Ratinho Junior, Guto Silva, Sandro Alex e Soldado Adriano José: vocês se enganaram com o pedágio ou nos enganaram?
Bateram o martelo na cabeça do paranaense?
A cena foi cuidadosamente construída. Na Bolsa de Valores, diante de câmeras e holofotes, o governador Ratinho Junior comemorou o que classificou como “mais uma vitória da população do Paraná” ao bater o martelo do maior leilão rodoviário da história da América Latina. Ao seu lado estavam o secretário de Infraestrutura Sandro Alex e o deputado estadual Soldado Adriano José. O discurso foi ufanista, ensaiado e pensado para gerar impacto. Descontos anunciados, promessa de muitas obras e a narrativa de um Estado que “trabalha, cuida e entrega”.
Mas editoriais não existem para repetir slogans. Existem para fazer a pergunta que o marketing evita. Ratinho se enganou ou tentou nos enganar?
O desconto anunciado precisa ser analisado com lupa. Deságio em pedágio não significa, automaticamente, benefício ao usuário. A experiência do Paraná mostra que concessões podem começar com tarifas aparentemente menores e terminar em contratos caros, repletos de aditivos, reequilíbrios financeiros e obras que atrasam ou custam muito mais do que o prometido. O valor inicial é apenas uma fotografia. O custo real aparece com o tempo.
Além disso, cresce o questionamento sobre o sistema Free Flow, apresentado como moderno e eficiente, mas que na prática pode penalizar justamente quem não tem alternativa de deslocamento. Quem mora perto das praças de pedágio tende a pagar mais, circular mais e ser cobrado com mais frequência. O modelo ignora a realidade de milhares de trabalhadores que dependem diariamente das rodovias para trajetos curtos e repetidos.
Na nossa região, cidades como Mandaguari, Marialva, Mandaguaçu e Presidente Castelo Branco ilustram bem esse problema. Moradores que atravessam trechos pequenos para trabalhar, estudar ou acessar serviços essenciais correm o risco de pagar a conta cheia de um sistema pensado longe da realidade local. Para quem vive nessas regiões, o pedágio não é eventual. É cotidiano.
Nesse cenário, chama atenção o silêncio do deputado estadual Soldado Adriano José. Presente na cerimônia, posando para fotos no momento em que o martelo foi batido, agora age como se o pedágio caro e potencialmente abusivo não tivesse qualquer relação com sua atuação política. O silêncio não é neutro. Ele comunica. E comunica conveniência.
Diferente de parlamentares como Delegado Jacovós, Evandro Araujo e Arilson Chiorato, que publicamente questionam o modelo, os valores e os impactos desse novo ciclo de concessões, Adriano José se cala e tenta passar a impressão de que não participou do processo. Essa postura não apaga sua presença, nem sua responsabilidade política. Ao contrário, levanta outra pergunta incômoda. O deputado também tenta nos enganar?
O governador gosta de fotos. O deputado também. Então vale olhar com atenção a imagem do momento em que o martelo foi batido. Um martelo simbólico que, pelo jeito, não atingiu apenas a mesa do leilão, mas acertou em cheio a cabeça de milhões de paranaenses que, mais uma vez, ficam com a conta.
O martelo bateu. Os discursos foram feitos. As fotos foram tiradas.
Agora começa a parte que não aparece em vídeos institucionais.
Se o sistema Free Flow pesar mais para quem mora perto das praças, se os pedágios encarecerem a vida do trabalhador e se as obras não vierem no ritmo prometido, a pergunta continuará ecoando. Ratinho se enganou ou nos enganou? E quem estava ao seu lado naquele palco também tentará fingir que nada tem a ver com isso?
Porque responsabilidade política não se apaga com silêncio, nem com pose para fotografia.


