Ataque na Venezuela e bomba no gabinete de Guto Silva?
Enquanto Ratinho Junior e Guto Silva se preparam para comentar temas de política internacional, como a tensão envolvendo a Venezuela , o Paraná segue sem respostas sobre fatos locais, concretos e graves, revelados em áudios que vieram a público e que não podem ser tratados como ruído de bastidor.
As conversas entre Rafael Malaguito, ex-gerente geral da Sanepar de Londrina, e Jaime Camargo, então chefe de gabinete de Guto Silva, não são divagações.
Tratam-se de diálogos explícitos que revelam articulação política para contenção de crises, orientações para “esperar o momento certo”, preocupação com documentos comprometedores e, sobretudo, a naturalização de práticas que, no mínimo, exigem esclarecimentos públicos imediatos.
Quando se ouve expressões como “tem que engolir o choro”, “o Guto confia em mim”, “a única coisa que eu tenho que ter certeza é que ele vai cuidar de mim depois”, não se está diante de uma conversa administrativa trivial. Trata-se de uma linguagem que sugere relações de proteção política, gestão de danos e expectativa de amparo hierárquico após decisões consideradas equivocadas.
Mais grave ainda é o trecho em que se menciona, em reunião com empreiteiros, que dinheiro de campanha teria saído da Sanepar, com valores citados abertamente, inclusive com referência direta à campanha de Ratinho Junior. Isso teria sido dito em ambiente coletivo, de porta aberta, sem qualquer cuidado, segundo o próprio relato do áudio. A pergunta que se impõe é simples e incômoda: isso é verdade ou não?
Se não for, por que ninguém desmentiu de forma objetiva, documental e transparente?
Se for, por que ainda não houve investigação ampla, independente e com responsabilização?
Os áudios também revelam tentativas de controle do fluxo de informações, orientações para não enviar documentos imediatamente, aguardar “ver o que mais chega”, e estratégias para proteger determinados nomes, enquanto outros seriam deixados à própria sorte. Isso desmonta qualquer narrativa de que se trata apenas de “falas fora de contexto”.
Não se pode normalizar que um governo estadual trate denúncias dessa magnitude como assunto menor, enquanto desloca o foco do debate para crises externas ou pautas convenientes. O Paraná não pode ser governado por cortinas de fumaça.
A sociedade paranaense não exige discursos, nem entrevistas ensaiadas sobre assuntos internacionais. Exige algo muito mais básico:
explicações claras, investigação séria e respeito ao dinheiro público.
Ignorar o conteúdo dos áudios, fingir que “não revelam nada de estranho” ou tentar soterrá-los sob agendas paralelas não é apenas uma escolha política. É um erro institucional.
E erros institucionais, quando não enfrentados, cobram seu preço.
Trancrição do áudio:
Trancrição do áudio acima:
Rafael Malaguito: É, eu vou falar assim: Olha Priscila, recebi tal documento, tal, tal, tal. Encaminharam aqui para mim a respeito disso aqui. Para não também não jogar a bomba nela e dizer: “E aí Priscila, como é que vai fazer?”. Não. É só falar: “Recebi o documento e gostaria, aguardo orientações a respeito da indicação do presidente, para que você faça o contato e leve essas informações para o presidente”. Jaime Camargo: Entendi. Faz isso para tirar do seu… você tem que responder. Porque assim, a hora que eles já não… é que assim, por isso que o Guto me pediu. Porque eles vêm e contam uma história para o Guto, daí o Guto vem em mim e fala: “Fala com o Rafael porque daí, né…”. Só que o Bedéu assinou. Aí não tinha como eu… deu uma cagada. Pegou? Tem que engolir o choro. Rafael Malaguito: É, não, eu falei para ele. Jaime Camargo: Tem que engolir o choro. Tem que ser homem, não tem jeito. Falei para ele: “Bedéu, antes de… o Guto confia em mim. Se eu der uma cagada, por exemplo, eu vou falar para ele, eu tenho que assumir. E a única coisa que eu tenho que ter certeza é que ele vai cuidar de mim depois”. Só, né? Mas fora isso o cara tem que ser homem. Rafael Malaguito: Sim, não, nós conversamos bastante com o Bedéu. Ele só ficou puto, ficou chateado pra caralho, é do Bráulio ter voltado porque foi o cara que fez… aí eles começaram a levantar um monte de coisa. Ontem o Bedéu falou: “Ó, conversei com o cara aqui, o cara levantou todos os documentos de que o Bráulio dava tubo para prefeito amigo aqui. Cada tubo custa sete mil reais”. Jaime Camargo: Cadê o documento? Rafael Malaguito: Ele está levantando hoje à tarde. Aí que ele vai levantar e informar tudo. Rafael, você é o pica agora. Você tem que liderar. Você tem que liderar. Rafael Malaguito: Sim, não, nós estamos… eu até quis vir aqui falar com você justamente por isso, porque essas informações começaram a chegar para mim tudo ontem, a hora que nós fomos sentar e conversar. Jaime Camargo: Fica de boa. Só pega até a semana que vem para ver o que chega. Não manda isso aqui ainda. Espera para mandar segunda-feira. Espera para ver se vai chegar mais alguma coisa. Se chegar mais alguma coisa, você manda junto. Se não chegar, você já informa isso aqui. Rafael Malaguito: Tá. E aí assim, só para… a Priscila foi lá, nomeou o cara e nem perguntou para você também? Jaime Camargo: Não, é que eu não quero me meter mais com esse negócio. Eu só vou cuidar de quem é meu. Só que o Bedéu… é, eu não quero. A Jane veio pedir um negócio ali para mim e o Léo, e eu falei: “Cara, eu vou cuidar do Léo, vou cuidar de você, Jane”. Eles vão investigar tudo na Sanepar agora, tá? Rafael Malaguito: Não tem problema. Que se foda. Se tiver eu, vai pro pau. Não tem… eu vou cuidar de quem é meu só. Resto não vou gastar essa energia não. Rafael Malaguito: O Claudio Stabile e a Priscila ainda vão levar uma invertida. Numa reunião na semana passada, numa sala com pelo menos umas oito pessoas e dois empreiteiros, o Dedaviz virou para o empreiteiro e falou assim: “Não, não assume isso aí não. Sabe por quê? O Claudio Stabile, quando ele era tesoureiro da campanha do Ratinho Junior, recebeu dinheiro de vários de vocês aqui. Vocês receberam um monte de dinheiro de vários aqui e agora ele está querendo foder vocês. Tanto que ele pegou você, em vez de sentar com você e ver o que aconteceu, te levou para o Ministério Público”. Na sala com um monte de gente, inclusive com o Bráulio junto. Aí eu fico olhando para ele e pergunto: “Ah, você sabe que o Claudio era tesoureiro de campanha?”. Eu falei que não, não sabia que era tesoureiro de campanha. Aí ele falou: “Então, aí ele vai lá e fode com os empreiteiros, mas lá na época da campanha ele veio pedir dinheiro para nós aqui, e os caras deram dinheiro para a campanha do governador”. Falei para a Priscila agora, falei na mesa lá, estava eu, o Topo, a Priscila, o Joel e o Claudio Stabile. Falei: “Viu, vocês cuidam onde vocês vão meter a mão porque o dinheiro da campanha veio daqui também, tá? Da Sanepar, um milhão, tá?”. O Dedaviz falou isso na frente de todo mundo, com licença. O Dedaviz falou isso numa reunião. Então vocês tomam cuidado com o que vocês estão fazendo, porque o que vocês estão fazendo aqui vocês vão misturar no governador. Vai fazer cagada com o governador. Sabe por quê? Depois que começou esse B.O. aí, o cara da Martins já foi lá na sala do Dedaviz falar que quer sentar com o Claudio Stabile para conversar com ele. O Dedaviz segurou a onda, só que esses caras… e outra, o Bedéu ajudou pra caralho. Se os caras forem foder, esse cara da Martins vai para cima dos caras. Ele vai para cima dos caras porque o Bedéu, na sala comigo lá e mais três gerentes, os caras da empreiteira falaram: “O Claudio Stabile pegou dinheiro para a campanha”. Na frente dos dois da Martins e para mais a gente que estava em três gerentes ali, mais um cara de uma empreiteira lá que eu não conhecia. Na sala ali, de porta aberta, nem se preocupou. E isso na hora, cara, eu falei: “Viu, o cara é louco. Se alguém grava ele falando isso…”. Só que eu já estou de saco cheio deles. Jaime Camargo: Eu também. Só que assim, o Silomar não vai deixar quieto porque a Priscila virou para ele e falou: “Você levou dinheiro na conversa”. Foi essa conversa com o Silomar. Tudo bem, ele fez cagada, senta na banana. Agora, que nem do Bedéu, ela não podia ter exonerado o Bedéu e ter nomeado o Bráulio, que foi quem causou todo esse B.O. Mas foi bom. E outra, os caras vão começar a fazer denúncia contra o Bráulio agora. Se chegar no Bedéu, eu falo: “Bedéu, eu falei com o Jaime, o Jaime já falou com o Guto”.


