Paranavaí: denúncia no MP sobre totens milionários pode atingir gestão Maurício Gehlen (PSD) e supostamente respingar em deputado estadual
Uma contratação milionária feita pela Prefeitura de Paranavaí para instalação de totens de segurança passou a ser questionada após denúncia encaminhada ao Ministério Público. O caso envolve um contrato superior a R$ 4,5 milhões firmado por meio de inexigibilidade de licitação com a empresa Helper Tecnologia, sediada em Curitiba.
A denúncia foi apresentada pela bacharel em Direito Regina Perrota, moradora de Paranavaí, que afirma ter encontrado inconsistências técnicas e jurídicas ao analisar os documentos do processo administrativo disponíveis no Portal da Transparência.
Em entrevista ao portal O Diário de Maringá, Regina relatou que decidiu aprofundar a investigação após receber informações de que um dos totens instalados na Praça dos Pioneiros, em Paranavaí, estaria desligado desde o fim das decorações de Natal.
Segundo ela, o equipamento estaria sem alimentação elétrica desde o dia 20 de janeiro, o que levantou dúvidas sobre a eficiência do serviço contratado.
“Eu fui até o local verificar e realmente o totem estava desligado. Não havia sistema elétrico que abastecesse o equipamento. Achei estranho e comecei a investigar os contratos”, afirmou.
Custo mensal chama atenção
Ao analisar os documentos do processo, Regina afirma ter encontrado valores elevados para a locação dos equipamentos.
De acordo com os dados levantados por ela, cada totem teria custo aproximado de R$ 15 mil a R$ 16 mil por mês para o município.
Os documentos indicam ainda a existência de 240 unidades ou monitoramentos, com valor unitário de R$ 15.820,87, totalizando cerca de R$ 3,79 milhões. Entretanto, segundo Regina, a própria documentação apresenta inconsistências.
“Os documentos têm erros matemáticos, inconsistência entre valores, unidades e formatação. É difícil até entender se são 240 equipamentos, 240 meses ou apenas um erro de digitação”, afirmou.
Segundo ela, também aparece nos documentos um valor mensal aproximado de R$ 452 mil, o que levanta dúvidas sobre o período total do contrato.
Questionamento sobre inexigibilidade de licitação
O principal ponto da denúncia envolve o modelo de contratação utilizado pela prefeitura.
O contrato foi firmado por inexigibilidade de licitação, modalidade prevista na legislação apenas quando não há possibilidade de concorrência entre fornecedores, geralmente por exclusividade técnica ou inviabilidade de competição.
No entanto, Regina afirma ter encontrado um documento dentro do próprio processo que indicaria a existência de outras empresas capazes de prestar o serviço.
Trata-se de um memorando nº 443/2025, que registra consulta à empresa Solução Network, companhia da própria região.
Segundo o documento, a empresa foi consultada para pesquisa de preços de link de dados, mas já teria sido informada de que quem executaria o serviço seria a Helper.
Para Regina, esse detalhe pode ser decisivo.
“Se outra empresa pode oferecer o serviço, não existe justificativa para inexigibilidade. Nesse caso o correto seria licitação. A própria documentação mostra que houve alinhamento de preços com o mercado”, afirmou.
Investigação no Ministério Público
Diante das inconsistências apontadas, Regina protocolou denúncia no Ministério Público do Paraná, pedindo investigação sobre possível irregularidade no contrato.
Segundo ela, o procedimento ainda está em fase inicial.
“Está bem no começo. O Ministério Público é quem tem capacidade para analisar tecnicamente os documentos e verificar se houve irregularidade ou não”, disse.
Além do MP, ela estuda também encaminhar representação ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).
A análise poderá avaliar, entre outros pontos:
- possível uso indevido de inexigibilidade de licitação
- inconsistências nos valores e cálculos do contrato
- possível aglutinação de serviços diferentes em um único contrato
- custo elevado de locação dos equipamentos
Possível prejuízo aos cofres públicos
Outro ponto que chamou atenção foi o fato de um dos equipamentos estar sem funcionamento.
Segundo Regina, apenas o totem localizado na Praça dos Pioneiros já teria gerado prejuízo estimado em cerca de R$ 32 mil, considerando dois meses de pagamento sem operação.
“Estamos falando de dinheiro público. Quando as informações não são claras, é natural que surjam suspeitas e que a sociedade cobre explicações”, afirmou.
Bastidores políticos
Durante a entrevista, também foi questionada a possibilidade de participação de agentes políticos na negociação do contrato, assunto que circula nos bastidores da política regional.
Regina disse não possuir provas ou informações nesse sentido.
“Eu não trabalho com ilação. Só analiso documentos e aquilo que posso provar. Se existe envolvimento político, isso terá que ser investigado pelas autoridades”, declarou.
Apesar da negativa de Regina, uma outra fonte ouvida pela reportagem afirmou possuir provas de que um assessor de um deputado estadual teria, supostamente, intermediado a negociação. Segundo essa fonte, caso as informações sejam confirmadas pelas autoridades competentes, a situação poderia trazer consequências políticas graves, inclusive colocando em risco o mandato do prefeito e do deputado citado.
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No entanto, cabe às autoridades responsáveis conduzir as investigações e apurar eventuais responsabilidades. O papel de O Diário de Maringá é informar com responsabilidade e acompanhar os desdobramentos do caso.
A reportagem de O Diário de Maringá tentou contato com o prefeito de Paranavaí, Maurício Gehlen (PSD), mas não obteve retorno. O vice-prefeito Pedro Baraldi (PP) chegou a atender a equipe de reportagem e, posteriormente, o secretário de Segurança, Ademir Giandotti Jr., encaminhou uma nota oficial à redação.
Segundo a análise feita pela redação do O Diário de Maringá, entretanto, a nota não esclareceria completamente os questionamentos levantados, principalmente sobre o modelo de contratação e os valores do contrato.
Com a denúncia já protocolada, o caso agora deverá seguir para análise do Ministério Público, que poderá arquivar o procedimento ou abrir investigação formal sobre o contrato.
Imagem da Manchete : Lucas Baroni assessor do deputado Soldado Adriano José e o Prefeito de Paranavaí


