Brasil perde R$ 26 bi por ano com corrupção na saúde

Brasil perde R$ 26 bi por ano com corrupção na saúde


O Brasil perde cerca de R$ 26 bilhões por ano com corrupção na área da saúde, segundo estimativa do Instituto Ética Saúde (IES), entidade da sociedade civil dedicada há mais de uma década à promoção da ética, da integridade e da transparência na cadeia produtiva do setor no país. O dado evidencia a dimensão do impacto dos desvios de recursos sobre a capacidade do sistema de atender à população.

O valor corresponde a aproximadamente 2,3% dos gastos totais em saúde no Brasil — proporção alinhada às estimativas de perdas com corrupção na economia nacional. Considerando um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 11,7 trilhões e investimentos em saúde equivalentes a 9,7% desse total, o montante desviado atinge níveis expressivos e crescentes.

Na comparação com 2019, quando o prejuízo estimado era de R$ 14,5 bilhões, o volume atual representa um crescimento de 79%, refletindo tanto a ampliação dos investimentos no setor quanto o aumento das denúncias e investigações relacionadas a irregularidades.

Na prática, esses recursos poderiam viabilizar investimentos estruturais relevantes, como a construção de 52 hospitais públicos de grande porte, o financiamento de 26 mil Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) móveis ou a aquisição de mais de 2.200 aparelhos de ressonância magnética de alta resolução. A perda, no entanto, compromete diretamente a qualidade da assistência e o acesso da população aos serviços.

"A corrupção na saúde não é apenas um problema administrativo ou financeiro. Ela tem consequências diretas na vida das pessoas. Cada recurso desviado significa menos acesso ao diagnóstico, ao tratamento e, em muitos casos, à própria chance de sobreviver", afirma Sérgio Rocha, presidente do Conselho Administrativo do Instituto Ética Saúde.

No Brasil, episódios recentes evidenciam a vulnerabilidade do sistema a práticas ilícitas, especialmente em momentos de crise. Durante a pandemia de covid-19, operações policiais em diferentes estados investigaram suspeitas de superfaturamento, fraudes em contratos emergenciais e irregularidades na aquisição de insumos hospitalares, expondo fragilidades nos mecanismos de controle e fiscalização.

"Quantificar essas perdas é fundamental para que a sociedade compreenda a gravidade do problema. Estamos falando de recursos que deveriam estar salvando vidas, mas que acabam alimentando esquemas ilícitos", destaca Sérgio Rocha.

A cadeia da saúde, marcada por sua complexidade e fragmentação, é considerada particularmente suscetível a riscos de corrupção. Por isso, o Instituto Ética Saúde atua na articulação entre diferentes atores do setor para fortalecer práticas de governança, compliance e integridade nas relações entre empresas, prestadores de serviços, profissionais e instituições.

Na prática, a entidade desenvolve diretrizes de autorregulação, programas de integridade, ações de conscientização e mecanismos de prevenção a fraudes e irregularidades. O objetivo é promover relações mais transparentes e responsáveis em toda a cadeia, contribuindo para o fortalecimento da confiança entre o setor e a sociedade.

O presidente do IES aponta que o enfrentamento da corrupção na saúde exige não apenas fiscalização rigorosa e aplicação da lei, mas também transparência, cooperação institucional e mobilização social.

O impacto, ressalta Rocha, vai além das cifras. A redução de recursos disponíveis compromete diagnósticos, tratamentos e a própria capacidade do sistema de responder às necessidades da população.

"O combate à corrupção se consolida como condição essencial para garantir o direito à saúde e à vida dos brasileiros", conclui o presidente do IES.

DINO