Guto Silva no olho do furacão em Maringá: quem autorizou instalar câmeras antes da licitação?
No Paraná é assim: um olho no gato e outro no rato
A reportagem publicada neste domingo pela Gazeta do Paraná trouxe à tona um conjunto de documentos que colocam o programa Olho Vivo no centro de uma discussão que vai muito além da tecnologia de monitoramento urbano. O que está em jogo não é apenas a instalação de câmeras inteligentes nas cidades do Estado, mas a forma como um projeto público de quase R$ 581 milhões pode ter sido conduzido.
Segundo a matéria publicada neste domingo, começa a surgir um roteiro que causa desconforto em qualquer debate sério sobre administração pública: primeiro se escolhe o modelo, depois se instala parte da estrutura e somente depois se abre a licitação.
O Pregão 203/2026, registrado no Portal Nacional de Contratações Públicas, prevê a contratação de R$ 580.951.440,00 para o programa Olho Vivo, com recebimento de propostas marcado para 8 de abril de 2026. Até aqui, nada pareceria fora do normal em um projeto de segurança pública.
O problema começa quando os próprios documentos do Estado indicam que a implantação prática do sistema já vinha ocorrendo antes mesmo da concorrência formal.
Um ofício protocolado em novembro de 2025, assinado por Leandro Victorino de Moura, superintendente da Superintendência-Geral de Governança de Serviços e Dados (SGSD), solicitava apoio da prefeitura de São José dos Pinhais para a instalação de equipamentos de videomonitoramento vinculados ao projeto Olho Vivo.
No documento, o governo pede acesso a espaços públicos, ligação de energia e suporte para instalação de equipamentos que seriam operados por “provedores autorizados pelo Estado”.
Em outras palavras, a engrenagem já estava em movimento.
A própria comunicação oficial do governo do Ratinho Junior reforça essa percepção. Em dezembro de 2025, a Agência Estadual de Notícias informou que 1,5 mil câmeras começariam a ser instaladas e que 10 municípios já participavam da implantação. Em janeiro de 2026, a cidade de Londrina começou a receber cerca de 150 câmeras inteligentes, equipadas com reconhecimento facial e leitura automática de placas.
Os dados divulgados indicavam que aproximadamente 430 equipamentos já estavam em funcionamento no Paraná.
Diante disso, surge a pergunta que qualquer cidadão faria: se parte do sistema já estava sendo implantado e operando em cidades do Estado, o que exatamente está sendo licitado agora por R$ 580,9 milhões?
O histórico político do projeto também levanta questionamentos adicionais. Em março de 2025, o governador Ratinho Junior e o secretário das Cidades, Guto Silva, participaram de reunião com representantes da Hikvision, uma das maiores fabricantes de tecnologia de vigilância do mundo, para discutir um modelo de monitoramento semelhante ao programa Smart Sampa.
Pouco tempo depois, o próprio governo anunciou uma parceria tecnológica com o Google para ampliar o uso de inteligência artificial em áreas como segurança pública.
Quando se observa a sequência dos fatos, a dúvida deixa de ser apenas técnica.
Primeiro ocorreram reuniões com fornecedores de tecnologia. Depois vieram anúncios de implantação. Municípios começaram a receber equipamentos. Infraestruturas foram montadas. E somente depois apareceu o edital milionário.
Em qualquer manual básico de gestão pública, o procedimento correto é exatamente o contrário.
A Lei nº 14.133/2021, a nova Lei de Licitações, determina que a contratação pública deve ser precedida por planejamento formal, definição clara do objeto e competição efetiva entre fornecedores. Quando a execução de um projeto começa antes mesmo da concorrência entre empresas, especialistas em direito administrativo classificam a situação como risco de “fato consumado”.
Em termos simples, significa criar uma realidade irreversível antes da disputa.
Isso levanta perguntas que precisam ser respondidas.
Qual foi a base legal para instalar equipamentos antes da licitação?
Quem autorizou o uso de espaços públicos e infraestrutura urbana antes da contratação definitiva?
Por que um projeto anunciado inicialmente com cerca de R$ 400 milhões aparece agora em um pregão de R$ 580,9 milhões?
Os equipamentos que já estão funcionando seguem o mesmo padrão tecnológico do edital ou pertencem a outro modelo contratual?
E principalmente: houve competição real entre empresas ou apenas a tentativa de dar aparência concorrencial a um modelo previamente definido?
Outro ponto que chama atenção é o silêncio político diante das dúvidas que começam a surgir. O secretário Guto Silva, apontado como um dos articuladores do projeto, precisa explicar qual foi o papel da Secretaria das Cidades na definição do modelo tecnológico e na implantação do sistema antes da licitação.
Curiosamente, Guto Silva estará em Maringá nesta semana para receber uma homenagem. A presença do secretário na cidade levanta uma questão inevitável: ele aproveitará a oportunidade para responder às perguntas que começam a surgir sobre o programa Olho Vivo ou fará de conta que não é com ele?
O momento talvez seja ideal para esclarecimentos públicos. Afinal, quando se trata de um projeto que envolve quase R$ 600 milhões em dinheiro público, silêncio dificilmente ajuda a dissipar dúvidas.
E há ainda o silêncio de figuras nacionais da política paranaense, como o senador Sergio Moro, cuja trajetória política foi construída no discurso de combate à corrupção e defesa da legalidade nos contratos públicos.
Diante de questionamentos envolvendo um programa dessa magnitude, o silêncio não ajuda a esclarecer dúvidas. Pelo contrário. Aumenta a necessidade de investigação e transparência.
O O Diário de Maringá deixa claro que esse assunto não termina aqui. Nossa redação pretende publicar nos próximos dias documentos, ofícios e provas que ajudam a entender como esse projeto começou a ser implantado antes mesmo da licitação milionária.
E uma pergunta inevitável começa a surgir também dentro do próprio jornalismo paranaense.
A imprensa do Paraná vai investigar esse caso ou vai simplesmente fingir que não está vendo?
O programa Olho Vivo pode representar um avanço tecnológico importante para a segurança pública. Ninguém discute a utilidade de câmeras inteligentes no combate ao crime.
Mas tecnologia não pode servir de cortina de fumaça para possíveis atropelos administrativos.
Quando se trata de dinheiro público, a regra é simples: primeiro se planeja, depois se licita, e só então se executa.
Se essa ordem foi invertida no Paraná, o debate deixa de ser sobre câmeras.
Passa a ser sobre transparência, responsabilidade pública e respeito ao dinheiro do contribuinte.
E isso, cedo ou tarde, terá de ser explicado.


