Picanha na campanha, mas fora do prato: o que esperar de um novo governo Bolsonaro
Quando surgem ações comerciais como “picanha do Bolsonaro” ou “picanha do Flávio Bolsonaro”, a tentativa é transformar um símbolo alimentar em homenagem política. Mas a memória recente do Brasil expõe uma contradição evidente. No período do governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, a picanha deixou de ser alimento popular e virou um verdadeiro mito na mesa da população.
Levantamentos de mercado e séries históricas de preços amplamente divulgadas indicam que, nesse período, o preço da picanha acumulou alta estimada entre 55% e 60% em valores nominais. Ao mesmo tempo, os preços de alimentos e bebidas subiram aproximadamente entre 43% e 57%, a depender da base estatística considerada. O efeito prático foi a perda do poder de compra do trabalhador brasileiro.
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Durante os quatro anos do governo Bolsonaro, o salário mínimo não teve ganho real. As correções ficaram restritas à reposição inflacionária, sem aumento efetivo da renda. Na prática, isso significou menos comida no prato. Em muitos bairros e cidades, tornou-se comum a venda de ossos e retalhos como alternativa para famílias que já não conseguiam pagar por carne.
Enquanto a picanha desaparecia da mesa da maioria da população, ela não faltava na mesa da família Bolsonaro. Registros públicos, investigações jornalísticas e declarações oficiais já amplamente noticiadas apontam que integrantes da família adquiriram mais de 50 imóveis ao longo dos anos, parte deles com uso de dinheiro vivo, fato que gerou questionamentos de órgãos de controle e da sociedade. Não se trata de julgamento judicial, mas de um dado de conhecimento público que ajuda a ilustrar o contraste social daquele período.
Assim, a picanha virou símbolo de uma desigualdade gritante. Para milhões de brasileiros, ela se transformou em promessa vazia, meme ou discurso político. Para poucos, seguiu sendo realidade cotidiana. Esse abismo ajuda a explicar por que a referência à picanha causa indignação em vez de nostalgia para grande parte da população.
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Editorial não é sentença, mas é posicionamento. E os números deixam claro que entre 2019 e 2022 o Brasil viveu o encarecimento da comida, a estagnação da renda e o afastamento do trabalhador de itens básicos. A picanha não foi política pública, foi retórica.
Tentar resgatar esse símbolo como homenagem ignora a realidade vivida pela maioria dos brasileiros. A picanha, naquele período, virou mito para o povo e permaneceu privilégio de poucos. Essa é uma memória econômica que não se apaga com propaganda.


