Violência contra idosos: Paraná registra quase o dobro da média nacional de notificações
Violência contra idosos: Paraná registra quase o dobro da média nacional de notificações
Campanha Junho Violeta mobiliza sociedade e especialistas para frear a subnotificação e o avanço de homicídios no Estado
Dados do Atlas da Violência 2026, que compreende o período de 2014 a 2024, revelam um cenário alarmante nas notificações de violência contra idosos no Paraná: em 2024, a taxa de violência interpessoal (quando uma pessoa comete um ato de violência contra outra) notificada contra a população idosa atingiu 172,1 casos por 100 mil habitantes. Esse número é praticamente o dobro da média registrada em todo o Brasil, que ficou em 88,4.
Além disso, o recorte mais recente dos dados acende um sinal de alerta para o Paraná. No curto prazo, entre 2019 e 2024, o Estado registrou uma alta de 4,8% nos homicídios de idosos, caminhando na contramão do cenário nacional, que apresentou redução de 13,2% no mesmo período.
Celebrada em 15 de junho, a campanha Junho Violeta é uma iniciativa internacional de conscientização e combate à violência contra a pessoa idosa. Coordenada no Brasil pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a campanha promove a dignidade e o envelhecimento seguro.
Tipos de abuso e o silêncio
Para compreender o que está por trás desses números, Letícia Thiel Stinglin, responsável técnica do CEDIVIDA (Centro de Direitos à Vida da Pessoa Idosa), programa mantido pela Associação dos Amigos do HC, explica que as agressões assumem diferentes faces no cotidiano dos idosos.
“Os idosos estão entre os grupos mais vulneráveis à violência, e os tipos mais frequentes são a violência física, a violência psicológica, a negligência ou abandono, além da violência patrimonial e da violência sexual, que embora menos notificada, também ocorre”, destaca.
Letícia aponta que o abismo entre o número de agressões reais e as denúncias oficiais, a chamada subnotificação, continua sendo um dos maiores entraves para a proteção dessas vítimas. “A subnotificação é um grande desafio, pois muitos casos não chegam às autoridades. Isso acontece porque os agressores costumam ser familiares ou cuidadores e o idoso depende deles financeiramente ou emocionalmente. O medo de retaliação, a vergonha, o estigma social e o isolamento dificultam a denúncia”, acrescenta..
O isolamento e o próprio envelhecimento populacional agravam essa realidade. Segundo Letícia, a ausência de uma rede comunitária sólida deixa o idoso à mercê do abusador, tornando a violência um “problema invisível”, que perpetua desigualdades e fragiliza a dignidade.
Como identificar os sinais de alerta?
A violência contra a pessoa idosa costuma acontecer dentro de casa. Por isso, a atenção de familiares, vizinhos e amigos é uma ferramenta essencial para salvar vidas. A responsável técnica do CEDIVIDA enumera os principais indícios que a comunidade deve observar:
- Sinais físicos: Hematomas frequentes, cortes, queimaduras, fraturas inexplicadas ou sinais claros de má higiene corporal, que podem revelar agressões ou negligência severa.
- Sinais comportamentais: Mudanças bruscas de humor, medo excessivo ou retração perto de determinadas pessoas, isolamento social voluntário, apatia crônica ou recusa em falar sobre a própria rotina.
- Sinais financeiros: Desaparecimento injustificado de objetos de valor da residência, movimentações bancárias suspeitas, benefício ou aposentadoria controlados por terceiros sem consentimento real, e pressões para assinar documentos ou procurações.
“Esses sinais, quando observados em conjunto ou de forma repetida, devem ser encarados como um alerta social. A atenção da comunidade é essencial, pois muitas vezes o próprio idoso não denuncia por medo, vergonha ou dependência”, reforça Leticia Thiel Stinglin.
Canais de denúncia
Buscando romper esse ciclo de invisibilidade, o CEDIVIDA atua estrategicamente não apenas no suporte imediato e acolhimento de vítimas, mas na prevenção ativa. O centro promove programas de convivência comunitária, ações culturais que estimulam a autonomia e campanhas educativas para conscientizar a sociedade.
Para que a rede de proteção funcione, no entanto, a participação social por meio da denúncia é indispensável. Se você suspeita ou testemunha qualquer situação de abuso, negligência ou exploração contra um idoso, utilize os seguintes canais oficiais, seguros e sigilosos:
- Disque 100: Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. É um serviço gratuito e sigiloso, que atua com prioridade para casos envolvendo idosos.
- Disque Idoso Paraná: Atendimento especializado do estado, que pode ser acessado pelo telefone 0800 141 0001 ou pelo e-mail disqueidoso@sejuf.pr.gov.br
- Polícia Militar (190): Canal voltado para emergências imediatas e situações de flagrante.
- Polícia Civil (197): Canal indicado para registrar boletins de ocorrência e dar início a investigações.
- Conselhos Estaduais e Municipais dos Direitos da Pessoa Idosa: Órgãos que realizam o acolhimento e encaminham os casos diretamente para os serviços de proteção competentes.
Serviço:
CEDIVIDA – Centro de Direitos à Vida da Pessoa Idosa
Endereço: Av. Agostinho Leão Júnior, 320 – Alto da Glória
Horário de atendimento: de segunda a sexta, das 8h30 às 17h0
Telefone: (41) 3122-8650
Site: https://cedivida.org.br/
Crédito da foto: Beatriz Bordignon




