Superávit no governo Ratinho, prejuízo no campo: quem ficou com a conta da Copel?
A queda e as constantes oscilações no fornecimento de energia elétrica provocaram um prejuízo estimado em R$ 9 milhões e a morte de aproximadamente 900 mil quilos de tilápias em Tupãssi, no Oeste do Paraná. O caso é grave e escancara um debate que vai além do campo: quem paga a conta quando um serviço essencial falha?
A Justiça determinou que a Companhia Paranaense de Energia (Copel) resolva o problema em até 48 horas, sob pena de multa diária. A decisão judicial veio após o produtor Paulo Michelon relatar sucessivas oscilações desde o início de janeiro, com agravamento nesta semana.
Na quinta-feira, equipamentos queimaram e os aeradores deixaram de funcionar, comprometendo a oxigenação da água. O resultado foi devastador: peixes prontos para o abate morreram em poucas horas.
“Eu alojo cerca de 1 milhão e 100 mil peixes nessa área. Já estavam prontos para o abate, com quase 1 milhão de quilos. Pelo valor de mercado, o prejuízo chega a R$ 9 milhões. Como vou pagar o banco e os investimentos? Chega uma hora que os equipamentos não aguentam. É uma dor profunda. Passei mal e precisei ir ao hospital”, desabafou o produtor.
Privatização e responsabilidade
O episódio reacende críticas à privatização da Copel, aprovada durante o governo de Ratinho Junior. À época, o discurso oficial foi de modernização, eficiência e melhoria nos serviços. A promessa era clara: mais investimento e menos burocracia.
Mas quando a energia falha no interior produtivo do Estado, quem responde? O produtor que investe, gera emprego e movimenta a economia regional não pode ficar refém de instabilidade elétrica.
No campo, energia não é luxo. É sobrevivência. Na piscicultura, minutos sem oxigenação podem significar milhões jogados fora. Em granjas, frigoríficos, laticínios e irrigação agrícola, o cenário é semelhante.
O produtor paga duas vezes?
A crítica que ecoa em Tupãssi é simples: primeiro o Estado vende uma empresa estratégica; depois, quando o serviço não atende, o prejuízo recai sobre quem produz.
Se houve falha técnica, ela precisa ser corrigida imediatamente. Se houve negligência, que seja apurada. Se há deficiência estrutural, que se invista com urgência. O que não é aceitável é transformar o empreendedor rural em segurador involuntário do sistema elétrico.
O Paraná é líder nacional em produção de tilápia. O Oeste é um dos polos mais fortes do país. Um episódio como esse não é apenas um drama individual. É um alerta para toda a cadeia produtiva.
A pergunta que fica
A privatização trouxe, de fato, mais segurança e estabilidade ao fornecimento de energia? Ou o interior do Paraná está pagando o preço de uma decisão vendida como sinônimo de eficiência?
É preciso dizer com clareza: grande parte do superávit anunciado pelo governador Ratinho Junior tem origem na venda de ativos do Estado, especialmente da Companhia Paranaense de Energia. Mais de 50% do resultado fiscal comemorado pelo governo decorre da privatização da estatal. Não se trata apenas de aumento de arrecadação ou corte estrutural de despesas, mas de uma receita extraordinária obtida com a venda de patrimônio público.
A pergunta que fica é direta: o caixa positivo é resultado de gestão permanente ou da alienação de um ativo estratégico construído ao longo de décadas pelos próprios paranaenses?
Enquanto o debate político segue nos gabinetes e nos números oficiais, a realidade no campo é brutal e imediata: 900 mil quilos de peixe mortos, R$ 9 milhões em prejuízo e uma família tentando entender como irá honrar financiamentos, salários e investimentos.
Quando a energia falha, não é apenas a luz que apaga. É o trabalho de meses que se perde em horas. É o investimento de anos que vai embora com a água. E, no fim das contas, quem absorve o impacto não é o Estado que celebrou o superávit, mas o produtor e o consumidor paranaense.


