Ao defender jornada de trabalho de até 60 horas, Ratinho Júnior quer normalizar trabalho análogo à escravidão, como ocorreu em fazenda de seu pai?
Um passado marcado por condenação judicial e uma declaração recente colocam novamente a família Massa no centro de um debate incômodo no Brasil: o limite entre desenvolvimento econômico e respeito ao trabalhador.
Em 2016, a 8ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho condenou o apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, ao pagamento de R$ 200 mil por danos morais coletivos. A decisão foi baseada na constatação de condições degradantes de trabalho na Fazenda Esplanada, em Limeira do Oeste, Minas Gerais.
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Trabalhadores foram encontrados em situação análoga à escravidão. Faltavam equipamentos de proteção, não havia sanitários adequados, as refeições eram feitas na lavoura e direitos básicos eram ignorados. Também houve o aliciamento de trabalhadores de estados como Maranhão e Bahia sem o cumprimento das exigências legais.
Não se trata de interpretação. Trata-se de decisão judicial confirmada pela mais alta instância da Justiça do Trabalho.
Quase dez anos depois, o tema volta ao centro do debate por iniciativa do próprio filho, o governador do Paraná, Ratinho Júnior.
Em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, no dia 15 de março de 2026, o governador criticou a proposta de fim da escala 6×1 e classificou a medida como inviável. Mais do que isso, defendeu a possibilidade de ampliação da jornada de trabalho, admitindo modelos que podem chegar a até 60 horas semanais.
A fala não é apenas polêmica. Ela é reveladora.
Defender jornadas dessa magnitude em pleno 2026 ignora décadas de avanços na legislação trabalhista e desconsidera dados concretos sobre saúde e produtividade. Sessenta horas semanais significam, na prática, jornadas superiores a 12 horas por dia durante quase toda a semana.
É o tipo de carga de trabalho que o mundo desenvolvido tenta reduzir, não ampliar.
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Para sustentar sua posição, o governador citou países como Japão e Estados Unidos. A comparação, no entanto, não se sustenta. Nessas nações, a jornada padrão é de 40 horas semanais, com regras rígidas para pagamento de horas extras e limites claros para sua realização.
No Japão, o excesso de trabalho é tratado como problema de saúde pública. Nos Estados Unidos, a média semanal é inferior à brasileira. Ou seja, o argumento utilizado pelo governador não apenas é frágil, como induz a uma leitura distorcida da realidade.
No Brasil, os sinais já são claros. Em 2024, cerca de meio milhão de trabalhadores foram afastados por doenças psicossociais relacionadas ao trabalho. Não são números abstratos. São pessoas adoecendo por um modelo que exige cada vez mais e protege cada vez menos.
Diante desse cenário, defender mais horas de trabalho não é uma proposta técnica. É uma escolha política.
E é justamente aqui que o passado e o presente se encontram.
De um lado, uma condenação por condições degradantes de trabalho. De outro, um discurso que relativiza limites básicos da jornada laboral. Não se trata de responsabilizar o filho pelos atos do pai, mas de reconhecer uma linha de pensamento que parece persistir.
O trabalhador, mais uma vez, aparece como variável de ajuste.
O debate sobre jornada de trabalho no Brasil é legítimo e necessário. Mas ele exige responsabilidade, dados concretos e compromisso com a dignidade humana.
Quando um governador defende jornadas que beiram a exaustão e utiliza comparações que não se sustentam, o que está em jogo não é apenas economia. É o respeito ao limite humano.


