de uma parceria firmada durante a administração do ex-prefeito João Batista dos Santos.

A decisão provocou forte reação da parlamentar, que havia participado da análise do processo e apresentado argumentos em defesa do ex-prefeito.



Antes de deixar o plenário, Cleide pediu autorização ao presidente da Câmara, Ronaldo Cabeção, e fez uma declaração contundente:

“Senhor Presidente, eu peço licença para me retirar porque eu estou enojada com o que eu acabei de ver aqui, com a falta de compromisso, com a falta da verdade e com situações de pessoas que votaram algumas vezes a favor e hoje votaram contra, sendo que nada mudou.”

Ronaldo Cabeção autorizou sua saída.

A manifestação expôs a insatisfação de Cleide com a mudança de posicionamento de vereadores que anteriormente haviam apoiado decisões favoráveis a João Batista em processos semelhantes.

Mais do que uma divergência sobre prestação de contas, a votação revelou o acirramento da disputa política em Santo Inácio.

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Cleide apresentou defesa detalhada de João Batista antes de deixar a sessão

A indignação de Cleide não surgiu apenas com o resultado da votação.

Antes disso, a parlamentar havia apresentado uma defesa fundamentada do ex-prefeito João Batista dos Santos.

Ela explicou que participou de uma reunião com o ex-prefeito e integrantes da comissão responsável pela análise do processo.

O objetivo era compreender as circunstâncias do Termo de Parceria nº 001/2007, firmado entre o município e o Instituto de Gestão e Assessoria Pública, com execução em 2009.

Segundo Cleide, João Batista explicou que Santo Inácio enfrentava dificuldades para contratar servidores e precisava atender à crescente demanda por serviços públicos.

A chegada de uma usina de açúcar havia provocado mudanças na realidade do município, aumentando a necessidade de pessoal em diferentes setores.

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A vereadora também destacou que o Tribunal de Contas do Estado do Paraná apontou irregularidades relacionadas à comprovação de despesas, à ausência de documentos e à terceirização de serviços públicos.

Entretanto, sustentou que não havia comprovação de fraude, dolo ou enriquecimento ilícito do ex-prefeito.

Cleide questionou ainda a responsabilidade do instituto contratado pela falta de documentação.

Segundo sua manifestação, a administração municipal posterior, comandada pelo ex-prefeito Valdir Antônio Turcato, também deixou de encaminhar informações solicitadas pelo Tribunal de Contas.

A parlamentar perguntou como João Batista poderia ser responsabilizado sozinho pela ausência de documentos quando já havia deixado a Prefeitura.

Os argumentos apresentados por Cleide não anulam as irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas, mas levantam questões relevantes sobre a responsabilidade de cada envolvido.

“Santo Inácio deve muito a esse ex-prefeito”, afirmou Cleide

A defesa da vereadora também abordou a trajetória política e administrativa de João Batista dos Santos.

Cleide afirmou que conhecia o trabalho realizado pelo ex-prefeito e que não havia identificado elementos que demonstrassem enriquecimento ilícito.

Em um dos momentos de sua manifestação, declarou:

“Eu acho que Santo Inácio deve muito a esse ex-prefeito.”

A parlamentar argumentou que João Batista havia contribuído para o desenvolvimento do município e que os vereadores deveriam considerar as circunstâncias da época antes de tomar uma decisão.

Ela também demonstrou preocupação com as consequências financeiras das penalidades relacionadas ao processo.

Cleide pediu que os colegas analisassem o caso com consciência e responsabilidade.

A defesa não significava negar a importância do Tribunal de Contas. O ponto central era distinguir falhas administrativas e documentais de eventuais condutas fraudulentas, que exigem comprovação específica.

Joilson, relator do projeto, também defendeu João Batista

O vereador Joilson, relator do Projeto de Decreto Legislativo nº 03/2026, apresentou argumentos favoráveis ao ex-prefeito.

Ele afirmou que estudou o processo, procurou orientação profissional e participou de uma reunião com João Batista para esclarecer dúvidas.

Segundo Joilson, o acórdão analisado não continha afirmação de dolo, fraude, má-fé ou enriquecimento ilícito do ex-prefeito.

O relator reconheceu as irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas, mas defendeu que a ausência de comprovação documental não poderia ser automaticamente interpretada como desvio de recursos públicos.

Joilson também lembrou que a Câmara havia adotado decisões favoráveis a João Batista em processos semelhantes analisados anteriormente.

Para o parlamentar, era necessário considerar a realidade administrativa enfrentada pelo município no período da contratação.

Sua posição foi favorável à rejeição do parecer prévio do Tribunal de Contas.

Portanto, Joilson não apresentou uma defesa baseada apenas na trajetória política de João Batista. Ele explicou os fundamentos de seu voto e reconheceu expressamente a existência de irregularidades administrativas.

Rosemeire pergunta o que mudou nas contas e expõe contradição

A vereadora Rosemeire de Oliveira da Silva também teve participação importante na discussão.

Ela questionou por que a Câmara havia tomado decisões favoráveis ao ex-prefeito em 2020 e 2023, mas agora demonstrava entendimento diferente sobre uma parceria semelhante.

Durante a sessão, Rosemeire perguntou ao relator o que havia mudado entre os processos.

Joilson explicou que as parcerias apresentavam características semelhantes, embora envolvessem valores diferentes.

Segundo os números mencionados em plenário, o processo de 2020 envolvia R$ 93.390,63. O de 2023 correspondia a R$ 176.624,81. Já o processo atual tratava de R$ 239.720,82.

Esses valores não comprovam que os três processos sejam juridicamente idênticos. Entretanto, a comparação justifica o questionamento sobre os critérios utilizados nas decisões.

Rosemeire também cobrou explicações diretamente da vereadora Teresinha Carvalho da Mota.

A parlamentar lembrou que ambas haviam participado de análises anteriores e questionou a mudança de posicionamento.

Teresinha reconheceu que votou favoravelmente ao ex-prefeito em duas ocasiões anteriores.

Segundo ela, naquela época considerava que as decisões eram adequadas. Agora, afirmou ter entendimento diferente sobre a responsabilidade do gestor público.

Mudar de voto é um direito de qualquer vereador.

Mas a população também tem o direito de conhecer quais elementos concretos justificaram a mudança.

Foi justamente essa contradição que provocou a indignação de Cleide ao final da sessão.

Cinco vereadores e uma pergunta: a votação foi técnica ou política?

A rejeição do projeto também levantou questionamentos sobre os interesses políticos envolvidos.

Ronaldo Cabeção, Wesley Japa Teresinha Carvalho da Mota, Noellen e Laércio Turcato integram o grupo de vereadores apontado como contrário à proposta favorável a João Batista.

Nos bastidores políticos de Santo Inácio, os vereadores Laércio Turcato, que teria vários parentes ocupando cargos comissionados (CCs) na Prefeitura, Teresinha Carvalho da Mota e Ronaldo Cabeção, que também já teria tido uma filha em cargo comissionado, são apontados como possíveis candidatos a prefeito nas próximas eleições.

Segundo informações de bastidores, a rejeição do projeto teria sido uma tentativa de eliminar politicamente um possível adversário, o ex-prefeito João Batista dos Santos, conhecido como João Venceslau, por meio de um suposto “tapetão”.

Nesse cenário, existe a interpretação de que o fortalecimento político de João Batista dos Santos e de seu grupo poderia contrariar interesses eleitorais.

Surge, portanto, uma pergunta: a rejeição do projeto ocorreu exclusivamente por razões técnicas ou também envolveu cálculos políticos sobre as próximas eleições municipais?

Há um suposto acordo que os cinco vereadores combinaram seus votos para enfraquecer João Venceslau.

A política municipal não pode transformar o julgamento de contas públicas em instrumento de disputa eleitoral.

Teresinha fala em puxadinho, mas Câmara parece ter virado um anexo da Prefeitura

Um dos momentos mais curiosos da sessão ocorreu quando Teresinha Carvalho da Mota afirmou que a Câmara Municipal já havia sido considerada um “puxadinho da prefeitura”.

Segundo a vereadora, atualmente existe maior respeito e diálogo entre Executivo e Legislativo.

A declaração permite uma reflexão política.

Se a Câmara era um puxadinho no passado, como classificar a relação atual entre a maioria dos vereadores e a gestão Geny Violatto?

Pelo comportamento político da bancada governista, o antigo puxadinho parece ter ficado pequeno demais para acomodar Ronaldo Cabeção, Wesley Japa, Teresinha, Noellen e Laércio Turcato.

Na comparação irônica, agora seria necessário um verdadeiro anexo da Prefeitura, com espaço para cinco vereadores que parecem encontrar muito mais motivos para dizer “amém” à administração do que para contrariá-la.

O alinhamento político com o Executivo não constitui irregularidade.

Vereadores podem apoiar a prefeita, aprovar projetos e reconhecer ações positivas.

Mas o mandato parlamentar exige muito mais do que elogios e ofícios de congratulações.

Exige fiscalização.

Vereador não foi eleito para funcionar como departamento de relações públicas da Prefeitura.

Foi eleito para fiscalizar contratos, cobrar documentos, acompanhar despesas e representar a população.

O problema não está em votar com a prefeita. Está na impressão de que a independência do Legislativo pode ficar em segundo plano quando os interesses políticos da administração estão em discussão.

Teresinha também enfrenta questionamentos sobre possíveis privilégios

A atuação de Teresinha merece atenção por outro motivo.

Em 29 de maio de 2026, O Diário de Maringá publicou reportagem sobre a possível utilização de dois caminhões da Prefeitura de Santo Inácio para transportar cascalho de Guaraci até uma propriedade rural supostamente ligada à vereadora.

Segundo as informações recebidas pelo jornal, o episódio teria ocorrido em 27 de maio.

A reportagem também mencionou que um vereador de Guaraci teria registrado imagens da operação.

Na ocasião, o jornal cobrou esclarecimentos sobre a finalidade do transporte, as autorizações e a eventual existência de interesse público.

Também houve questionamentos anteriores envolvendo o possível uso de automóvel da Prefeitura pela parlamentar.

Esses episódios precisam ser analisados com responsabilidade, sem condenações antecipadas.

Mas demonstram por que a fiscalização não pode ser seletiva.

Se Teresinha considera necessário exigir rigor na análise das contas de João Batista, também deve apoiar esclarecimentos completos sobre eventuais benefícios relacionados à atual administração.

A mesma responsabilidade cabe ao presidente Ronaldo Cabeção.

A Câmara precisa fiscalizar a gestão Geny Violatto com o mesmo empenho dedicado às administrações anteriores.

Joilson cobra informações sobre rodeio e gastos públicos

A discussão também revelou diferenças na postura fiscalizadora dos parlamentares.

Rosemeire questionou a rejeição de um requerimento apresentado por Joilson, que solicitava informações sobre a prestação de contas de um rodeio realizado no município.

O pedido envolvia receitas de estacionamento, praça de alimentação e camarotes.

Joilson confirmou que o requerimento não recebeu apoio suficiente da Câmara.

Segundo ele, a proposta teve apenas seu voto favorável.

Diante da rejeição, encaminhou o assunto ao Ministério Público.

Isso não significa que existam irregularidades comprovadas nas contas do evento.

Significa que o vereador procurou obter informações e, diante da resistência ao requerimento, buscou outra instituição responsável pela fiscalização.

Enquanto isso, a administração municipal também enfrenta questionamentos sobre suas prioridades financeiras.

Conforme dados anteriormente divulgados pelo O Diário de Maringá, Santo Inácio apresentou diferença negativa entre receitas e despesas no primeiro quadrimestre de 2026.

A realização de shows e eventos também provocou debates sobre os gastos municipais.

Um resultado financeiro negativo em determinado período não comprova, isoladamente, irregularidade fiscal. Da mesma forma, contratar apresentações artísticas não constitui ilegalidade por si só.

Mas esses fatos exigem acompanhamento do Legislativo.

Elogiar a prefeita por realizar eventos é legítimo. Fiscalizar quanto custaram e como foram pagos é obrigação.

A saída de Cleide resumiu a indignação com a votação

A manifestação final de Cleide Aparecida Ferreira foi o momento mais marcante da sessão.

Depois de apresentar argumentos em defesa de João Batista e acompanhar a rejeição do projeto, a vereadora não escondeu sua indignação.

Ela pediu licença para deixar o plenário e afirmou estar enojada com o que havia presenciado.

Sua crítica foi direcionada especialmente à mudança de posicionamento de vereadores que anteriormente haviam apoiado decisões favoráveis ao ex-prefeito.

A palavra utilizada por Cleide foi forte.

Mas sua manifestação não surgiu de uma simples discordância eleitoral.

A parlamentar havia participado da análise do processo, ouvido o ex-prefeito, examinado os argumentos apresentados e comparado o caso com votações anteriores.

Rosemeire também havia cobrado explicações sobre essas diferenças.

Joilson, como relator, apresentou fundamentos para defender uma decisão favorável a João Batista.

A maioria tinha o direito de discordar dos três.

Entretanto, precisava sustentar seu posicionamento diante dos questionamentos apresentados.

João Batista merece análise justa, e Câmara precisa provar independência

O caso de João Batista dos Santos não pode ser reduzido a uma disputa entre aliados e adversários da prefeita Geny Violatto.

As irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas devem ser consideradas.

Ao mesmo tempo, os argumentos apresentados pela defesa do ex-prefeito precisam receber a devida atenção.

Joilson levantou questões sobre a ausência de comprovação de fraude ou enriquecimento ilícito.

Cleide questionou a responsabilidade pela falta de documentos e destacou as circunstâncias enfrentadas pelo município.

Rosemeire cobrou coerência diante das decisões anteriores.

São argumentos que merecem respostas técnicas, independentemente das preferências políticas de cada vereador.

A rejeição do projeto não elimina essas questões.

Também não afasta os questionamentos sobre a independência da Câmara diante da administração municipal.

Afinal, uma Câmara independente não é aquela que apenas declara ter respeito e diálogo com a Prefeitura.

É aquela que consegue fiscalizar, cobrar e, quando necessário, contrariar o Executivo.

Se o antigo puxadinho realmente deixou de existir, os cinco vereadores alinhados à gestão Geny Violatto precisam demonstrar que não transformaram o Legislativo em um anexo político da administração.

E a saída indignada de Cleide deixa uma reflexão para a população.

Quando uma vereadora afirma estar enojada porque colegas mudaram de posição em processos semelhantes, a Câmara não pode simplesmente encerrar a votação e ignorar as perguntas que ficaram.

Porque o que está em jogo não é apenas o futuro político de João Batista dos Santos.

É a credibilidade da Câmara Municipal de Santo Inácio.

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Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira Jornalista, apresentador e mestre de cerimônias | MTB 0011341/PR Gilmar Ferreira construiu sua trajetória entre redações, estúdios de televisão, emissoras de rádio e eventos. Sua experiência reúne a apuração jornalística, a apresentação ao vivo e a condução de cerimônias, com atuação no Paraná e em Santa Catarina. Atualmente, é diretor de redação de O Diário de Maringá e atua como mestre de cerimônias em eventos no Paraná e SP. Na televisão, trabalhou como apresentador e âncora na TV Maringá (Band), RIC TV Maringá (Record), Record News (Rede Mercosul) e RTV 10 Maringá. Sua trajetória no rádio inclui passagens, no Paraná, pela Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Em Santa Catarina, atuou na Rádio Menina FM e na Rádio Globo AM, em Blumenau. Em cada formato, Gilmar leva a experiência de quem conhece a notícia desde a apuração até o momento de comunicá-la ao público.

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