Sanepar em Ponta Grossa: denúncias de fraude, perseguição a servidor e suspeitas de proteção institucional revelam um sistema onde a ética virou risco

Sanepar em Ponta Grossa: denúncias de fraude, perseguição a servidor e suspeitas de proteção institucional revelam um sistema onde a ética virou risco

Um conjunto de documentos analisados no âmbito do Inquérito Civil nº MPPR-0113.23.003409-3, conduzido pelo Ministério Público do Paraná, revela um quadro preocupante dentro da Gerência Regional de Manutenção Eletromecânica Sudeste da Sanepar, em Ponta Grossa. O que deveria ser um caso de apuração de irregularidades administrativas acabou expondo algo ainda mais grave: um ambiente onde denúncias são sufocadas, gestores são protegidos e quem tenta agir com ética paga um preço alto.

Os registros apontam para suspeitas de direcionamento de contratações, execução de serviços antes da formalização de contratos e fraude em medições de obras e serviços. O que chama atenção, porém, não são apenas as irregularidades em si, mas a forma como o sistema interno de controle reagiu a elas.

Em vez de servir como instrumento para corrigir falhas e responsabilizar gestores, a estrutura de compliance da empresa teria sido usada para minimizar os fatos e proteger os envolvidos.

A cronologia de um caso que se arrasta

A primeira denúncia formal surgiu em 22 de janeiro de 2022, quando um registro interno apontou descumprimento de medidas sanitárias e problemas de gestão. A manifestação acabou arquivada rapidamente sob a justificativa de “falta de materialidade”.

Um ano depois, em 14 de fevereiro de 2023, uma nova denúncia trouxe acusações muito mais graves. O documento relatava assédio moral, perseguição interna e possíveis irregularidades em licitações e contratos firmados com empresas terceirizadas, entre elas Martins Engenharia e JDF.

A partir daí foi aberta a primeira investigação interna da companhia, identificada como NC.A 01/2023. Durante a apuração, a própria Sanepar reconheceu falhas nos procedimentos. Mesmo assim, as consequências administrativas foram mínimas.

Os gestores Danilo José Raffo e Leandro Carlos Neves receberam apenas advertências formais.

Segundo informações constantes nos documentos analisados, ambos aparecem como doadores de R$ 5 mil cada para um partido político. Apesar das irregularidades apontadas, continuaram exercendo funções na empresa.

Em 23 de outubro de 2023, ao responder questionamentos do Ministério Público, a companhia descreveu as irregularidades com termos técnicos e amenizados. Execuções de serviços sem contrato formal, por exemplo, foram classificadas apenas como “falhas procedimentais”.

Pressão externa e novas revelações

Somente após pressão do Ministério Público ocorreu uma nova análise interna, identificada como NC.AC 04/2023, realizada entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2024.

Foi nessa segunda fase que surgiram duas confirmações graves.

A primeira foi a existência de fraudes em medições de serviços.

A segunda foi o reconhecimento de que houve retaliação contra o servidor que fez a denúncia.

Mesmo assim, a resposta institucional continuou limitada.

Em 10 de julho de 2024, a Controladoria-Geral do Estado (CGE) emitiu parecer afirmando que as medidas adotadas pela Sanepar eram “suficientes”. A conclusão foi considerada controversa por ignorar o impacto funcional e psicológico sofrido pelo denunciante.

O caso do patrimônio público “doado”

Entre os episódios relatados na denúncia, um dos mais alarmantes envolve a destinação de materiais pertencentes à Sanepar.

Gestores teriam repassado equipamentos e bens da companhia para empreiteiras parceiras sob a justificativa de que estariam “contaminados” ou inutilizáveis.

O problema é que, segundo os documentos, não houve controle formal sobre a destinação desses itens, nem rastreabilidade que garantisse que o descarte realmente seguiu critérios ambientais.

Na prática, patrimônio público teria sido entregue a terceiros sem qualquer mecanismo transparente de fiscalização.

A linguagem que suaviza irregularidades

Outro ponto que chama atenção nos documentos analisados é a forma como as irregularidades foram descritas pela própria empresa.

Execuções sem contrato e fraudes em medições foram tratadas como “equívocos” ou “irregularidades sanáveis”.

Em algumas justificativas internas, gestores receberam atenuantes com base na alegação de que possuíam “conduta ilibada”.

Especialistas em administração pública ouvidos sobre casos semelhantes afirmam que esse tipo de argumento costuma ser usado para reduzir punições disciplinares, mesmo quando o regulamento interno prevê sanções mais severas, como demissão por justa causa.

O denunciante que virou alvo

Se os gestores receberam advertências, o denunciante acabou enfrentando consequências muito mais profundas.

O servidor Murilo Eduardo Rolam relatou ter sofrido quebra de sigilo da denúncia, o que teria permitido que os próprios investigados soubessem quem havia levado o caso aos órgãos de controle.

A partir daí, segundo os documentos, começaram episódios de isolamento profissional, pressões internas e perseguição administrativa.

A própria análise posterior da empresa reconheceu que houve retaliação contra o denunciante.

O impacto foi devastador.

Murilo desenvolveu quadros severos de depressão e ansiedade, passando a depender de medicação controlada. Sem suporte efetivo da empresa e convivendo diariamente com os mesmos gestores que havia denunciado, ele acabou pedindo desligamento da companhia para preservar sua saúde.

Maringaense Isadora Simões conquista título do BT 200 de Albufeira, em Portugal

Investigação criminal continua

Embora o Ministério Público tenha promovido o arquivamento do inquérito civil na esfera de improbidade administrativa, por questões técnicas relacionadas à comprovação de dolo específico, a investigação criminal não terminou.

“Não podemos nos conformar com homens matando mulheres”, diz Lula

O caso segue em análise na Delegacia de Combate à Corrupção (DECCOR) da Polícia Civil, que apura possíveis crimes relacionados às irregularidades apontadas.

O contraste com a realidade da população

Enquanto os documentos revelam disputas internas, suspeitas de irregularidades e perseguição a denunciantes, moradores de Ponta Grossa convivem com problemas recorrentes no abastecimento de água.

Há relatos frequentes de desabastecimento prolongado em alguns bairros. Quando o serviço é restabelecido, moradores reclamam da coloração escura da água e de odores desagradáveis.

A contradição é evidente. De um lado, suspeitas de má gestão e possível desperdício de patrimônio público. Do outro, cidadãos pagando tarifas elevadas por um serviço que muitas vezes não atende aos padrões esperados.

Exame de vista gratuito

Um retrato preocupante

O caso expõe um dilema que vai além de uma unidade regional da empresa.

Ele revela um problema estrutural que se repete em diversas instituições públicas e estatais brasileiras: sistemas de controle criados para garantir transparência acabam sendo usados para proteger estruturas de poder.

No papel, programas de compliance prometem integridade e ética corporativa.

Na prática, quando o denunciante é isolado e os gestores seguem protegidos, a mensagem que fica é clara.

Denunciar irregularidades pode custar a carreira, a saúde e, em alguns casos, a própria vida profissional.

E enquanto isso acontece, o cidadão continua pagando a conta.

Seja na tarifa de água, seja no preço silencioso da impunidade.

Redação O Diário de Maringá

Redação O Diário de Maringá

Notícias de Maringá e região em primeira mão com responsabilidade e ética

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *