Cidadão honorário ou mico institucional? Câmara de Maringá ainda pode evitar esse vexame
A Câmara Municipal de Maringá aprovou, em regime de urgência, um projeto de lei que concede ao secretário de Estado das Cidades, Luiz Augusto Silva, o Guto Silva, o título de Cidadão Honorário de Maringá. A proposta, apresentada pelos vereadores Odair Fogueteiro, Angelo Salgueiro, Cristian Maia Maninho e Junior Bravin, ainda passará por segunda discussão.
A pergunta que fica é simples: qual a urgência para essa homenagem?
Homenagens públicas, especialmente títulos de cidadania honorária, deveriam ser reservadas para pessoas que tenham prestado serviços extraordinários e incontestáveis à cidade. Não se trata de uma medalha simbólica qualquer. Trata-se de um reconhecimento institucional da população de Maringá, concedido pelo Poder Legislativo em nome da cidade.
No caso de Guto Silva, a justificativa parece frágil.
Ser secretário de Estado das Cidades e realizar repasses ou programas para municípios não é favor. É função do cargo. É obrigação administrativa de quem ocupa uma pasta pública financiada pelos impostos dos cidadãos.
Ou seja, cumprir o dever institucional não deveria ser motivo para receber título honorário.
Mais preocupante ainda é o contexto em que essa homenagem surge.
Quando o projeto foi apresentado, em dezembro de 2025, é verdade que algumas das polêmicas envolvendo o secretário ainda não tinham vindo à tona. Mas desde então o cenário mudou. O próprio O Diário de Maringá publicou áudios relacionados ao escândalo envolvendo a Sanepar que esta sendo investigado pelo MPF, material que ganhou repercussão nacional e foi repercutido por veículos como Metrópoles e Folha de São Paulo.
Além disso, surgiram denúncias envolvendo suspeitas relacionadas ao programa Programa Olho Vivo. O jornalista Marcos Formeghieri, da Gazeta do Paraná, também trouxe questionamentos públicos sobre o tema. Segundo as informações divulgadas, há suspeitas de irregularidades e até menções a percentuais de propina que, segundo os relatos apresentados nas denúncias, poderiam chegar supostamente a cerca de 20%. Veja:
Diante desse cenário, causa estranheza ver uma homenagem dessa natureza avançar com tanta rapidez. Para muitos observadores da política estadual, o que se vê hoje é um personagem envolvido em polêmicas que ainda precisam ser esclarecidas. Em vez de um currículo incontestável de feitos extraordinários por Maringá, o que parece surgir no debate público é algo que, para muitos, se aproxima mais de uma suposta ficha corrida de questionamentos políticos do que de um histórico que justificaria uma homenagem dessa magnitude.
Esses fatos, por si só, deveriam recomendar prudência.
Antes de correr para entregar títulos e diplomas, o mais razoável seria aguardar que todas essas questões fossem devidamente esclarecidas. A pressa para homenagear alguém que está no centro de debates e suspeitas públicas cria uma situação constrangedora para a própria cidade.
Maringá não precisa passar por esse tipo de vexame institucional.
Outro ponto que chama atenção é o próprio regime de urgência aplicado à proposta. Em uma cidade que enfrenta desafios reais, como saúde, mobilidade, educação, segurança e planejamento urbano, é difícil entender por que a Câmara decidiu tratar uma homenagem como prioridade legislativa.
Urgente deveria ser Guto Silva explicar os questionamentos envolvendo o escândalo da Sanepar. Urgente deveria ser esclarecer as denúncias e suspeitas levantadas sobre o Sistema Olho Vivo. Urgente deveria ser apresentar transparência sobre contratos públicos que movimentam milhões de reais.
Homenagens podem esperar.
Ao insistirem nessa proposta, os vereadores que assinam o projeto acabam expondo Maringá a um constrangimento desnecessário. A cidade, conhecida nacionalmente por sua organização e qualidade de vida, não merece virar palco de homenagens apressadas que podem se transformar em mico institucional.
Títulos honorários devem elevar o nome da cidade.
Não colocá-la em situação embaraçosa.
Ainda há tempo para refletir. A segunda votação pode ser a oportunidade para que o Legislativo maringaense demonstre prudência, responsabilidade e respeito com a própria história da cidade.


