Quem governa para likes quebra cidades
Medidas impopulares, responsabilidade obrigatória e o tempo da política
Na política municipal, poucas decisões são tão impopulares quanto o reajuste do IPTU. Trata-se de uma medida técnica, legal e necessária, mas que provoca reação imediata da opinião pública. O imposto não chega em discurso nem em promessa. Chega em forma de carnê, dentro de casa, mexendo diretamente no orçamento familiar. Quem gosta de pagar imposto? Ninguém.
A reação do eleitor é previsível. Reclama, protesta, demonstra insatisfação. E isso é natural.
O que não é aceitável é confundir popularidade momentânea com boa gestão. Governar olhando apenas para índices de aprovação, ignorando obrigações legais e fiscais, não é prudência política. É irresponsabilidade administrativa.
Em Maringá, o prefeito Silvio Barros foi obrigado a tomar uma decisão impopular por razões que vão muito além de vontade política. A Planta Genérica de Valores do município estava sem atualização há mais de 20 anos, gerando distorções profundas na base de cálculo do IPTU. Manter essa defasagem indefinidamente não é opção. É passível de questionamento pelos órgãos de controle, pode caracterizar renúncia indireta de receita e expõe o gestor a riscos jurídicos pessoais, inclusive por omissão.

Não atualizar a planta significa deixar de arrecadar o que a lei permite, comprometendo a capacidade do município de financiar serviços básicos como saúde, educação, infraestrutura e manutenção urbana. Um prefeito não responde apenas por atos. Responde também por omissões.
O exemplo mais claro vem de Londrina.
Em 2018, o então prefeito Marcelo Belinati enfrentou forte desgaste político após o aumento do IPTU. Manchetes negativas, críticas emocionais, acusações de falta de entregas e um ambiente político aparentemente hostil dominaram o debate público. Pesquisas indicavam queda de aprovação: 56% da população não aprovava a gestão naquele momento. Ainda assim, 61,5% diziam confiar na administração, enquanto 30,5% afirmavam não confiar.
O discurso crítico era praticamente idêntico ao que se escuta hoje em Maringá.
O tempo mostrou que a política não se decide no impacto do carnê, mas no resultado do ciclo de gestão. Anos depois, Marcelo Belinati foi reeleito em primeiro turno, com 68,66% dos votos. Não venceu porque era popular no auge da crise, mas porque, ao final do mandato, apresentou organização fiscal, resultados e entregas concretas.
A história se repete em escala nacional. O governo Lula, permanentemente situado na margem de risco da popularidade, enfrenta desgaste contínuo e críticas severas. Ainda assim, segundo diversas pesquisas, se a eleição fosse hoje, Lula seria eleito para um quarto mandato. O motivo é o mesmo: a avaliação final não é feita no calor do momento, mas na comparação de resultados.
É importante esclarecer um ponto central nesse debate. Todo proprietário de imóvel que paga IPTU não paga o imposto sobre o valor real de mercado do seu imóvel, mas sobre o valor venal, que historicamente é muito inferior ao preço efetivo praticado nas vendas. Nenhum proprietário aceita vender seu imóvel pelo valor que consta no carnê do IPTU. Essa é a prova objetiva da distorção.
Se o debate fosse levado ao extremo da “justiça absoluta”, seria necessário atualizar os imóveis pelo valor de mercado e, só então, discutir alíquotas. A pergunta é direta: essa medida seria aceita? Evidentemente não. A reação seria ainda mais dura. Isso demonstra que o problema não é apenas o imposto, mas a forma emocional e simplificada como o tema é tratado no debate público.
Não se trata aqui de defender aumento de impostos. Ninguém gosta de pagar impostos. Também não se trata de defender este ou aquele prefeito. O objetivo é contribuir para que a população compreenda como se pauta um tema delicado como a cobrança e a adequação de tributos, sem slogans fáceis ou indignação seletiva.
Um gestor que se preocupa apenas em preservar popularidade, deixando de tomar decisões necessárias para equilibrar o orçamento, compromete dois pilares fundamentais: a qualidade dos serviços públicos e a legalidade da gestão.
Ser popular à custa da irresponsabilidade fiscal pode custar caro. Para a cidade e para o próprio gestor, que pode responder judicialmente não apenas por decisões equivocadas, mas também por omissões deliberadas.
A política não funciona no ritmo das redes sociais, nem no impacto emocional da conta que chega no fim do mês. O IPTU gera reação imediata. A avaliação do governo vem depois, com distância, comparação e base em resultados.
Belinati atravessou o desgaste, organizou a casa e chegou à eleição com entregas visíveis. Maringá entra agora exatamente nesse mesmo momento histórico. O eleitor primeiro reclama. Só depois avalia.
Quem entende esse tempo governa olhando para frente. Esse é, hoje, o perfil do atual prefeito maringaense.
Ainda é tempo de lembrar que a popularidade de um gestor pode estar baixa, mas a responsabilidade precisa estar sempre em alta.


