Ratinho diz que Moro não construiu nada, mas obras do próprio governo acumulam suspeitas de sobrepreço e atrasos

Ratinho diz que Moro não construiu nada, mas obras do próprio governo acumulam suspeitas de sobrepreço e atrasos


Governador cobra de um senador atribuições do Executivo, enquanto obras e contratos estaduais enfrentam auditorias, indícios de irregularidades, atrasos e cobranças de fornecedores

O governador Ratinho Junior afirmou que Sergio Moro “nunca construiu nada na vida”. A declaração surgiu em um vídeo no qual o governador reafirmou apoio à pré-candidatura de Sandro Alex ao Governo do Paraná.

Ratinho tenta transformar a eleição estadual em uma comparação entre quem construiu e quem não construiu. No entanto, o argumento ignora uma diferença básica entre as funções públicas exercidas pelos dois grupos.

Moro ocupa uma cadeira no Senado. Portanto, não administra diretamente secretarias de Infraestrutura, não contrata empreiteiras e não executa pontes ou rodovias estaduais.



Um senador representa o estado no Congresso Nacional. Entre suas atribuições estão elaborar e votar leis, fiscalizar o Poder Executivo federal, analisar o Orçamento da União, participar de comissões e votar indicações para determinadas autoridades.

Isso não impede a sociedade de cobrar resultados de Moro. Pelo contrário, o eleitor deve avaliar sua produção legislativa, seus votos, sua atuação política e sua capacidade de defender os interesses do Paraná.

Entretanto, cobrar de um senador a construção direta de obras públicas distorce o debate. Esse tipo de execução cabe principalmente aos governos, às prefeituras e aos respectivos órgãos administrativos.

Construir também significa concluir, pagar e prestar contas

Ratinho Junior pode apresentar as obras realizadas durante seus mandatos. Sandro Alex, que comandou a Secretaria de Infraestrutura e Logística, também pode defender os projetos nos quais trabalhou.

Porém, construir não significa apenas anunciar investimentos, mostrar máquinas em vídeos ou organizar grandes inaugurações.

Uma administração eficiente precisa planejar, contratar corretamente, fiscalizar, pagar fornecedores e entregar os projetos dentro de padrões técnicos e financeiros aceitáveis.

Quando uma obra acumula suspeitas, aditivos questionados, atrasos ou fornecedores sem receber, ela deixa de representar apenas uma conquista publicitária. Também passa a exigir explicações.

Por isso, o discurso de Ratinho contra Moro acaba voltando contra o próprio governo.

Ponte de Guaratuba enfrenta apontamentos do Tribunal de Contas

A Ponte de Guaratuba tornou-se um dos principais símbolos da propaganda estadual. Contudo, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Paraná apontou indícios de possível superfaturamento de aproximadamente R$ 14,8 milhões na execução do contrato.

A fiscalização identificou, entre outros pontos, possível inclusão indevida de serviços e erros na composição de preços de termos aditivos. O DER contestou os apontamentos e sustentou que os pagamentos possuem embasamento técnico. Portanto, os indícios precisam passar pelo devido processo de análise e defesa antes de qualquer conclusão definitiva.

Mesmo assim, o caso não pode ser tratado como um detalhe. Quando um órgão técnico identifica evidências de superfaturamento em uma obra usada como vitrine política, cabe ao governo explicar cada valor.

Além disso, fornecedores que trabalharam no empreendimento instalaram faixas para cobrar pagamentos. Reportagem publicada em junho informou que empresas alegavam valores em aberto e que aproximadamente 160 fornecedores poderiam estar na mesma situação, segundo um dos empresários ouvidos.

Nesse cenário, surge uma contradição evidente: o governo apresenta a ponte como exemplo de competência, enquanto auditorias questionam partes do contrato e fornecedores afirmam que ainda esperam receber.

Engorda da praia de Matinhos também foi questionada

A obra de recuperação e engorda da orla de Matinhos aparece com frequência na publicidade estadual como outra grande realização do governo Ratinho Junior. Entretanto, esse empreendimento também entrou no radar dos órgãos de controle.

Documento publicado pelo Tribunal de Contas em abril de 2026 registra uma representação do Ministério Público Federal sobre indícios de irregularidades nas obras. Segundo o despacho, uma Tomada de Contas Extraordinária da 3ª Inspetoria do TCE identificou “graves irregularidades” na execução do contrato firmado pelo Instituto Água e Terra com o Consórcio Sambaqui.

Entre os pontos descritos estão a inversão injustificada de etapas consideradas cruciais, com o início do engordamento da faixa de areia antes da conclusão de estruturas de contenção. O documento também menciona possíveis riscos de erosão e a necessidade de reavaliar a eficiência das medidas adotadas.

O despacho cita ainda um laudo técnico do Laboratório de Oceanografia Geológica da Universidade Federal do Paraná. Segundo o registro do TCE, o documento indicou que o sedimento utilizado não era igual ao material existente no local, o que poderia provocar desequilíbrio sedimentar e impactos em áreas vizinhas.

Outro ponto mencionado foi o lançamento posterior de sacos plásticos com areia na orla, medida que, conforme a representação, reforçaria a necessidade de nova fiscalização sobre a durabilidade e a eficiência da obra.

O documento também registra que o contrato tinha valor aproximado de R$ 124,5 milhões. A representação pediu que o Tribunal analisasse a movimentação de sedimentos, os gastos públicos, a eficiência das medidas e a possibilidade de desperdício ou aplicação inadequada de recursos.

Esses registros não equivalem, por si sós, a uma condenação definitiva do governo ou das empresas responsáveis. Entretanto, demonstram que a obra não pode aparecer no debate público apenas como uma realização incontestável.

Quando o Tribunal de Contas e o Ministério Público Federal apontam questões técnicas relevantes, a propaganda precisa dar lugar à transparência.

Programa Olho Vivo teve licitação suspensa

O programa Olho Vivo, apresentado pelo governo como uma grande modernização da segurança pública, também enfrentou intervenção do Tribunal de Contas.

Em abril de 2026, o TCE suspendeu cautelarmente um pregão de quase R$ 581 milhões relacionado ao sistema de videomonitoramento. O relatório técnico identificou riscos de sobrepreço, exposição de dados pessoais e possíveis violações de direitos fundamentais.

A suspensão cautelar não representa uma condenação final. Contudo, demonstra que o procedimento apresentava problemas suficientemente relevantes para justificar a paralisação da licitação.

Portanto, antes de usar a construção de obras e programas como prova absoluta de superioridade política, Ratinho deveria explicar por que projetos tão divulgados exigiram a atuação do Tribunal de Contas.

Casa Fácil precisa reconhecer a participação federal

O governo estadual também promove o Casa Fácil Paraná como uma das principais vitrines da atual gestão.

O programa é estadual, executado pela Cohapar, e possui diversas modalidades. A legislação permite parcerias com municípios, órgãos estaduais e o Governo Federal.

Em uma de suas modalidades, a Cohapar concede subsídio de R$ 20 mil para ajudar as famílias no pagamento da entrada. Entretanto, o restante da aquisição depende de financiamento imobiliário concedido pela Caixa Econômica Federal.

Logo, o Estado possui participação real e importante, mas não executa sozinho todo o financiamento habitacional.

Por isso, o governo deveria apresentar de forma clara quanto investiu, quanto veio de financiamentos federais e qual foi a participação dos municípios. Nenhuma esfera pública deveria tentar apagar a contribuição das demais para ampliar o próprio ganho político.

A crítica não está na existência do Casa Fácil. O problema surge quando a publicidade cria a impressão de que o governo estadual financiou sozinho uma política habitacional que depende de várias fontes e instituições.

Terceirização também exige fiscalização

Outro ponto que fragiliza o discurso de eficiência envolve empresas terceirizadas que prestam serviços ao Governo do Paraná.

Quando trabalhadores relatam salários, benefícios ou encargos atrasados, o Estado não pode limitar sua resposta à afirmação de que a responsabilidade pertence exclusivamente à empresa contratada.

O governo escolhe a prestadora por meio de licitação, assina o contrato, acompanha sua execução e autoriza os pagamentos. Portanto, mesmo quando a obrigação trabalhista direta recai sobre a empresa, existe responsabilidade administrativa e política pela fiscalização do serviço.

O mesmo vale para empreiteiras que reduzem o ritmo, interrompem obras, deixam fornecedores sem receber ou não cumprem os cronogramas apresentados.

Uma obra que não termina prejudica trabalhadores, motoristas, moradores e comerciantes. Em rodovias, desvios mal planejados e canteiros prolongados também podem aumentar riscos para quem trafega.

A população não vive de anúncios. Ela precisa de obras concluídas, vias seguras e trabalhadores pagos.

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Propaganda não transfere votos automaticamente

Ratinho Junior escolheu Sandro Alex como seu nome para a sucessão estadual. O ex-secretário procura associar sua candidatura às obras realizadas pelo governo.

Entretanto, a popularidade de um governador não passa automaticamente para seu candidato.

Guto Silva também buscava a indicação do grupo, mas Ratinho escolheu Sandro Alex. Posteriormente, Guto publicou apoio ao nome escolhido pelo governador.

Caso Sandro Alex não consiga reproduzir eleitoralmente a aprovação atribuída ao governo, Ratinho não poderá responsabilizar apenas o candidato. O resultado também refletirá a avaliação sobre a própria gestão.

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A propaganda pode ampliar uma narrativa durante algum tempo. Contudo, ela não apaga obras demoradas, contratos questionados, licitações suspensas e cobranças públicas de fornecedores.

Se o governo dependesse apenas das entregas concretas, talvez não precisasse investir tanto na construção de uma imagem permanente de eficiência.

Ratinho deveria examinar o próprio governo

Esta reflexão não pretende defender Sergio Moro. O senador precisa prestar contas sobre o próprio mandato e demonstrar o que fez pelo Paraná.

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Entretanto, Ratinho Junior não possui autoridade automática para dar aulas de gestão apenas porque seu governo executou obras. O governador também fez promessas que, segundo críticos, não se concretizaram na prática, e parte do que foi anunciado na propaganda ainda não foi entregue. Esse cenário estaria se refletindo na dificuldade de transferência de apoio para seu candidato ao Governo do Paraná.

A Ponte de Guaratuba enfrenta apontamentos sobre possível superfaturamento e cobranças de fornecedores. A engorda da praia de Matinhos teve graves irregularidades descritas em documento do Tribunal de Contas. O Olho Vivo sofreu suspensão de uma licitação de quase R$ 581 milhões. Além disso, programas divulgados como estaduais também dependem de parcerias e financiamentos federais.

Ratinho e Sandro Alex construíram obras. Isso é fato.

Porém, algumas dessas obras também produziram dúvidas, investigações, riscos técnicos, atrasos e questionamentos financeiros. Portanto, não podem servir como certificado absoluto de competência nem como base para desqualificar todos os adversários.

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Antes de afirmar que Moro “nunca construiu nada”, Ratinho deveria explicar o que seu governo construiu, quanto gastou, quais problemas surgiram e quem assumirá a responsabilidade por cada falha.

Governar não significa apenas lançar, anunciar e inaugurar.

Governar significa planejar, fiscalizar, pagar, concluir e prestar contas.

E, nesse aspecto, o governo Ratinho Junior ainda deve muitas explicações aos paranaenses.

Ratinho Junior promete muito, entrega pouco, e o que entrega ainda levanta muitas suspeitas e gera muito trabalho para o TCE e o Judiciário

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Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Perfil Profissional: Gilmar Ferreira (MTB 0011341/PR) Gilmar Ferreira consolida uma carreira multifacetada como jornalista, apresentador de programas de TV e mestre de cerimônias, unindo o rigor da investigação à fluidez da comunicação ao vivo. Com atuação destacada no Paraná e Santa Catarina, ele imprime autoridade técnica e sensibilidade humana em cada projeto que lidera. Atuação Estratégica Atual Diretor de Redação: O Diário de Maringá. Comentarista: Programa Paraná Cidadesno Canal 10.1 e RDR FM 93,3. Mestre de Cerimônias: Atuação oficial em eventos de destaque no Estado do Paraná. Experiência em Televisão Reconhecido pela presença de vídeo e condução de pautas complexas, Gilmar atuou como apresentador de programas e âncora nas seguintes emissoras: TV Maringá (Band) RIC TV Maringá (Record) Record News (Rede Mercosul) RTV 10 Maringá Trajetória no Rádio Com passagens por emissoras líderes de audiência, sua voz é referência em informação e entretenimento: Paraná: Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Santa Catarina: Rádio Menina FM e Rádio Globo AM (Blumenau)

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