O discurso de moralidade administrativa resiste ao caso Guto Silva?

O discurso de moralidade administrativa resiste ao caso Guto Silva?

Segundo reportagem da Gazeta do Paraná, a sobreposição de vínculos envolvendo a publicitária responsável pelo posicionamento da imagem pessoal do secretário estadual das Cidades, Guto Silva, e sua atuação simultânea em um cargo técnico de alto nível dentro de um órgão estratégico do Governo do Paraná expõe um problema que vai muito além da formalidade legal.

De acordo com a apuração, Scheila Novaes Schuchovski Sperandio exerce desde abril de 2024 a função de Analista IV na Paraná Projetos, por meio de contrato de terceirização firmado com a empresa Diretiva Patrimonial Ltda., a um custo mensal aproximado de R$ 29 mil ao erário. Trata-se de um dos postos técnicos mais elevados dentro da estrutura terceirizada do órgão.

Ao mesmo tempo, a própria profissional tornou pública sua atuação na construção da marca pessoal de Guto Silva, descrevendo o trabalho como um projeto de posicionamento estratégico de imagem política, com foco em narrativa, identidade e presença pública. Não se trata de comunicação institucional, mas de um serviço privado, assumido e divulgado como tal.

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A Paraná Projetos não é um órgão periférico. Ela atua como braço técnico do Executivo estadual, responsável por estudos, modelagens e apoio a projetos estratégicos do governo. Seu conselho administrativo inclui membros do núcleo duro do poder estadual, entre eles o chefe da Casa Civil e o secretário de Planejamento, cargo ocupado por Guto Silva em 2024.

É verdade que, até o momento, não há apontamento formal de ilegalidade. Os contratos são públicos, os vínculos estão documentados e o modelo de terceirização segue a legislação vigente. Mas a ausência de ilegalidade não transforma automaticamente o arranjo em algo aceitável do ponto de vista ético, administrativo e institucional.

O problema é claro. Quando uma mesma pessoa atua na construção da imagem política de um secretário de Estado e, simultaneamente, exerce função técnica dentro da estrutura estratégica do governo ao qual esse secretário pertence, cria-se um ambiente de confusão de papéis que fragiliza a credibilidade da administração pública.

Mesmo que o vínculo seja indireto, por meio de terceirização, o custo é público. O cargo é estratégico. E a proximidade política é evidente. Em um Estado que se apresenta como exemplo de gestão, eficiência e moralidade administrativa, situações como essa deveriam, no mínimo, ser evitadas.

A confiança da sociedade não se sustenta apenas no cumprimento frio da lei. Ela depende de limites claros, separação inequívoca entre interesses públicos e privados e, sobretudo, de bom senso administrativo. Quando essas fronteiras se tornam difusas, a desconfiança se instala, ainda que tudo esteja formalmente “dentro das regras”.

Como bem aponta a Gazeta do Paraná, o caso revela como redes profissionais, pessoais e institucionais acabam se entrelaçando na gestão pública contemporânea. E esse entrelaçamento, quando não enfrentado com transparência ativa e critérios rigorosos, corrói a legitimidade das decisões de Estado.

Legalidade é o piso. Ética pública é o teto. Quando o governo se contenta apenas com o piso, é a sociedade que paga o preço.

Redação O Diário de Maringá

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