Na Santa Ceia de Ratinho, o Judas pode estar sentado na cabeceira
Na próxima segunda-feira, no Palácio Iguaçu, Ratinho Junior reúne deputados para um almoço que tenta parecer institucional. Fala-se em alinhamento, em projetos, em parceria. Mas o ambiente político no Paraná já deixou claro: não é apenas um almoço. É um momento simbólico de ruptura.
E aqui não há espaço para rodeios.
Na Santa Ceia política montada por Ratinho Junior, desta vez o Judas pode ser o próprio anfitrião.
A metáfora é forte, mas faz sentido diante do que está acontecendo. Ratinho já decidiu seu caminho ao mirar a Presidência da República. Até aí, legítimo. O problema não é sair. O problema é como está saindo.
Ao evitar assumir publicamente um sucessor, ele não se coloca como árbitro. Ele se coloca como alguém que reorganiza o jogo para não pagar o preço da decisão. E quem paga essa conta são os aliados.
Rafael Greca e Alexandre Curi não foram derrotados politicamente. Foram empurrados para fora de um espaço que ajudaram a construir. Colocados contra a parede, tiveram que escolher entre sair do partido ou aceitar um papel secundário em um projeto onde já não são prioridade.
Ratinho não rompe. Mas também não sustenta.
E é exatamente aí que a metáfora da traição ganha força. Porque não se trata de um ataque frontal, mas de um movimento silencioso que desmonta a base por dentro.
Na mesa de segunda-feira estarão deputados que sempre votaram com o governo, inclusive nomes do PL que agora caminham para o campo de Sergio Moro. Ratinho convida todos, sorri para todos, agrada a todos. Mas, ao mesmo tempo, deixa todos sem uma direção clara.
É o tipo de gesto que parece união, mas revela fragmentação.
O regabofe tem função. É afago. É tentativa de manter a base sob controle em um momento em que o controle começa a escapar.
E, como em toda ceia política, há o prato que ninguém quer encarar.
Os anúncios de liberação de recursos para municípios viraram motivo de preocupação. Prefeitos investiram, iniciaram projetos, confiaram no que foi divulgado. Agora, cresce o medo de que falte dinheiro para cumprir o que foi prometido.
Se isso se confirmar, o impacto será direto. Prefeitos frustrados, deputados pressionados e um desgaste que explode justamente no momento mais sensível: a véspera de uma eleição.

A equipe do governo corre para fechar contas. Mas há uma diferença brutal entre anunciar e entregar. E política não perdoa promessas vazias.
Ratinho Junior construiu sua imagem com base em gestão. Agora, ao buscar um salto nacional, corre o risco de deixar no Paraná uma herança de incerteza política e desorganização interna.
O almoço de segunda-feira será mais do que uma despedida.
Será um termômetro.
Porque, no fim, a pergunta que ficará não é quem traiu quem.
Mas se o próprio Ratinho, ao tentar preservar sua estratégia e seu futuro político, não acabou assumindo o papel de Judas dentro da própria base.
E esse tipo de marca não se apaga com discurso.
Se consolida com os fatos.
A imagem da manchete é de Paranavaí, onde Ratinho está servindo pessoas e, em tom de brincadeira, admite que só estava servindo os outros para sobrar mais para ele. Há quem veja nessa cena uma metáfora do próprio governo: faz de conta que está servindo o povo, mas, no fim, seria apenas um truque para sobrar mais para si.



