Após criticar o Carnaval, Giselli Bianchini vai questionar Natal, Réveillon e campeonatos de futebol?
A vereadora Giselli Bianchini afirma ser contra o Carnaval sob o argumento da violência. A preocupação com segurança pública é legítima. O que não pode ser seletivo é o raciocínio.
Se o critério para restringir ou extinguir um evento cultural for o aumento pontual de ocorrências policiais, então o debate precisa ser ampliado. Natal e Ano Novo também registram crescimento de crimes patrimoniais, acidentes de trânsito e episódios de agressão. Jogos de futebol mobilizam grande aparato policial. Grandes shows igualmente exigem reforço na segurança.
A pergunta que se impõe é simples: o problema está na festa ou na gestão da segurança?
O Carnaval não é apenas celebração. É cadeia produtiva. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, a festa movimenta entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões na economia nacional, gerando centenas de milhares de empregos temporários. Em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife, o impacto no turismo, na hotelaria, no comércio e no setor de serviços é decisivo para o resultado do primeiro trimestre.
Não se trata de romantizar excessos. Há consumo de álcool, há ocorrências policiais, há desafios logísticos. Mas isso exige planejamento, policiamento eficiente, organização urbana e políticas preventivas, não a simples supressão de uma manifestação cultural que gera renda para trabalhadores formais e informais.
Ambulantes, músicos, técnicos de som, costureiras, seguranças privados, motoristas de aplicativo, garçons, camareiras, produtores culturais e pequenos comerciantes dependem diretamente dessa engrenagem econômica. Cancelar o Carnaval não elimina a violência estrutural do país. Apenas elimina renda.
Quando um agente público se posiciona contra uma festa popular com base exclusiva na violência, precisa demonstrar coerência. Defenderá também o fim do Réveillon? Do Natal comercial? Dos eventos esportivos? Ou a régua será aplicada apenas ao Carnaval?
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O debate é legítimo. Mas precisa ser honesto.
Segurança pública é responsabilidade do Estado. Cultura é patrimônio da sociedade. Misturar as duas coisas sem aprofundar dados e impactos econômicos pode transformar uma discussão técnica em pauta ideológica.
O que a população precisa não é menos cultura. É mais gestão, mais planejamento e mais responsabilidade.
Se for aplicada a mesma lógica utilizada pela vereadora ao criticar o Carnaval, seria coerente também reconhecer a gravidade dos atos de 8 de janeiro. É curioso que, ao se posicionar sobre aqueles acontecimentos, Giselli Bianchini não destaque que houve violência, depredação do patrimônio público
O Diário de Maringá permanece aberto ao contraditório e à manifestação da vereadora para aprofundar o debate.



