Ratinho errou ou mentiu? A verdade sobre a jornada de trabalho nos EUA e no Japão
Ratinho Júnior errou feio: como é realmente a jornada de trabalho no Japão e Estados Unidos
O governador do Paraná, Ratinho Junior, utilizou recentemente os modelos de Japão e Estados Unidos para criticar propostas de mudança na jornada de trabalho no Brasil, especialmente o debate sobre o fim da escala 6×1.
A declaração ocorreu durante entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes. Segundo o governador, nesses países o trabalhador teria liberdade total para escolher quantas horas deseja trabalhar. A fala sugere que Japão e Estados Unidos funcionariam com jornadas praticamente livres, sem limites legais relevantes.
Ratinho Junior disse:
“Olha, sobre a escala 6×1, eu tenho uma visão de que deveria ser igual ao Japão e aos Estados Unidos: a remuneração por hora trabalhada. Se eu quiser trabalhar 20 horas por semana, é problema do cidadão. Se quiser trabalhar 40 horas por mês ou 60, isso também é problema dele. Ele que se organize com o setor em que vai trabalhar”, disse Ratinho, o que não é verdade.
Quando os dados são confrontados com a legislação e com estatísticas internacionais de trabalho, porém, a comparação apresentada não se sustenta.
No Japão, a Lei de Normas Trabalhistas estabelece que a jornada padrão é de 8 horas por dia ou 40 horas por semana. Para ultrapassar esse limite, a empresa precisa firmar o chamado Acordo 36 com os trabalhadores. Mesmo com esse acordo, há limites legais para horas extras, normalmente até 45 horas extras por mês e 360 horas por ano.
Além disso, a legislação japonesa exige ao menos um dia de descanso semanal. Na prática, portanto, o Japão opera dentro do modelo tradicional de cinco dias de trabalho por semana, o chamado sistema 5×2.
Nos Estados Unidos também existe limite. A legislação federal conhecida como Fair Labor Standards Act estabelece 40 horas semanais como referência nacional. Qualquer hora trabalhada acima desse limite precisa ser paga com adicional mínimo de 50%, ou seja, 150% do valor da hora normal.
Portanto, ao contrário do que foi sugerido na entrevista, tanto Japão quanto Estados Unidos possuem regras claras para jornada e pagamento de horas extras.
Mas o ponto mais importante da comparação não é apenas a jornada legal. É quanto cada trabalhador recebe por cada hora trabalhada e quantas horas trabalha por mês.
No Brasil, a jornada legal é de 44 horas por semana, o que representa cerca de 220 horas por mês.
No Japão, a jornada padrão é de 40 horas semanais, equivalente a aproximadamente 200 horas por mês.
Nos Estados Unidos, a jornada padrão também gira em torno de 40 horas semanais, ou cerca de 200 horas por mês.
Ou seja, apenas olhando para a carga de trabalho mensal já aparece uma diferença importante: o brasileiro trabalha mais horas por mês do que japoneses e americanos.
Agora entra o segundo fator: quanto cada trabalhador ganha por hora.
No Brasil, considerando o salário mínimo atual, a hora de trabalho gira em torno de R$ 7 a R$ 8.
No Japão, a média do salário mínimo regional fica próxima de ¥1.000 por hora, equivalente aproximadamente entre R$ 30 e R$ 40 por hora.
Nos Estados Unidos, o salário mínimo federal é US$ 7,25 por hora, o que equivale a cerca de R$ 35, enquanto estados como a Califórnia pagam cerca de US$ 16 por hora, algo próximo de R$ 80 por hora.
Se transformarmos isso em renda mensal aproximada com base na jornada padrão de cada país, o cenário fica ainda mais claro.
Brasil
cerca de 220 horas por mês
salário mínimo aproximado: R$ 1.600
Japão
cerca de 200 horas por mês
renda mínima mensal aproximada: entre R$ 6.000 e R$ 8.000
Estados Unidos (mínimo federal)
cerca de 200 horas por mês
renda mínima aproximada: cerca de R$ 7.000
Estados Unidos (estados como Califórnia)
cerca de 200 horas por mês
renda mínima aproximada: entre R$ 14.000 e R$ 16.000
Isso significa que, mesmo trabalhando mais horas por mês, o trabalhador brasileiro recebe várias vezes menos que trabalhadores japoneses e americanos.
Outro ponto importante é que o próprio Japão vem tentando reduzir jornadas excessivas. O país enfrenta há décadas o problema conhecido como karoshi, termo usado para mortes causadas por excesso de trabalho.
Nos últimos anos, empresas japonesas e governos locais passaram a incentivar jornadas menores e modelos mais flexíveis para melhorar produtividade e qualidade de vida.
Diante desses dados, a comparação feita pelo governador acaba sendo incompleta.
Se a proposta fosse realmente seguir o modelo de Japão e Estados Unidos, o debate deveria começar por três pontos claros: jornada próxima de 40 horas semanais, pagamento rigoroso de horas extras e valorização real da hora trabalhada.
Hoje o trabalhador brasileiro trabalha mais horas por mês que japoneses e praticamente o mesmo que americanos, mas recebe muito menos por cada hora de trabalho.


