Olho Vivo ou “me dá minha parte em dinheiro vivo”? Contratos do programa começam a levantar suspeitas no Paraná
Programa Olho Vivo: um negócio da China com parceria marroquina
Nos últimos anos, o Paraná tem acompanhado uma sequência de debates envolvendo grandes contratos públicos, empresas estatais e programas apresentados como soluções modernas para problemas históricos do Estado. Um dos casos recentes ganhou repercussão nacional com denúncias envolvendo a Sanepar.
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As suspeitas passaram a ser investigadas pelo Ministério Público Federal após a divulgação de áudios comprometedores que vieram a público depois de serem revelados pelo jornal O Diário de Maringá. O material levantou questionamentos sobre um possível esquema de caixa dois e colocou o tema no radar das autoridades e da opinião pública.
Agora, um novo episódio começa a gerar inquietação nos bastidores políticos e administrativos do Paraná.
Chegaram à redação de O Diário de Maringá documentos e relatos que apontam para supostas irregularidades na aquisição de câmeras e equipamentos do programa Olho Vivo, iniciativa de monitoramento que tem sido associada politicamente ao secretário e pré-candidato ao governo do Paraná, Guto Silva.
O programa foi apresentado como um avanço tecnológico para a segurança pública, com câmeras inteligentes capazes de identificar veículos roubados, auxiliar investigações e ampliar a capacidade de vigilância das forças de segurança.
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Na teoria, trata-se de uma ferramenta importante.
Mas quando contratos milionários entram em cena, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver também transparência, valores contratados e critérios de aquisição.
Segundo as informações preliminares que chegaram à nossa redação, os números relacionados à compra dos equipamentos e à estrutura do sistema chamam atenção e levantam dúvidas que precisam ser esclarecidas.
Além disso, fontes ouvidas pela reportagem afirmam que uma segunda fase do programa Olho Vivo poderia ampliar significativamente o alcance do sistema. Segundo essas informações, as câmeras também poderiam ser utilizadas para identificar veículos com mandado de busca e apreensão por atraso em financiamentos, além de cruzar dados para detectar veículos com débitos de IPVA ou licenciamento em atraso.
Caso esse tipo de integração venha a ocorrer, o sistema poderá se transformar não apenas em uma ferramenta de segurança pública, mas também em um poderoso instrumento de fiscalização e arrecadação.
Na prática, isso poderia levar a dois cenários possíveis: reduzir a quase zero a inadimplência do IPVA no Paraná ou superlotar os pátios onde são armazenados veículos apreendidos por irregularidades administrativas.
É um debate que precisa ser feito com transparência, porque envolve diretamente o cotidiano de milhões de motoristas paranaenses.
Se as suspeitas em análise vierem a se confirmar, o programa que nasceu com o nome Olho Vivo poderá acabar recebendo um apelido nada elogioso nos bastidores políticos: “Programa minha parte em Dinheiro Vivo”.
É importante deixar claro que os documentos ainda estão sendo analisados e que a investigação jornalística está em andamento. O papel da imprensa não é condenar antecipadamente, mas investigar, questionar e cobrar explicações quando surgem indícios que envolvem dinheiro público.
Nossa equipe segue analisando contratos, ouvindo fontes e cruzando informações sobre fornecedores, valores e modelos de contratação do sistema.
Se as irregularidades forem comprovadas, o episódio poderá se tornar mais um capítulo do que muitos analistas já passaram a chamar, de forma crítica, de “Método Paraná”: grandes programas anunciados com forte discurso público, mas que acabam cercados de dúvidas sobre quem realmente se beneficia dos contratos.
Se o programa Olho Vivo foi criado para vigiar o crime, a sociedade também tem o direito de vigiar o destino do dinheiro público.
E, quando se trata de recursos da população, a maior câmera de vigilância da democracia continua sendo a transparência.
A redação de O Diário de Maringá segue apurando os fatos e novas informações serão divulgadas em breve.


