Segurança psicológica entra no radar da gestão de pessoas

Segurança psicológica entra no radar da gestão de pessoas

A segurança psicológica é incorporada às discussões sobre gestão de pessoas e desempenho organizacional por sua relação com a forma como profissionais interagem, compartilham informações e participam de decisões no ambiente de trabalho. O conceito descreve a percepção dos colaboradores de que podem se manifestar, levantar dúvidas ou relatar erros sem sofrer consequências negativas de ordem pessoal ou profissional. 

O tema passou a ganhar visibilidade a partir de estudos que analisaram o funcionamento de equipes em diferentes contextos organizacionais. Um dos mais conhecidos é o Projeto Aristóteles, desenvolvido pelo Google, que avaliou o desempenho de equipes internas para identificar fatores associados a resultados consistentes. A pesquisa concluiu que a segurança psicológica foi o elemento mais presente entre os grupos de melhor desempenho, superando variáveis como formação, experiência ou perfil individual dos integrantes. 

Esse tipo de evidência ajudou a ampliar o debate sobre o papel do ambiente de trabalho na troca de informações. Para Nilson Pereira, CEO do ManpowerGroup Brasil, o conceito está diretamente ligado à forma como o conhecimento circula nas organizações. "A segurança psicológica cria condições para as pessoas compartilharem informações relevantes, inclusive aquelas que indicam riscos ou falhas nos processos", afirma. 

Pesquisas de mercado reforçam essa associação. O relatório State of the Global Workplace, da Gallup, indica que equipes classificadas como engajadas apresentam níveis mais altos de produtividade e rentabilidade, além de menores índices de absenteísmo e rotatividade. O estudo relaciona o engajamento a fatores como participação, clareza de expectativas e possibilidade de expressão no trabalho, elementos frequentemente observados em ambientes psicologicamente seguros. 

Na avaliação de Nilson Pereira, esses dados ajudam a explicar por que o tema passou a ser tratado de forma mais estruturada. "Quando as pessoas se sentem à vontade para se manifestar, a organização amplia sua capacidade de identificar problemas, ajustar processos e tomar decisões baseadas em informações", diz. 

Outro levantamento amplamente citado foi publicado pela McKinsey, que analisou a relação entre ambientes organizacionais inclusivos e desempenho financeiro. O estudo aponta que empresas com culturas que favorecem a participação e a diversidade de perspectivas tendem a apresentar melhores resultados em inovação e crescimento quando comparadas a pares do mesmo setor. 

Esse conjunto de pesquisas contribuiu para aproximar a segurança psicológica das discussões estratégicas. Em um cenário marcado por mudanças frequentes nos modelos de negócio, avanço da automação e escassez de profissionais em determinadas áreas, a troca de informações e a identificação rápida de falhas operacionais passaram a ser fatores relevantes para a gestão. "A qualidade das decisões está diretamente relacionada à qualidade das informações disponíveis", afirma Nilson Pereira. 

Na prática, o conceito passou a ser observado nas rotinas de trabalho. A segurança psicológica se manifesta na forma como reuniões são conduzidas, como erros são tratados e como opiniões divergentes são recebidas pelas lideranças. "Ela aparece no cotidiano das equipes, nas interações entre líderes e profissionais", diz o CEO do ManpowerGroup Brasil. "Não está associada a um único processo ou ferramenta." 

Ao mesmo tempo, estudos também analisam os impactos da ausência desse tipo de ambiente. Um levantamento do Chartered Institute of Personnel and Development (CIPD), do Reino Unido, aponta que contextos marcados pelo medo de errar ou de se expor estão associados a níveis mais altos de estresse e menor colaboração entre profissionais, fatores que afetam a tomada de decisão e o funcionamento das equipes. 

No Brasil, o debate ocorre em paralelo a discussões sobre cultura organizacional e estilos de lideranças. Pesquisas de clima indicam que parte dos profissionais ainda percebe riscos ao expressar discordâncias ou questionar decisões. Para Nilson Pereira, esse aspecto tem implicações diretas para a gestão. "A falta de espaço para questionamentos pode dificultar a identificação de problemas operacionais e limitar a participação das equipes", afirma. 

Diante desse cenário, a revisão de práticas de gestão avança em diferentes frentes. Programas de desenvolvimento de lideranças passaram a incorporar conteúdos relacionados à escuta ativa, gestão de conflitos e condução de conversas estruturadas, enquanto modelos de avaliação vêm sendo ajustados para reduzir barreiras à comunicação.  

Para Nilson Pereira, essas mudanças ocorrem em um contexto mais amplo de transformação do trabalho. "Mudanças tecnológicas, novos formatos de organização e expectativas diferentes por parte dos profissionais levam as empresas a revisarem práticas de gestão e comunicação interna", afirma. Segundo ele, nesse ambiente, a segurança psicológica passa a ser considerada um dos elementos que influenciam a dinâmica das relações profissionais e o funcionamento das equipes no dia a dia.

DINO