Não é só na direção do Estado que Ratinho Junior comete supostas infrações; no trânsito também
Governar é, antes de tudo, dar exemplo. O exemplo não se constrói apenas em discursos, inaugurações ou campanhas institucionais. Ele se revela nas atitudes cotidianas, inclusive atrás do volante.
Um vídeo que circula mostra o Ratinho Junior dirigindo enquanto conversa com quem grava. Em diversos momentos, conduz o veículo com apenas uma das mãos, gesticula com a outra e desvia o olhar da via para falar com a câmera. A cena pode parecer comum, mas a pergunta que precisa ser feita é simples: é prudente?
O Código de Trânsito Brasileiro não foi criado apenas para o cidadão comum. Ele vale para todos. O artigo 252, inciso V, do CTB estabelece que é infração dirigir o veículo com apenas uma das mãos, salvo para fazer sinais regulamentares, mudar a marcha ou acionar equipamentos do próprio veículo. A infração é de natureza média, com aplicação de multa e quatro pontos na CNH.
Já o artigo 169 do CTB determina que é infração dirigir sem atenção ou sem os cuidados indispensáveis à segurança. Trata-se de infração leve, também passível de multa e pontuação.
Em relação à gravação de vídeos, o CTB não possui um artigo específico que mencione “gravar vídeo”. O que a legislação proíbe, de forma expressa, é o uso de telefone celular ao volante. O artigo 252, inciso VI, do CTB considera infração gravíssima dirigir utilizando telefone celular. Mesmo quando o aparelho está fixado, se houver manuseio ou interação que comprometa a atenção do condutor, pode haver enquadramento. Além disso, ainda que outra pessoa esteja filmando ou que o celular esteja preso a um suporte, a conduta pode ser analisada sob a ótica do artigo 169, caso fique caracterizada a perda de atenção à via.
Não se trata de acusação precipitada. Não há registro de acidente nem notícia de autuação. O que existe é um princípio maior em jogo, a responsabilidade.
Dirigir exige atenção plena. A condução de um veículo não é palco para discursos nem espaço para gravações descontraídas. Quando uma autoridade pública aparece ao volante gesticulando e desviando o olhar da pista para falar com a câmera, a mensagem transmitida pode ser perigosa. Ainda que não haja infração formal comprovada, o símbolo importa.
O Paraná convive diariamente com campanhas de conscientização sobre segurança no trânsito. Milhares de famílias são impactadas todos os anos por acidentes evitáveis. Nesse cenário, espera-se das lideranças políticas uma postura exemplar.
O governador pode dirigir. Pode conversar com um passageiro. Mas quando a condução se mistura com performance para câmera, surge uma dúvida legítima: a atenção está na estrada ou na gravação?
Não se trata de transformar um vídeo em escândalo. Trata-se de reafirmar um valor básico da vida pública, a coerência. Quem ocupa cargo de comando precisa compreender que cada gesto comunica. No trânsito, comunicar descuido pode custar caro.
O exemplo que vem de cima deve ser de responsabilidade, prudência e respeito às normas. Porque no volante, como na política, a direção precisa ser firme e as duas mãos fazem diferença.



