Em carta aberta, Toni Reis se manifesta sobre rejeição da criação de Conselho Municipal de Direitos LGBTI+ de Maringá

Carta aberta de Toni Reis à Câmara Municipal e às pessoas LGBTI+ de Maringá
“Nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou” (Victor Hugo)
A votação na semana passada contrária à criação do Conselho Municipal de Direitos LGBTI+ de Maringá (Projeto de Lei Ordinária nº 16058/2021) me levou a escrever esta carta aberta. Sou ativista e militante da causa LGBTI+ desde 1984 e atualmente sou presidente da Aliança Nacional LGBTI+ e também presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas.
Nos anos 1980 e 1990 levamos tantos nãos e tantas derrotas, mas em 2011 tivemos uma grande e unânime vitória no Supremo Tribunal Federal, a primeira de várias que fizeram toda a diferença para o melhor para a comunidade LGBTI+ no Brasil: união estável / casamento civil entre pessoas do mesmo sexo; adoção conjunta de filhos; reconhecimento do direito à identidade de gênero autodeclarada; criminalização de atos LGBTIfóbicos; doação de sangue por gays, bissexuais masculinos e pessoas trans; garantia da liberdade de cátedra na educação, inclusive para abordar os temas de igualdade de gênero e respeito à orientação sexual e identidade/expressão de gênero.
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Acompanhei toda a luta pela aprovação do Conselho Municipal de Direitos LGBTI+ de Maringá. O que queríamos é simplesmente a aplicação do artigo 204 da Constituição Federal, que prevê a “participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis”.
Na votação, 15 parlamentares estavam presentes. 10 foram contrários à proposta, quatro votaram a favor e houve uma abstenção.
https://gmconline.com.br/noticias/politica/camara-de-maringa-rejeita-criacao-de-conselho-lgbt-veja-como-cada-vereador-votou/
Posso até entender os que votaram contra, houve tanta fake news, tanta desinformação a respeito.
O que queremos é minimizar um problema na educação: 73% dos/das estudantes LGBTI+ são agredidos/as verbalmente (bullying) nas escolas; 36% são agredidos/as fisicamente e 60% se sentem inseguros/as na escola por serem LGBTI+, inclusive nas escolas de Maringá (vejam a pesquisa nesse link: www.grupodignidade.org.br/wp-content/uploads/2016/03/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf)
Infelizmente, nossa comunidade é desrespeitada nos serviços de saúde quando não se utiliza o nome social das pessoas travestis e transexuais. A cada 19 horas, uma pessoa LGBTI+ é discriminada em Maringá, no Paraná e no Brasil (vide os dados do Disque 100).
Obrigado e parabéns aos vereadores e à vereadora que foram do lado certo da história e votaram a favor da criação do Conselho Municipal LGBTI+: Dr. Manoel (PL); Flávio Mantovani (Rede); Mário Verri (PT); Profa. Ana Lúcia (PDT). Parabéns ao movimento LGBTI+ maringaense pela mobilização e pela resistência.
Vocês sabiam que na Idade Média nós estaríamos sendo queimados na fogueira pela Santa Inquisição na frente dessa igreja linda. Até 1824, éramos considerados criminosos, e até 17 de maio de 1990, éramos considerados doentes pelo código 302.0 da Classificação Internacional de Doenças.
Esses estigmas ainda permanecem para alguns: os medievais acham que somos pecadores; alguns acham que somos fora da norma; e para outros mais desatualizados ainda, nós permanecemos doentes.
Aos vereadores que foram pressionados por fake news e mudaram o voto, vamos dialogar. Aos vereadores extremistas, quem sabe um dia vão perceber que todos somos iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, e passarão a cumprir a Constituição Federal.
O episódio da votação a respeito da criação do Conselho Municipal de Direitos LGBTI+ de Maringá trouxe para mim quatro grandes lições:
1ª – vale a pena lutar por uma causa justa e não desistir dela: os negros e as negras foram escravizados/as no Brasil até 13 de maio de 1888; as mulheres somente puderam acessar o direito ao voto em 1932; e nós LGBTI+ somente começamos a ter nossos direitos reconhecidos em 2011, após muitas lutas de muitas pessoas e instituições.
2ª – às pessoas LGBTI+ de Maringá, organizem-se e se fortaleçam enquanto comunidade. Façam uma das maiores paradas LGBTI+, formando alianças com os movimentos de mulheres, antirracista, indígenas, pessoas com deficiência, entre outros.
3ª – em caso de qualquer discurso de ódio, proferido por quem seja, na Câmara Municipal, nas rádios, nos jornais, nas mídias sociais, façam um boletim de ocorrência e encaminhem para o Ministério Público e peçam apoio da Defensoria Pública. Não baixem a cabeça, se não a coroa cai.
4ª – nas próximas eleições, se candidatem e/ou votem em quem defende a cidadania plena de todas as pessoas, inclusive as pessoas LGBTI+.
Vida longa à nossa luta e à nossa cidadania! Que viva a democracia e o Estado de direito!
“Mais vale a lágrima da derrota, do que a vergonha de não ter lutado, por isso lute por tudo aquilo que sonhaste, mesmo que te custe uma lágrima derramada”.
Toni Reis
Ativista e militante LGBTI+ há 37 anos.
Diretor Presidente da Aliança Nacional LGBTI+
Presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas
Integrante da Executiva da Rede GayLatino
Diretor Executivo do Grupo Dignidade
Doutor em Educação
Casado com David desde 1990, somos pais de Alyson, Jéssica e Filipe, tudo na forma da lei