Ratinho Junior não vai deixar o governo em abril, porque o Paraná já está sem governador há muito tempo
A especulação de que Ratinho Junior pode deixar o Palácio do Iguaçu em abril para disputar a Presidência da República apenas reforça uma percepção que cresce entre servidores, lideranças políticas e parte expressiva da sociedade paranaense: a de que o Paraná já está sem governo há bastante tempo.
Essa sensação não nasce do acaso nem da oposição automática. Ela é construída a partir de fatos concretos, crises acumuladas, denúncias não esclarecidas e, sobretudo, da ausência de comando político efetivo.
Um governo que parece ausente
Desde o início do segundo mandato, Ratinho Junior passou a ser visto com mais frequência em agendas nacionais do que enfrentando os problemas estruturais do Estado. O foco antecipado em um projeto presidencial gerou um efeito colateral evidente: o esvaziamento da gestão cotidiana.
Na prática, o governo passou a funcionar de forma fragmentada, com secretários agindo de maneira quase autônoma, sem coordenação política clara e sem respostas unificadas à sociedade.
Secretários sob questionamento e silêncio institucional
O desgaste aumentou quando denúncias e áudios envolvendo integrantes do alto escalão vieram a público, especialmente casos relacionados à Sanepar. O nome do secretário Guto Silva foi citado em denúncias que levantaram suspeitas de pressão política e supostos esquemas de arrecadação irregular.
Até o momento, não há condenações judiciais. Mas o problema central não é apenas jurídico. É político. O governo optou pelo silêncio, não apresentou esclarecimentos consistentes e apostou no desgaste do tempo. Essa postura enfraquece a confiança pública e alimenta a sensação de impunidade.
Servidores ignorados e sem reajuste
Outro ponto que sustenta a ideia de um Paraná sem governo é a falta de diálogo com os servidores públicos. Categorias inteiras estão há anos sem reposição inflacionária adequada e sem qualquer política consistente de valorização profissional. Sindicatos denunciam a inexistência de mesas permanentes de negociação e relatam que o governo simplesmente não recebe as entidades representativas.
Enquanto isso, o discurso oficial segue preso a números fiscais e marketing institucional, ignorando o impacto direto da defasagem salarial na vida de milhares de trabalhadores do Estado, muitos deles responsáveis por manter serviços essenciais em funcionamento.
Segurança pública, propaganda e abandono humano
Na área da segurança pública, o contraste entre discurso e realidade é ainda mais grave. Dados e relatos internos indicam que, no Paraná, morrem mais policiais militares por suicídio do que em confrontos com criminosos. O dado, por si só, revela um colapso silencioso na política de cuidado com a tropa, marcado por sobrecarga emocional, pressão psicológica e ausência de apoio efetivo à saúde mental dos agentes.
Diante desse cenário, a resposta do governo tem sido prioritariamente estética. A compra de caminhonetes RAM 3500, utilizadas como viaturas, virou peça central de campanhas publicitárias que buscam transmitir a impressão de que a segurança chegou a todo o Paraná. Na prática, isso não aconteceu. Muitas regiões continuam com déficit de efetivo, falta de estrutura básica e viaturas comuns sucateadas, enquanto veículos de alto valor são exibidos como símbolo de eficiência.
O descontentamento não se limita à ativa. Policiais militares aposentados também demonstram insatisfação crescente com o governo Ratinho Junior, apontando falta de reconhecimento institucional por décadas de dedicação à segurança dos paranaenses. Para muitos, o abandono não é apenas material, mas moral.
O litoral como vitrine, mas não como realidade
O litoral paranaense se transformou em um verdadeiro espetáculo de propaganda oficial, usado para sustentar a narrativa de que está tudo perfeito no Paraná. Eventos, shows, campanhas publicitárias e ações de marketing vendem uma imagem de eficiência e prosperidade que não se confirma na vida real da população local.
Em Paranaguá, por exemplo, a realidade é dura. Há falta de ambulâncias para o Samu, comprometendo atendimentos de urgência; problemas recorrentes no abastecimento de água; quedas frequentes no fornecimento de energia elétrica; e obras anunciadas que simplesmente não saem do papel. O básico ainda falta para milhares de famílias.
O asfalto que aparece nas propagandas ainda não chegou às cidades. Basta verificar as principais rodovias do Estado e até as ruas da própria cidade para constatar trechos esburacados, mal conservados e obras prometidas que nunca foram concluídas. A diferença entre a propaganda e o asfalto real é gritante.
Serviços públicos e gestão distante
Na educação, professores reclamam de desvalorização e de uma gestão focada em metas burocráticas. Na saúde, além das filas e da terceirização, surgem denúncias de assédio funcional e falta de estrutura básica. Na segurança pública, apesar do discurso oficial, servidores relatam problemas operacionais e ausência de diálogo interno.
O padrão se repete em todas as áreas: falta valorização dos servidores, falta escuta, faltam soluções concretas e, em muitas regiões do Paraná, ainda faltam serviços básicos como água e energia elétrica funcionando de forma regular.
Marketing no lugar de governo
A comunicação institucional insiste em vender um Paraná idealizado, enquanto crises reais são minimizadas ou ignoradas. O litoral virou palco, o interior virou silêncio e os servidores viraram estatística. Esse descompasso entre propaganda e realidade aprofunda a descrença e reforça a narrativa de que o governo perdeu a conexão com o cotidiano da população.
A saída apenas oficializa o abandono
Se Ratinho Junior deixar o cargo em abril, a saída será apenas formal. Para muitos paranaenses, o abandono da função já ocorreu na prática. Um governo que não dialoga, não responde a denúncias, não enfrenta crises e governa mais para a imagem do que para as pessoas deixa de cumprir sua principal missão.
O Paraná não precisa de espetáculo, marketing ou projetos pessoais. Precisa do básico funcionando, de valorização dos servidores, de água e luz nas casas, de serviços públicos eficientes e de liderança com responsabilidade institucional.
Hoje, infelizmente, o que se vê é um Estado à deriva.


