O herói aos olhos de fora, o abusador dentro de casa
O que Donald Trump fez em relação à Venezuela pode ser compreendido por meio de uma metáfora dura, porém esclarecedora. Imagine um homem que invade uma casa dizendo agir por compaixão. Lá dentro vive uma mulher que, há anos, sofre agressões do marido e passa necessidades. O invasor arromba a porta, imobiliza o agressor e se apresenta como salvador. Do lado de fora, a cena parece um resgate heroico. O aplauso é imediato.
Mas, passado o choque inicial, a realidade se impõe. O “herói”, agora no controle da casa, impõe suas próprias condições. A mulher deixa de responder ao antigo agressor, mas passa a se submeter ao novo poder. O salvador exige bens do casal para seus interesses, determina regras, controla decisões e usa sua força para manter domínio. A violência não desaparece. Apenas muda de mãos. Para quem observa à distância, a história termina bem. Para quem vive dentro da casa, a liberdade prometida não chegou.
Essa metáfora ajuda a entender a política adotada pelos Estados Unidos sob Trump em relação à Venezuela. A narrativa pública foi a da libertação de um povo oprimido por um regime autoritário. O discurso internacional construiu a imagem de um resgate necessário, urgente e moralmente justificável, capaz de legitimar ações unilaterais em nome de um bem maior.
Soberania não é ideologia: é dever de quem se diz patriota
A lógica do “resgate” ignorou um princípio central. Soberania não se concede, se respeita. Ao condicionar qualquer saída política aos seus próprios interesses estratégicos, Washington deixou claro que não se tratava apenas de democracia ou direitos humanos, mas de controle e alinhamento. A ajuda vinha acompanhada de exigências. A promessa de libertação trazia um preço.
Se a Venezuela teve Maduro, o Brasil insiste em normalizar o Nikolas Imaturo
É preciso afirmar com clareza. Reconhecer os graves problemas do governo venezuelano não obriga ninguém a aceitar intervenções que substituem um autoritarismo por uma tutela externa. Democracia imposta por coerção política ou pressão internacional não é democracia. É dependência. Direitos humanos utilizados como discurso seletivo perdem seu valor ético e passam a servir como instrumento de poder.
O perigo dessa visão simplista é transformar relações internacionais em histórias de mocinhos e vilões, onde o “herói” nunca precisa prestar contas. A história latino-americana mostra o contrário. Intervenções travestidas de salvação costumam enfraquecer a autodeterminação dos povos e perpetuar ciclos de submissão.
Assim como na metáfora da casa invadida, o problema não é apenas derrubar o agressor inicial, mas garantir que a vítima possa decidir seu próprio destino. Sem isso, a libertação é apenas uma troca de domínio. A violência, embora mude de discurso e de uniforme, continua presente.


