A lata não ofende ninguém, ela apenas revela quem está dentro
A lata, o rótulo e a pedra: a reflexão que incomoda
A metáfora continua atual. A lata de conserva tem um rótulo bonito, cores fortes, promessa de qualidade e tradição. Quando se abre, muitas vezes o alimento está próprio para consumo. O problema não é a existência da conserva. O problema é viver apenas dela. O excesso faz mal. Conservantes em demasia prejudicam o corpo. E discursos fechados, quando consumidos sem reflexão, também prejudicam a sociedade.
Ser conservador não é, por si só, algo negativo. Defender família, responsabilidade, ética e ordem são posições legítimas dentro do debate democrático. O problema surge quando o conservadorismo vira apenas embalagem. Quando o rótulo moral passa a esconder práticas incompatíveis com o discurso.
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A própria tradição cristã oferece um exemplo poderoso dessa reflexão. Em Evangelho de João 8:4–5, uma mulher é levada a Jesus sob acusação de adultério. Os acusadores lembram a Lei de Moisés, que determinava o apedrejamento, e perguntam o que Ele diria. Em João 8:7, Jesus responde: “Quem dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” E, em João 8:11, afirma: “Nem eu também te condeno; vai e não peques mais.”
Naquele momento, Jesus rompeu com a aplicação rígida e punitiva da lei mosaica. Ele não negou o erro, mas colocou a misericórdia acima da punição pública. Ele expôs a hipocrisia dos que usavam a lei como instrumento de condenação enquanto ignoravam suas próprias falhas. Foi um gesto que confrontou um modelo conservador de justiça baseado exclusivamente na punição.
Isso deveria servir de alerta.
Hoje, muitos líderes religiosos e políticos se apresentam como guardiões da moral. Erguem bandeiras da família, da tradição e dos bons costumes. Mas alguns deles estão envolvidos em escândalos, corrupção, enriquecimento ilícito ou práticas que contradizem o discurso público. Ainda assim, utilizam a identidade de conservadores como escudo. O rótulo vira ferramenta de manipulação. A moral vira marketing. A fé vira instrumento de arrecadação e poder.
Há pais e mães que se dizem conservadores, mas traem. Há políticos que defendem valores tradicionais enquanto exploram a força de trabalho do próximo ou fazem da mentira estratégia eleitoral. Há líderes que condenam publicamente comportamentos alheios enquanto negociam interesses próprios nos bastidores.
O problema não é a conserva. É a hipocrisia embutida nela.
E, para finalizar, é preciso dizer algo com clareza. Se uma escola de samba coloca a família dentro de uma lata de conserva, o problema não está na alegoria. A arte tem o papel de provocar reflexão. O Carnaval sempre foi espaço de crítica social, de metáfora, de questionamento.
O incômodo surge quando alguém se reconhece na crítica.
Talvez a pergunta não seja por que colocaram a família na lata. Talvez a pergunta seja outra. Qual é o seu papel dentro dessa conserva? Você é o alimento que sustenta valores reais ou é um dos elementos que, em excesso, contamina e faz mal?
Antes de criticar a alegoria, vale uma auto reflexão. Porque a metáfora não acusa nomes. Ela apenas expõe comportamentos.
E, como ensinou Jesus, antes de atirar a primeira pedra, é preciso olhar para dentro.



