Giselli Bianchini queria que o que Maduro fez na Venezuela fosse aplicado no Brasil

Giselli Bianchini queria que o que Maduro fez na Venezuela fosse aplicado no Brasil

Da subserviência ao ódio político, quando eles se transformam em traição à soberania?

Por Fúlvio B. G. de Castro
Professor de Sociologia e Bacharel em Direito.

Giselli Bianchini queria o que Maduro fez na Venezuela paro o Brasil

A história recente da América Latina mostra que invasões estrangeiras raramente têm como objetivo a democracia. Ainda assim, parte da extrema direita brasileira passou a defender, abertamente, a intervenção dos Estados Unidos contra governos que não lhe agradam, inclusive o do próprio país. O paradoxo é evidente: aqueles que se autoproclamam patriotas aceitam negociar a soberania nacional em troca da derrota de um adversário político.
A provocação é simples e reveladora. Imaginemos se, durante o governo Bolsonaro, o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciasse uma invasão ao Brasil para “derrubar uma ditadura de extrema direita”. A esquerda brasileira rejeitaria prontamente a ideia, não por simpatia ao governo Bolsonaro, mas porque soberania não se negocia. Já setores da direita, hoje, pedem intervenção estrangeira contra o governo Lula, não por se tratar de um regime autoritário, mas por ódio ideológico e ambição de poder.
Há aqui uma contradição ainda mais profunda. Aquilo que a extrema direita brasileira diz condenar em Nicolás Maduro foi exatamente o que ela própria defendeu para o Brasil. Durante o governo Bolsonaro, pedidos de intervenção militar se tornaram frequentes. Um exemplo emblemático foi o da vereadora Giselli Bianchini, de Maringá, Paraná, que por diversas vezes defendeu publicamente uma intervenção militar diante do Tiro de Guerra. Ou seja, a suspensão da ordem constitucional, a tutela das Forças Armadas sobre a política e a ruptura institucional, exatamente o caminho seguido por Hugo Chávez e aprofundado por Maduro na Venezuela.
O discurso antichavista, portanto, é seletivo e oportunista. Condena-se Maduro não pelo autoritarismo em si, mas porque ele não serve aos interesses ideológicos e geopolíticos da extrema direita brasileira. Vale lembrar, inclusive, que o próprio Jair Bolsonaro, em um passado não tão distante, chegou a elogiar Hugo Chávez, demonstrando que sua oposição ao chavismo nunca foi de princípio, mas de conveniência.
O duplo padrão fica ainda mais evidente quando se observa a relação com os Estados Unidos. Se Bolsonaro fosse o alvo de uma intervenção estrangeira, a indignação seria imediata. Mas há um detalhe central. Os Estados Unidos jamais teriam motivos para derrubá-lo. Bolsonaro sempre foi um aliado submisso, disposto a entregar ativos estratégicos e alinhar o país aos interesses de Washington. Da mesma forma, não há ingenuidade possível no caso da Venezuela. Nenhuma potência devolve poder por altruísmo, especialmente quando estão em jogo as maiores reservas de petróleo do planeta.
O discurso democrático, para o imperialismo, é instrumental. O que orienta decisões geopolíticas é lucro, poder e controle estratégico. O aparato militar dispensa preocupação real com justiça, legalidade ou imagem internacional. Ainda assim, causa espanto ver bolsonaristas comemorando uma possível invasão norte-americana a um país vizinho, desprezando a América Latina e, pior, torcendo para que o próximo alvo seja o Brasil. Intervenção não é filantropia. Significa ocupação, saque de recursos, exploração e perda de autonomia.
A justificativa usada é recorrente. “Salvar o povo de uma ditadura de esquerda.” Mas o alvo real não é um regime autoritário inexistente. É um governo democraticamente eleito. O objetivo não é libertar, mas derrubar um projeto político derrotado nas urnas. Não por acaso, líderes da direita brasileira demonstram simpatia ou entusiasmo diante desse tipo de cenário. Trata-se menos de defesa da democracia e mais de aposta na força externa para retomar o poder interno.
A pergunta inevitável é por que tanto ódio ao governo Lula a ponto de se defender uma invasão estrangeira. Os indicadores econômicos e sociais ajudam a responder. A economia voltou a crescer, a inflação está sob controle, o desemprego caiu, o imposto de renda foi ajustado em favor dos mais pobres e a fome diminuiu. O problema, para a direita, não é que o governo funcione mal. É que funcione bem. Quando a vida do povo melhora, o discurso de que a esquerda destrói o país perde força e, com isso, diminui a chance de captura do Estado.
O projeto alternativo é conhecido. Privatizações predatórias, desvios institucionalizados, leis que flexibilizam punições, blindam criminosos e normalizam a corrupção. Parte da direita acredita que, se um líder como Donald Trump derrubasse Lula, haveria espaço para dividir poder e riqueza. É uma ilusão perigosa. Trump já demonstrou que não compartilha poder nem com aliados ideológicos. Impérios não invadem países para dividir ganhos. Invadem para concentrá-los.
Mesmo que, por hipótese, alguns setores da elite lucrassem com uma invasão, ainda que fosse vendendo o Brasil em partes, resta a pergunta central. E o povo? Trabalhadores, pequenos empresários, profissionais liberais, executivos, quem seria poupado? Que tipo de vazio político e moral leva alguém a destruir a própria casa para derrotar um inimigo ideológico?
Quando o ódio supera o compromisso com o país, deixa de ser política e se torna falência ética. O que esses setores demonstram não é amor ao Brasil, mas desprezo. Não é defesa da liberdade, mas disposição para vender a pátria. Não combatem ditaduras. Apoiam o imperialismo que as constrói quando convém.
Chamar isso de patriotismo é uma fraude moral. Quem torce pela invasão dos outros, torceria pela do próprio país, desde que pudesse lucrar com isso.

Redação O Diário de Maringá

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