Quando o vídeo começa, o Código de Trânsito termina?
Deputado anuncia R$ 45 milhões, mas vídeo levanta dúvida sobre exemplo no trânsito
Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra o deputado federal Nikolas Ferreira anunciando a destinação de R$ 45 milhões para a construção de um anel viário em São João del-Rei. Ao lado dele aparecem o vice-governador Mateus Simões, a vereadora Roberta Lopes e o prefeito Aurélio, que conduz o caminhão durante a gravação.
No discurso, o deputado comemora a liberação dos recursos e fala em “milagre” para viabilizar a obra. O investimento é relevante e atende a uma demanda antiga do município histórico mineiro, que sofre com o tráfego pesado de caminhões em sua área central.
Não é só na direção do Estado que Ratinho Junior comete supostas infrações; no trânsito também
O problema não está no anúncio. Está na forma.
As imagens mostram o prefeito ao volante do caminhão enquanto o vídeo é gravado, em movimento. Em determinado momento, é possível notar ausência aparente de cinto de segurança por parte de ocupantes do veículo. A cena levanta uma pergunta inevitável: para agentes públicos, o Código de Trânsito vale menos?
O Código de Trânsito Brasileiro é claro. Dirigir utilizando telefone celular, ainda que para gravação de vídeo, é infração gravíssima. Conduzir veículo sem cinto de segurança também é infração. Não há exceção para prefeitos, governadores, deputados ou vereadores.
Não é um caso isolado. Nos últimos anos, tornou-se comum ver políticos gravando vídeos enquanto dirigem. Já houve governador do Paraná ao volante fazendo gravação. Vereadores repetindo a prática. Deputados filmando em movimento. A cultura da autopromoção digital parece estar acima da prudência.
A questão é pedagógica. O que se espera de uma autoridade pública é exemplo. Se a população pode ser multada por usar o celular dirigindo, por que autoridades aparecem fazendo o mesmo em vídeos oficiais? A mensagem transmitida é perigosa: a de que há cidadãos de primeira e de segunda categoria.
Outra dúvida legítima surge a partir das imagens: o prefeito possui habilitação adequada para conduzir caminhão? Veículo dessa categoria exige CNH compatível. Caso possua, nada há de irregular nesse ponto. Caso contrário, estaríamos diante de possível infração administrativa.
Vereador vai pedir providência no IAM e nós na SEMOB?
Não se trata de minimizar a importância do investimento anunciado. R$ 45 milhões para infraestrutura viária são relevantes. Mas recurso público não autoriza descuido com regra pública.
Autoridade que cobra respeito à lei precisa, antes de tudo, cumpri-la.
Afinal, a pergunta que fica é simples: quando a câmera liga, o cinto pode desligar? Ou a lei continua valendo para todos?


